Até final de 2010, Rio quer tirar do domínio do tráfico 1/3 dos moradores de favela

Os números são impressionantes. Das mais de mil favelas do Rio de Janeiro, quase a metade está nas mãos dos bandidos, grande parte dominada por traficantes e pelo menos 170 delas dominadas por milícias ¿ bandos formados por policiais, bombeiros e civis, que implantaram uma outra forma de crime organizado, com a exploração clandestina de serviços como venda de gás, transporte e até TV a cabo. O comércio de drogas produz anualmente R$ 300 milhões e financia a busca por armas pesadas de quadrilhas que disputam territórios a bala. Em 10 anos, o aumento de áreas faveladas foi de 3,4 milhões de metros quadrados, o equivalente ao bairro de Ipanema.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

A tais números acrescentam-se cenas assombrosas ¿ de confrontos mais costumeiros a momentos estarrecedores, como as imagens de um helicóptero da PM em chamas no ar, abatido por tiros de fuzil, ou a de um corpo despejado em um carrinho de supermercado. Mais: a dificuldade de acesso pelas vielas, a topografia montanhosa e a alta densidade populacional formam uma tríade que transforma as favelas em trincheiras. Não há outro nome, é guerra, resume o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame.

Números como esses, radiografados pela CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio, Secretaria de Fazenda e Instituto Pereira Passos, órgão da prefeitura carioca, ilustram a complexidade do desafio de elevar a níveis satisfatórios a segurança na cidade que sediará os Jogos Olímpicos de 2016 e a final da Copa do Mundo de 2014. Com eles, parece difícil acreditar num Rio de favelas seguras.

Há muito a fazer, mas o Rio está no caminho certo, chegou a dizer ao iG , em visita ao Brasil, o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, célebre por devolver a paz àquela cidade com o programa Tolerância Zero. Giuliani e a grande maioria dos especialistas ouvidos pelo iG são unânimes ao elogiar a disposição de conjugar a ação enérgica contra os bandidos a ações sociais efetivas ¿ investimentos em obras de infraestrutura e serviços à população que mora nas favelas. (O Rio tem 19% de seus moradores vivendo em favelas, segundo o IBGE).

Fabrizia Granatieri

Morador passa próximo a carro da Polícia Militar no acesso ao Morro Santa Marta

Duas formas de intervenção

São dois caminhos que nem sempre se cruzam. De um lado, está a instalação da chamada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Atualmente são quatro UPPs em cinco comunidades consideradas pacificadas ¿ Favela do Batam, Cidade de Deus, Dona Marta, Chapéu Mangueira/Babilônia. Mais uma UPP, nas favelas do Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo, em Copacabana e Ipanema, está prevista para ser instalada nesta quarta-feira. Além disso, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) entrará no Morro dos Cabritos e na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, para expulsar os traficantes e preparar a instalação de uma nova UPP. Com isso, estariam livres do domínio do tráfico pelo menos 110 mil moradores. Cabe à tropa de elite da PM a responsabilidade das primeiras incursões nas comunidades a serem pacificadas.

Com a chegada de 3,3 mil novos policiais até o fim de 2010, a pretensão é triplicar o número de pessoas beneficiadas pelas UPPs, fechando o mandato do governador Sérgio Cabral com um terço da população da capital que vive em favelas protegido pela polícia. Há estudos do governo para implantação das pacificadoras em 29 comunidades. O objetivo não é acabar com o tráfico ou com a violência, mas acabar com a lógica da territorialidade imposta pelo fuzil, explica o secretário José Mariano Beltrame. Ele não admite por motivos estratégicos, mas depois de concentrar grande parte dos esforços na zona sul da cidade, o foco deve passar para as favelas da zona norte em 2010.

A falta de atenção àquela área é uma das razões das críticas mais enfáticas. A Cidade Maravilhosa está na zona sul. Até aqui se optou principalmente por proteger essa Cidade Maravilhosa, ironiza o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), relator de uma CPI que investigou as milícias no Estado. Há méritos, mas não posso concordar com esse equívoco.

A segunda trilha seguida para pavimentar o caminho rumo a uma cidade de favelas menos violentas é o conjunto de obras de urbanização. As maiores, integrantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), abrangem três grandes favelas do Rio, o Complexo do Alemão, a Rocinha e o Complexo de Manguinhos. Os investimentos chegam a R$ 1,2 bilhão, com previsão de término para o fim do próximo ano. Segundo o recenseamento feito pelo governo do Estado nas comunidades atendidas pelo PAC, no Complexo do Alemão, conjunto de favelas nos bairros de Ramos, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso, na zona norte do Rio, moram cerca de 85 mil pessoas; na Rocinha, vivem 100 mil moradores; em Manguinhos, 31 mil.

André Durão

Construção de conjunto habitacional do PAC em Manguinhos, na zona norte do Rio

O vice-governador e secretário de Obras, Luiz Fernando Pezão, informa que o governo estadual quer verbas do PAC para mais 20 favelas, nas zonas sul, norte e oeste. O lote inclui comunidades que recentemente receberam UPPs, como Batam, Cidade de Deus, Chapéu Mangueira e Babilônia. E ainda as que compõem os complexos da Penha e do Lins.

As novas intervenções, já chamadas de PAC 2 das favelas, consumiriam cerca de R$ 1,3 bilhão em recursos federais e estaduais ¿ dinheiro semelhante ao que Estado e União já investem nas obras do PAC iniciadas no ano passado. Além disso, o prefeito Eduardo Paes deu continuidade ao Favela-Bairro, programa criado na gestão de Cesar Maia e que, em 10 anos, promoveu obras de urbanização, fez investimentos de US$ 300 milhões e intervenções em 62 favelas cariocas.

É preciso urbanizar, equipar e fazer funcionar os serviços públicos, sem o que as intervenções de segurança não terão efeito, sugere o arquiteto Sérgio Magalhães, ex-secretário de Urbanismo da cidade e um dos responsáveis pela implantação do Favela-Bairro. O problema não é entrar. É ficar, alerta.

Contrastes

Os flagelos da vida nas favelas exibem contrastes tão nítidos quanto as intervenções destinadas a saná-los. César Zibinato, de 46 anos, montou um restaurante de comida expressa no Morro da Babilônia ¿ uma das favelas pacificadas ¿ para servir os operários que realizavam obras na comunidade. Com a chegada de grupos de turistas, o restaurante começou a crescer. Não estávamos preparados para receber tanta gente. São pessoas que não sentem mais medo de vir aqui, gaba-se.

Em Manguinhos, no entanto, o servente Victor da Costa, de 24 anos, agradece pela oportunidade de trabalho com as obras do PAC, empolga-se com a estrutura de serviços que está sendo montada no local mas sublinha o medo que persiste. Quando o bicho pega, só Jesus, resume. Durante a visita do prefeito Eduardo Paes e do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani a uma escola no Alemão, berço da obra mais grandiosa do PAC, o iG foi desaconselhado por moradores a andar mais de uma quadra adiante sem proteção.

André Durão

O servente de obras Victor da Costa: 'Quando o bicho pega, só Jesus'

Os contrastes são muitos. Em algumas favelas, existem obras de urbanização sem pacificação. Em outras, pacificação sem obras de urbanização.

O governo reconhece a distância entre o ideal e a realidade, mas está otimista. Temos muitas favelas ainda excluídas dos benefícios urbanos, mas em muitas áreas, depois de 20 anos de abandono, é um grande começo, afirma o vice-governador Luiz Fernando Pezão.

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