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Preço dos alimentos não deve cair tão cedo

25/04 - 08:58 - Paulo Moreira Leite

De uns tempos para cá, a humanidade redescobriu que não existe almoço grátis – literalmente. O preço dos alimentos sobe em São Paulo, no Egito e em Pequim porque, no mundo inteiro, milhões de pessoas que até há pouco tempo engrossavam a massa dos famintos e desnutridos agora têm mais dinheiro para gastar.

Mas essa disposição para ir às compras revelou um desajuste estrutural entre a demanda e a produção, o que leva a maioria dos estudiosos a acreditar que alta no preço dos alimentos não seja um dado passageiro da vida econômica – mas uma tendência de longa duração, à qual todos terão de se adaptar daqui para a frente. 

"Todos os fatores que contribuem para a formação do preço da maioria dos alimentos estão em alta," afirma Pedro de Camargo Neto, grande pecuarista, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. "Não há motivo para se supor que possam cair. A tendência é permanecerem onde estão ou mesmo subir."

Paulo Moreira Leite
Com trigo mais caro, o pão ficou mais caro
Com trigo mais caro, o pão ficou mais caro
Essa situação se revela na vida cotidiana. De um ano para cá, o preço do trigo, importado da Argentina, subiu 100%, informa o francês Remy Belin, gerente de produção da Deli Paris, padaria diferenciada na Vila Madalena, em São Paulo. "A razão é simples: a demanda aumentou, mas a produção ficou no mesmo lugar."  Sob o risco de perder a clientela, nenhuma padaria fez o repasse integral de seus custos. Mas o preço do pãozinho subiu em toda parte, em saltos de pelo menos 10% nos últimos meses.     

No Mercado Central da rua Cantareira, em São Paulo, o arroz subiu entre 20% e 30% de dezembro de 2007 até hoje – fossem os tipos mais simples, fossem os mais elaboradoos. "A tendência é continuar para cima," afirma Mauro Siena, um dos sócios do Empório 493. 

Outros produtos essenciais na dieta do brasileiro, como a carne, leite, manteiga, óleo de soja, também deram saltos. O feijão disparou, mas, apesar de seu valor simbólico, os especialistas recordam que se trata de uma produção com altas e baixas cíclicas, que pode ser controlada pelos produtores locais – já que o brasileiro consome um feijão que só é produzido no próprio País.  

A alta do preço dos alimentos não é exatamente uma novidade na vida das famílias brasileiras, mas o caso de 2008 possui um complicador maior: sua origem é internacional e envolve tendências de longa duração da economia mundial, desde o crescimento econômico da China e da Índia até o aquecimento global. Uma seca de seis anos na Austrália provocou o fim de uma produção de arroz que alimentava 20 milhões de pessoas – justamente na Ásia, onde está sobrando dinheiro.

Numa série de reportagens sobre o assunto, o "New York Times" refere-se a situação como uma "Era de Escassez."

Custo-petróleo e outros fatores

Paulo Moreira Leite
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Feijão mais caro no prato do brasileiro
Ao elevar o barril do petróleo para acima de US$ 100, a China inflacionou o custo-petróleo embutido em todos os alimentos, seja na forma de fertilizantes, transporte e tratamento de grãos. Hoje, o custo-petróleo é estimado em 15% de boa parte daquilo que vai à mesa.  

Há outros fatores, porém. A crise da economia americana levou boa parte dos investidores americanos a se afastar de Wall Street, optando por realizar aplicações no mercado de alimentos, em especial na Bolsa de Chicago.

Era ali que os agricultores conseguiam financiar sua produção – negociando títulos de amanhã para bancar a safra que seria plantada hoje. Essa situação criou um ambiente de volatilidade extrema, incompatível com a segurança que se espera da agricultura. Resultado: boa parte dos fazendeiros americanos prefere guardar o dinheiro em casa e recolher os tratores, atitude que só faz a produção diminuir e o preço subir.

O professor Elton Casagrande, da Universidade Estadual de São Paulo, diz que "podemos chegar a um quadro de ruptura." No Haiti, no Egito e em outros países africanos já ocorreram protestos pela falta de alimentos.

Uma reportagem da revista "Economist" avalia que boa parte das conquistas recentes das populações pobres dos países pode ser anulada pelo novo preço dos alimentos. A revista assinala que a classe média desses países está abandonando planos de saúde privados para defender a despensa.   

Problema real    

A maioria dos estudiosos acredita que cedo ou tarde haverá um novo equilíbrio entre a oferta e a procura, permitindo um retorno a uma situação de maior conforto.

O problema real é que a produção de alimentos não é uma atividade que se ajusta no curto prazo. Envolve uma adaptação às regras da natureza, prazos de tratamento de solo, conversão de lavouras, mudança de hábitos, desenvolvimento de tecnologias e difusão de conhecimento. Também envolve ações de governo e exige investimentos pesados. Muitas decisões só produzem resultado em dez anos.  

Em entrevista a João Paulo Kupfer (veja o blog aqui), o economista Guilherme da Silva Dias, professor titular da Faculdade de Economia da USP, sustenta que a grande novidade da economia mundial é que a maioria dos países deixou de manter estoques regulares de alimentos, que asseguravam a estabilização externa de preços. 

Conforme o professor, os preços sobem porque faltam alimentos estocados e isso aconteceu por causa da "liberalização do comércio internacional", que induziu a redução dos "estoques de segurança." A idéia é que, embora muitos governos mantenham estoques para enfrentar emergências, eles deixaram de ser uma barreira considerável a ação de quem aposta na alta dos preços.  

Há 25 anos, quando só uma parcela bem menor da humanidade tinha direito de saciar a fome, o governo americano estimulava os fazendeiros a ficar de braços cruzados, reduzindo a produção para evitar uma degradação nos preços. Graças a isso, 400 mil fazendeiros americanos embolsam um subsídio estimado em US$ 1,8 bilhão para deixar o arado no celeiro. Hoje, com a alta dos alimentos, boa parte desses fazendeiros já constatou que pode ser vantajoso voltar para o batente – e ganhar dinheiro com a lavoura. 

Na Austrália, a falta de estímulos à produção de arroz levou agricultores a investir na produção da uva para a confecção de vinhos – que também é subsidiada e garante uma lucratividade 1000% superior.

A alta no preço da carne, do porco e das aves tem sua origem na alta do preço do milho. Ela se deve ao estímulo da Casa Branca a produção de etanol, que levou fazendeiros dos Estados Unidos a desviar 40% a produção de combustível.

Etanol brasileiro

Lançadas pelo deputado suíço Jean Zigler, as críticas ao etanol brasileiro não fazem sentido. É certo que muitos pecuaristas de São Paulo retiraram o gado do pasto para abrir espaço para a plantação de cana. A diferença é que o etanol brasileiro tem subsídio zero "e essa alternativa é apenas uma forma clássica de explorar a economia de mercado," lembra Pedro Camargo Neto. 

Embora os alimentos tenham subido no Brasil, o salto não se compara ao que ocorre em outros países. O País produz toda comida que consome, o que livra a população do sacrifício que se vê em outros lugares. A verdade, porém, é que muitos estudiosos acreditam que há espaço para novas altas.

Os agricultores, que pagaram a conta dos preços baixos durante anos, não querem deixar de tirar proveito de uma onda favorável no mercado internacional e tem demonstrado poder de fogo para valer seus interesses  – como o ministro Reinhold Stephanes comprovou quando ensaiou uma medida de controle de exportações de arroz.

Outro aspecto é que o efeito da conta-petróleo ainda não chegou ao consumidor final. A Petrobras mantém uma política de controle de preços, evitando repassar os saltos no mercado internacional para o consumidor interno, o que iria contaminar a rede produtiva também.

É uma política que tem limites. "Cedo ou tarde, alguma coisa terá de ser repassada aos preços e aí podem ocorrer novos aumentos," afirma Pedro Camargo.     





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