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"Usina de Belo Monte não é necessária," diz religiosa

21/05 - 13:39 - Paulo Moreira Leite

No início da década de 60, uma legião de religiosas estrangeiras desembarcou na Amazônia, cumprindo um ritual definido pelo Papa João 23 no Concílio Vaticano 2º, que determinava que as congregações católicas deveriam enviar 10% de seus integrantes à América Latina. Uma dessas religiosas foi a irmã Dorothy que, quase meio século mais tarde, seria executada por pistoleiros de aluguel no interior do Pará.

 

Companheira de Irmã Dorothy na mesma congregação, as “Irmãs de Notre Dame”, de origem belga, a religiosa americana Rebeca Spires vive há 38 anos no Brasil. Dividiu com ela a mesma residência, num bairro pobre de Belém do Pará, foi testemunha no julgamento de seus assassinos e hoje ajuda a manter o trabalho realizado por Irmã Dorothy.

Arquivo pessoal

Arquivo Pessoal

Irmã Rebeca e irmã Dorothy

Irmã Rebeca especializou-se na catequese de tribos indígenas, em que chegou a residir por longos períodos. Ajudou na confecção de um alfabeto em língua nativa, necessário para a preservação de sua cultura. A irmã é uma das encarregadas da área de comunicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que edita e distribui uma revista para milhares de aldeias do país – além de produzir um programa de rádio em língua nativa.

A Irmã Rebeca passou os últimos dias nos preparativos de mobilizações na região de Altamira, pelos quais a população local pretende impedir a construção da barragem de Belo Monte, no rio Xingu. No fim de semana, ela deu uma entrevista ao iG, embarcando a seguir para uma viagem para os Estados Unidos. Já deixara o país quando o engenheiro Paulo Fernando Rezende recebeu um golpe de facão e sofreu um corte no braço durante um protesto indígena.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal
As duas missionárias católicas

No depoimento ao iG, Irmã Rebeca explica por que apóia o movimento indígena contra a usina. Elogia a ex-ministra Marina Silva, critica a absolvição em segundo julgamento de um dos acusados pelo assassinato de irmã Dorothy, mas lembra que a consciência ecológica melhorou bastante nos últimos anos. A entrevista:

IG - A senhora também condena a construção da barragem de Belo Monte. A senhora não acha que o Brasil precisa de energia para progredir e se desenvolver?
Irmã Rebeca - Precisa sim. O erro é que nós discutimos a necessidade de construção de tantas usinas, quando se sabe que é possível conseguir energia sem esses investimentos caríssimos e que tanto prejudicam o ambiente e o modo de vida das populações mais pobres.   

IG - Como assim?
Irmã Rebeca - Não entendo de energia, mas fui pesquisar. Veja que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) prevê um aumento de 13% na produção de energia. É muita coisa. Mas é possível obter essa mesma elevação de outro modo, com investimentos mais baratos. Um simples trabalho de manutenção e recondicionamento das usinas já existentes poderia elevar nossa produção total de energia em 7%. Os investimentos em energia eólica poderiam garantir uma elevação em 1%. A produção de energia solar chegaria a 5%. Só fazendo assim você já alcança o que se pretende com essas usinas.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Grupo de missionárias, com Rebeca e Dorothy ao centro

IG - Por que se quer novas usinas, então?
Irmã Rebeca - Como tantas pessoas, acredito que muitas usinas não são construídas porque sejam realmente necessárias, mas porque é possível ganhar muito dinheiro neste processo. São recursos milionários que estão envolvidos, e que são disputados por grupos que são verdadeiras máfias. Elas, sim, é que tem interesse nas usinas.

IG - Mas a Amazônia não poderia se beneficiar com elas?
Irmã Rebeca - A construção de novas usinas serviria para estimular toda atividade que prejudica a floresta e beneficia grupos que só querem explorar a região de forma predatória.

IG - A senhora é contra a presença de pecuaristas na Amazonia?
Irmã Rebeca - Sou contra a presença de quem destrói a floresta num trabalho predatório e antieconômico. Todo mundo sabe que o solo amazônico não é útil para a agricultura mecanizada, como a da soja. Também não produz capim de boa qualidade. Ou melhor, o capim só é bom no primeiro ano. No segundo, fica fraco. No terceiro, ele não tem nenhum poder nutritivo e aí o pecuarista precisa ir para outro lugar, e vai destruindo a floresta no caminho. O mesmo vale para a soja.

IG - A senhora acredita na palavra de ordem que Irmã Dorothy portava na camiseta "O fim da floresta é o fim da nossa vida?"
Irmã Rebeca - Sem dúvida. A Amazônia precisa ser explorada pela preservação da floresta e não pela sua destruição. Ela só é rica por causa da floresta. Quem pode preservá-la é a população que depende dela para sobreviver. São as nações indígenas, as populações de pequenos agricultores, as pessoas do povo.

IG - Como a senhora interpreta a saída de Marina Silva do ministério do Meio Ambiente?
Irmã Rebeca - A ministra Marina conhecia a realidade da Amazônia. Sabia quais interesses precisam ser enfrentados. Não estava a serviço de grupos que querem lucros imediatos. Aqui existe um rolo compressor a favor desses interesses. Não quero julgar o novo ministro. É preciso aguardar para ver quais medidas ele vai tomar.

IG - A senhora foi testemunha nos dois julgamentos de um dos fazendeiros acusados de ser o mandante do assassinato de Irmã Dorothy. No primeiro julgamento, ele foi condenado. No segundo, foi absolvido. Como a senhora explica isso?
Irmã Rebeca - As pessoas costumam dizer assim: "No Pará, nada surpreende". Mas eu fiquei muito surpresa. Eu achei que, neste segundo julgamento, a acusação portou-se até melhor do que no primeiro. Ela soube explicar melhor os indícios, demonstrou segurança ao mostrar a vinculação entre o mandante e os executores. No primeiro julgamento, os assistentes de acusação tinham dificuldade até de achar as páginas corretas do processo na hora de dar explicações para os jurados. No segundo julgamento se explicou melhor a ligação entre os acusados de serem os mandantes e os escândalos com verbas e subsídios da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônioa). Ficou claro, ao menos para mim, que irmã Dorothy foi assassinada porque representava uma ameaça a um esquema de corrupção.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Grupo de missionárias Notre Dame, com Rebeca e Dorothy ao centro

IG - Como explicar o resultado, então?
Irmã Rebeca - Essas decisões são sempre difíceis de explicar. Hoje nós avaliamos que talvez os jurados não tenham entendido a acusação.

IG - Este julgamento deixou muitas pessoas pessimistas quanto aos direitos das pessoas pobres na Amazônia. Como a senhora vê isso?
Irmã Rebeca - Estou nesta região há quase 40 anos e posso dizer que muitos problemas persistem, mas muita coisa está melhorando. Antes, os madeireiros derrubavam a floresta e ninguém fazia nada. Agora, consegue-se inibir sua atividade, muitas vezes. Veja que os índios têm voz. Antes, eles apenas brigavam entre si. Agora, eles se unem e defendem seus direitos. Sabem que aquilo que for conquistado por uma tribo também poderá servir para todas as outras. No passado, o pequeno lavrador era acusado de tudo. Agora, compreende-se que os principais males sofridos pela floresta não foram produzidos por ele. O mais importante é que a consciência de que é preciso preservar a floresta aumentou. Hoje, mesmo o lavrador mais pobre tem o cuidado de fazer reposição na floresta. Toda vez que derruba uma árvore ele planta outra. Isso é muito importante. 

IG - O papel da Igreja Católica, hoje, é tão grande como antes?
Irmã Rebeca - A influência é importante, mas diminuiu. No tempo da ditadura, a Igreja Católica era um guarda-chuva para todos aqueles que queriam desenvolver uma atividade política. Hoje, existem sindicatos, associações indígenas e muitas outras entidades. No passado, as pessoas usavam um debate sobre causa indígena para discutir política.

Leia mais sobre a irmã Dorothy





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