26/04 -
15:49
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Paulo Moreira Leite
Depois que Orestes Quércia anunciou que estará em seu palanque pela reeleição, o telefone não pára de tocar no gabinete do prefeito Gilberto Kassab, no Vale do Anhangabau. "Essa foi de campeão," cumprimenta um governador de Estado, logo depois que a secretária completa a ligação, na tarde de sexta-feira. "Muito obrigado, muito obrigado," responde Kassab.
Ao longo de um único dia telefonaram aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e mesmo políticos ligados a Aécio Neves, o governador de Minas Gerais que é hoje o principal adversário de José Serra, e, por essa razão, também adversário de Gilberto Kassab.
A campanha municipal ainda está em seus primeiros passos. As convenções para formalizar as candidaturas nem ocorreram. Quem olha para as pesquisas de opinião só encontra o nome de Kassab na terceira posição – mas não há dúvida de que ele deu um salto imenso ao conquistar o apoio do PMDB.
Há menos de um mês, sua candidatura parecia emparedada e sem salvação, entre Marta Suplicy e Geraldo Alckmin. Hoje, os adversários dão sorrisos amarelos e procuram manter o equilíbrio, como aquele cidadão que tenta ficar de pé no meio barco, após uma tempestade.
"O Kassab conquistou nosso apoio pela persistência, pela disposição para negociar, ouvir e estudar alternativas," diz Orestes Quércia. Capaz de assegurar a Kassab um tempo de 7 minutos e 30 segundos na TV – contra 4 minutos do PT e 3 minutos do PSDB --, Quércia passou os últimos meses sob assédio direto dos principais concorrentes. Embora o PT sonhasse em contar com seu apoio, essa possibilidade nunca foi levada a sério pelo próprio Quércia -- por razões federais, estaduais e até pessoais.
Quércia é um crítico permanente do governo Lula, em função da política econômica, "que repete o governo Fernando Henrique". Reclama que o governo chegou a fazer reuniões para dizer que o PMDB era aliado estratégico, "mas depois mandou o partido correr atrás de carguinhos."
No passado, o próprio Quércia já foi aliado do PT quando queria retornar ao senado, mas saiu da campanha irritado porque, na reta final, os petistas o abandonaram sem aviso e sem direito sequer a uma valsa de despedida.
Alckmin enviou o deputado José Anibal para conversar com Quércia. Mas as conversas com o Kassab foram mais produtivas, conta Quércia. "E o Kassab está indo bem como prefeito," explica.
Além de empenhado e aplicado, Kassab tinha garantias a oferecer. Em um ambiente de permanente guerra civil entre tantas ambições, onde nunca se sabe sequer quem estará no partido em 2010, o PSDB tornou-se uma legenda em dificuldade para promover acordos políticos de qualquer tipo – quanto mais de longa duração.
O DEM de Kassab é isso: o DEM de Kassab. O partido batalha 24 horas por dia por sua vitória em São Paulo e só quer ajudar. Quando soube do interesse de Orestes Quércia em concorrer ao Senado, em 2010, o prefeito de São Paulo não fez por menos: convocou o candidato natural do partido, Guilherme Afif Domingos, para uma conversa com Quércia. Ali, de viva voz, perante o próprio prefeito, Afif declarou-se satisfeitíssimo com a aliança – e deixou claro que na mesma hora já passara a faixa de candidato ao novo aliado.
Realizadas num ambiente natural de segredo, as negociações tiveram início no final de 2007. Foi Quércia quem tomou a iniciativa, em um telefonema para Kassab. Comentou que o prefeito tinha admiradores mesmo "entre pessoas próximas a mim". Disse na mesma hora que, "conforme for", poderia até ajudá-lo na campanha pela reeleição.
Ocorreram diversos contatos e conversas demoradas, até que, há 15 dias, os últimos detalhes foram acertados. Na mesma hora, Kassab comunicou o resultado das conversas a dois interlocutores estratégicos – José Serra e o próprio Geraldo Alckmin.
Embora seus assessores estejam convencidos de que a nova musculatura da candidatura tornou-se um ótimo argumento para levar Alckmin a renúncia, Kassab não considera que é seu papel falar sobre este assunto com o pré-candidato do PSDB.
"Ele poderia se ofender," explicou o prefeito a um assessor. Mas o entendimento com o PMDB anda tão bom que o próprio Quércia tem feito apelos públicos a Alckmin para desistir da campanha – e já promete votos para tentar sua volta ao Palácio dos Bandeirantes em 2010.
O próprio Alckmin tem deixado claro que no momento só aceita discutir essa possibilidade numa conversa com José Serra, de quem espera a gentileza de lhe garantir apoio para disputar o governo de Estado em 2010. Pessoas que tem um convívio próximo ao universo tucano consideram essa hipótese altamente improvável – o que significa que o impasse pode se prolongar indefinidamente.
Nesse caso, o PSDB entraria rachado na campanha. O que Kassab faria? "O Serra tem inteligência e experiência para saber o que fazer, no caso de permanecerem os dois candidatos," diz o prefeito.
Na prática, Kassab imagina que fará uma campanha onde terá Marta Suplicy como adversária principal. Neste caso, "a população vai comparar os dois prefeitos e escolher o melhor," diz.
Quando se pergunta se a liderança de Marta nas pesquisas não sugere que o eleitor já pode ter formado sua opinião antes da campanha começar, Kassab explica que "até agora o eleitor não pode conhecer nossa administração. Mas teremos tempo na TV para mostrar o que fizemos."
Ele cita números de memória, dá exemplos. Conforme o Ibope, o número de eleitores que considera seu trabalho bom e ótimo fica em 32%, contra 29% que o definem como ruim e péssimo. Para o Datafolha, o bom e ótimo fica em 38%. O ruim e péssimo em 27%.
Além dos minutos na TV, o apoio de Quércia garantiu a Kassab uma base política respeitável na cidade, de grande utilidade numa campanha que o mundo político encara como a principal disputa política de 2008. "Sua candidatura tem agora maior expressão política, o que é muito importante," afirma Claudio Lembo, governador de São Paulo entre abril e dezembro de 2006.
Pelos cálculos que o próprio Kassab tem feito junto a sua assessoria, a partir de agora, ele terá 80% dos atuais vereadores como aliados de campanha. É uma presença preciosa para pedir votos num território de geografia definida, eleitores concentrados e uma competição bairro a bairro, rua a rua.
Quando lembrei a Quércia que a eleição de 2008 é vista, nacionalmente, como um aperitivo para 2010, ele explicou: "não sou cego, nem surdo nem mudo. Sei muito bem todas as conseqüências políticas deste acordo. Mas nossa preocupação é com a eleição de São Paulo." Ele diz que é favorável ao lançamento, pelo PMDB, de um candidato presidencial em 2010. Mas lembra que, se isso não acontecer, "Serra pode ter nosso apoio." Quércia lembra que o "importante é sair da influência do PT."
Serra e Quérica têm um histórico de conflitos de um quarto de século, quando ambos dividiam atenções e prestígio no governo de Franco Montoro. A fundação do PSDB é atribuída à guerra civil aberta no PMDB depois que Quércia tornou-se a principal força dentro da legenda.
Observadores da política paulista enxergaram um sinal de aproximação direta entre Serra e Quércia na nomeação de Fernando Grella Vieira, o novo procurador-geral de Justiça. Com a escolha, Serra sacrificou o candidato preferido de Luiz Marrey, o secretário de Justiça com grande influência no ministério público, beneficiando um nome próximo a pessoas que fizeram parte do governo de Quércia. O próprio ex-governador diz que a nomeação foi coincidência.
Eleições 2008
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