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"Fui abusada por meu pai," diz Arlene, 60 anos

15/05 - 10:27 - Paulo Moreira Leite

Em 19 de abril, uma leitora chamada Arlene enviou uma mensagem ao Último Segundo para comentar uma reportagem sobre violência sexual. "Eu tenho 60 anos e quase bebê fui vítima de abusos sexuais de meu pai", escreveu ela. "Já grande (8 anos) ele insistia em me molestar sexualmente." Em outro trecho ela conta que na adolescência pediu ajuda a mãe, mas não foi ouvida. "Ela ficou tão furiosa que me tratou como se eu fosse sua rival dizendo: 'você abria as pernas para ele.'"

Experiências traumatizantes desse tipo ganharam novos contornos depois da prisão, na Áustria, do engenheiro Joseph Fritzl, que construiu um cativeiro no porão da própria casa, onde abusou da filha durante 24 anos. A história de Arlene tem elementos de pura aberração, mas com outras características. Abusada por um longo período, saiu de casa aos 15 anos, levada pela mãe para um convento de freiras católicas – atitude típica de famílias que queriam culpar uma jovem como se ela fosse considerada de mau comportamento e hábitos pecaminosos.

Entrevistei Arlene por duas horas e meia, no Rio de Janeiro. De sapato, vestido e bolsa, ela é uma senhora igual a tantas outras que se vê pelas calçadas dos bairros pobres das grandes cidades brasileiras. Evangélica, usa roupas simples e cabelos longos e soltos. Ela tem um modo de olhar e de falar que, diante de sua história, é sempre tentador atribuir a um passado de sofrimento. Fala da saúde frágil e explica essa condição como  sequelas da infância. Hoje casada, mãe e avó, Arlene chegou para a entrevista em companhia de uma sobrinha. Deu um depoimento de três horas, gravado sob a condição de que o conjunto de sua identidade fosse preservado. Mas exibiu documentos e um pequeno album de fotografias para não deixar dúvidas sobre sua história e sua identidade.

Também pude conversar com sua filha, formada em Direito, que confirma ter sido informada pela mãe a respeito das passagens mais dramáticas de sua infância. A filha conheceu o avô e diz: "não sei como minha mãe conseguia manter algum tipo de convivência com ele, depois de tudo o que fez para ela."

Pergunto a Arlene por que decidiu dar a entrevista e ela diz que "é preciso fazer um alerta sobre esses abusos. As novas gerações não podem tolerar esse sofrimento em silêncio. " Também diz "que passei a vida inteira com isso preso dentro de mim. Preciso falar."

No dia seguinte à entrevista, Arlene me contou como havia sido seu dia das mães. Disse que ligou para a casa da mãe mas falou com um dos irmãos e a cunhada – e só.

No depoimento gravado, ela descreveu um inferno doméstico prolongado. "Eu era uma criança insegura, infeliz," diz ela, com lágrimas nos olhos, referindo-se a um abuso que consistia em beijos e manipulação e jamais chegou a uma relação sexual completa. Ela conta que sentia dores físicas. "Algumas vezes eu ficava machucada, não era capaz de fazer xixi. Tinha assaduras e hematomas."

Arlene divide suas memórias em duas fases. Conta que embora tenha lembranças vivas de abusos quando era quase bebê, naquele momento tinha dificuldade de entender o que acontecia, pois não possuía  noção exata do que era certo ou errado. Essa situação mudou quando entrou para a escola. "Eu vivia isolada, não ia a casa de vizinhos e tínhamos poucos amigos. Não podíamos conversar, saber como era a vida em outras famílias," conta.

Quando tinha 8 anos, uma  professora contou para a garotada, durante uma aula, como era um casamento. Explicou a vida em família, mostrou o papel de adultos e crianças, deixando clara a diferença de afeto entre os pais e os filhos. "Foi então que entendi que minha família era diferente e que alguma coisa não estava certa em casa."

Arlene recorda que os absusos ocorriam à noite, quando o restante da família parecia dormir. Seu pai entrava no quarto e sentava-se à beira da cama. "Eu perguntava o que ele queria e ele respondia: 'eu só vim te cobrir.'"

Depois das explicações ouvidas em sala de aula, ela passou a trancar a porta do quarto. Também gritava quando ele se aproximava. "Ele chegou a dar um soco na porta," conta. Arlene recorda que certa noite, em função do barulho, sua mãe levantou da cama para perguntar o que estava acontecendo. "Mas tudo me leva a crer que ela já sabia. Quer dizer que o marido saía da cama, levava tanto tempo fora do quarto e ela não sabia de nada, não via nada?"

Ela fala de outras surras, de cinto. Conta que o pai "dizia que eu era um demônio. Dizia que eu estava ali para separá-los. Isso me fazia sentir culpada."

Aos 12 anos, quando Arlene entrou na puberdade, a situação piorou "porque ele começou a ter ciume. Eu não podia ter amigos. Falava que não queria ninguém em casa, que eu já tinha o pai e a mãe e não precisava de ninguém."

Aos 15 anos, ela comunicou sua história a um psiquiatra conhecido da familia. Diz que não foi uma decisão fácil. "Ele perguntou várias vezes se eu queria lhe contar alguma coisa. Criei coragem e contei. Ele pediu para falar com minha mãe. Ele conversou com ela, perguntando se ela sabia de alguma coisa grave, que tinha acontecido comigo na infância, e que até hoje me causava problemas. Ela me disse que eu era indisciplinada, que queria liberdade demais, que vivia tendo problemas na escola. Comecei a chorar. Disse que eu já havia lhe falado sobre meu pai. Ela disse que nunca ouvira nada. Garantiu que meu pai era um homem exemplar."

Mas o médico insistiu que era preciso fazer alguma coisa, conta Arlene. Tempos mais tarde ela acabou saindo de casa. Ainda menor de idade, sem profissão, foi internada pela mãe num convento em Jacarepaguá. Residia num quarto destinado às noviças mas, quando ficou claro que não tinha vocação para seguir uma vida de religiosa, foi morar na casa de uma amiga. Depois prestou concurso e conseguiu um emprego público. Às vezes a família ajudava, às vezes não. Casou-se com pouco mais de 20 anos de idade e hoje é avó.

Embora tenha dois irmãos e seus pais estejam vivos, ainda que em idade bastante avançada, ela não concordou em ajudar o Último Segundo a localizá-los, deixando claro que prefere manter a família a distância. Pergunto por que ela não denunciou nem processou o pai. Ela responde que "naquela época, não se fazia isso. Pai era uma grande autoridade, tinha poder absoluto sobre os filhos. Você não podia nem pensar que iria processá-lo." O pai de Arlene é militar e hoje ela briga na justiça para receber uma pensão a que teria direito por uma legislação anterior à última reforma da Previdência.

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