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"Abusador é um sedutor de crianças," diz especialista

16/05 - 12:08 - Paulo Moreira Leite

Uma das vozes mais ativas na área de infância e juventude, presidente do Movimento em Defesa da Criança e do Adolescente, o promotor Roberto Tardelli está convencido de que é preciso eliminar dois mitos correntes sobre os abusos sexuais de crianças. O primeiro mito é de que o adulto que investe sobre uma criança costuma empregar violência para submetê-la. Não é assim, explica o promotor: "o predator é um sedutor. Ele camufla suas intenções para não afugentar a criança. Seu esforço é tentar convencê-la de que aquilo é bom."

Para Tardelli, esse comportamento pode ser bem sucedido porque "a criança não tem juizo moral formado. Por isso não vê razão para resistir." Um aspecto que facilita essa situação é que o agressor, frequentemente, encontra-se dentro de casa. Estima-se que metade deles é pai biológico, o que define a situação como incesto, um dos principais tabus de quase todas as civilizaçoes, mesmo aquelas consideradas primitivas. Outros casos são tios, vizinhos e outros adultos que têm a confiança da família.  

"Quando uma mãe me pergunta se existe um meio de identificar um predador, eu respondo assim: 'veja se seu filho ou sua filha passou a encontrar-se com um amigo muito mais velho do que ele. Pode não ser nada. Mas existe a chance de que seja um agressor." 

Conforme o promotor, essa situação se modifica quando a criança chega a adolescência. "Aí ela entende o que está acontecendo e ocorre uma grande mudança. A adolescente quer ter seus namorados, levar sua vida. Também tem valores formados. O agressor passa a sentir-se ameaçado, quer controlar a outra pessoa, manifesta ciúme."

O outro mito diz respeito à saúde mental de quem abusa de uma criança. Muitas pessoas estão convencidas de que se trata do reflexo de uma doença psíquica. Tardelli explica: "eu também pensava assim quando comecei, no início da carreira, a examinar esses casos. Sempre pedia um parecer psiquiátrico. Nunca recebi um laudo que apontasse para qualquer doença."

O que ele encontrava, então? "Um comportamento perverso, de pessoas que não enxergam os direitos do outro." Ele encontrou um pai que abusava de uma filha e justificava-se assim: "eu que fiz, eu que uso." Ao colher o depoimento de outro agressor, ouviu uma defesa nos seguintes termos: "não roubo, não mato, não bebo...do que estão me acusando, afinal?"   

Esse comportamento tem sido estudado há mais tempo do que se imagina – por grandes pesquisadores da mente humana. Quando definia os traços iniciais da psicanálise, Sigmund Freud referiu-se ao tema em alguns textos.

Na Primeira Contribuição à Teoria das Neuroses, escreveu sobre os casos "muito numerosos, nos quais um adulto dedicado ao cuidado da criança – preceptora, ama seca ou parente próximo – iniciou-a na vida sexual e manteve com ela, às vezes durante anos a fio, verdadeiras relações amorosas."

Sempre cauteloso para falar do incesto, um dos grandes tabus em praticamente todas civilizações – e que ele trataria em um de seus artigos mais importantes -  o fundador da psicanálise refere-se às "estranhas condições em que o casal desigual prossegue em suas relações amorosas: o adulto que não pode substrair-se à mutua dependência concomitante a toda relação sexual, mas que ao mesmo tempo se acha investido de máxima autoridade e do direito de castigo e muda constantemente de papel para conseguir seus caprichos; a criança indefesa e abandonada a tal arbítrio, precocemente despertada a sua sensibilidade e exposta a todos os desenganos, interrompida com freqüencia no exerício das funções sexuais que lhe são solicitadas."

Com o passar dos anos, Freud perdeu o interesse por essa situação e passou a dedicar uma atenção maior aos fundamentos da teoria da psicanálise. A matriz das idéias geniais de Freud encontra-se no complexo de Édipo, o desejo inconsciente dos filhos pela mãe. Mas a situação doméstica que envolve absusos de crianças, e que tem como iniciativa o comportamento dos pais e adultos, chama a atenção dos estudiosos.

Maurício Garrote, psiquiatra e psicanalista que atende à população pobre da periferia de São Paulo, concorda que esses casos são comuns e que a sedução é mais freqüente do que a maioria das pessoas consegue entender. Ele não recorda muitos exemplos de resistência, como o de uma menina que, abusada dos 6 aos 10 anos de idade por um tio, saiu de casa para trabalhar como empregada doméstica sem salário – apenas para livrar-se da situação.

Garrote acredita que é necessário ser cuidadoso quando se fala em violência. "Podemos falar em violência quando o outro é colocado numa situação sem escolha," explica. De qualquer maneira, naquele "casal desigual" de que falava Freud, cria-se uma condição estruturalmente delicada, pois o poder real de um adulto sobre uma criança que confia dela e de quem ela gosta vai muito além da força física – ainda mais quando se trata do pai.

"Mas não há dúvida de que existe sadismo na relação entre um adulto e uma criança," diz o psiquiatra, referindo-se a uma forma de prazer obtida pela humilhação e desrespeito ao outro.

Descrevendo o cárcere construído pelo engenheiro Joseph Fritzl nos arredores de Viena, onde manteve uma filha apriosionada durante 24 anos em um ambiente de teto baixo, sem janelas, longe do sol, controlado por um sistema eletrônico, Garrote diz que se trata de uma prisão mas observa: "uma prisão requintada."

Ele está convencido de que boa parte dos casos de gravidez precoce de adolescentes envolve crianças nascidas de uma relação entre pais e filhas. "Nem todos nascem em função de namoros como nós estamos habituados a imaginar," diz ele.

Para Roberto Tardelli, é na gravidez que aquele segredo doméstico explode. "Aí ocorre a grande crise," diz ele. "Ninguém consegue explicar quem é o pai da criança. Muitas vezes inventam um namorado, mas ele nunca aparece." Em muitos casos, tenta-se o aborto. Em outros, a criança é dada para a adoção. "Não há dados precisos, mas eu diria que milhares de crianças assim são oferecidas para adoção, todos os anos."

O promotor está convencido de que a maioria das mães tem consciência do que acontece em casa, entre suas filhas e o marido. "Impossível não saber ou não desconfiar de nada. Quem mora numa casa sabe o que acontece," diz. "O que ocorre é que o predador é um marido conveniente", diz. "Não sai de casa. Não volta tarde. É um bom provedor na medida de suas possibilidades. Trata todos bem."

"Quando a crise explode, tudo se modifica", diz o promotor. A mãe, que era capaz de fechar os olhos, volta-se contra o marido. A adolescente, que foi seduzida, é tomada de tamanho horror pelo incesto que "muitas vezes chega a fantasiar que era agredida." E o predador? "Este vai embora. Muda-se para outra cidade ou as vezes para outro bairro. Forma nova família e vai começar tudo de novo. Ele acha natural."    





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