Elogios às UPPs e dúvidas sobre a reprodução do modelo

O afastamento do tráfico e de bandos armados até então entrincheirados, a desativação das bocas de fumo e o controle territorial de algumas favelas têm garantido às Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e ao secretário José Mariano Beltrame elogios de boa parte dos especialistas em segurança pública do Rio de Janeiro. ¿São uma via promissora, combinando policiamento comunitário com investimentos sociais¿, afirma, por exemplo, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança do Rio e ex-secretário Nacional de Segurança Pública.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

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    Ainda é cedo para ter uma conclusão, mas está claro que a presença da polícia desestimula a luta entre quadrilhas, dando estabilidade aos locais, completa o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ele acredita numa tendência de queda nos homicídios em comunidades ocupadas, como a que vem se registrando no Dona Marta, em Botafogo. A socióloga Julita Lemgruber, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, completa o coro: Devemos aplaudir o projeto, é uma gota dágua no oceano e deve ser replicado em outros locais.

    Aí é que são elas. A grande dúvida de especialistas consultados pelo iG é a capacidade de estender o modelo e atender às exigências de um Rio de mais de mil favelas. Estamos caminhando porque as unidades pacificadoras deram certo em algumas favelas importantes, mas foram poucas, ressalta o sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e da Universidade Candido Mendes. O problema desse plano é o número de favelas. A factibilidade de atingir 100 (ou mais) favelas depende de recursos que o Estado não tem e requer tempo para preparar e treinar um contingente bem maior de policiais, completa Soares.

    Outro sociólogo do Iuperj, o professor Luiz Antonio Machado, reconhece que não há gente nem dinheiro para universalizar as UPPs, mesmo descontando as (poucas) favelas que não têm tráfico nem milícia. Mas, segundo ele, isso pode não ser necessário: Há vitrines, emblemas, que podem, em tese, se bem escolhidos, alterar o clima geral da violência na cidade.

    A presidente executiva do Rio Como Vamos, Rosiska Darcy, sugere: O modelo não pode ser aplicado mecanicamente em todas as situações. Segundo ela, vai haver necessidade de uma modulação desse tipo de intervenção, isso vai tomando forma em confronto com a realidade. O que não deve mudar é a decisão firme de não abandonar as favelas. O sociólogo Ignácio Cano, da Uerj, acha que as dúvidas sobre a capacidade de replicar o modelo podem servir de argumento para arrefecer o ânimo das autoridades de permanecer nas favelas.

    O problema está na política de exceção, alerta Luiz Eduardo Soares. As unidades reduzem-se a vitrines cuja mensagem vai na direção oposta à da política realmente praticada, que é a do confronto, diz o antropólogo. É para o confronto que se orientam as polícias, e não para a abordagem comunitária.

    O secretário José Mariano Beltrame responde: Esse discurso de enfrentamento é antigo. Trabalhamos com investigação e descobrimos locais onde há atuação do tráfico. Então planejamos uma operação. No caminho somos recebidos por bandidos que usam armas e rechaçam nossa presença. Quem faz isso está abrindo mão do direito de ser defendido.

    O deputado estadual Marcelo Freixo, que investigou na Assembleia Legislativa o domínio das milícias cariocas, discorda. Há dois tratamentos da polícia no Rio, um para o asfalto, outro para as favelas, critica. Ela está ali para garantir os direitos daquela população ou para controlá-la mais de perto?, questiona. Segundo Freixo, o Dona Marta é um exemplo desse descompasso no comportamento policial. Com um ano de ocupação já não dava para ser uma relação diferente? Em tese, ali já não é mais uma área de tensão.

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