21/04 - 11:55 - Paulo Moreira Leite
A morte de Isabella tornou-se um assunto dos consultórios psi – psicanálise, psicologia e psiquiatria. Convencidas, a partir da investigação da polícia, sobre a culpa do pai e da madrasta num crime tão chocante, muitas pessoas tendem a procurar as raízes do crime em distúrbios sofridos por doentes mentais de verdade – essas pessoas sofridas, incapazes de estruturar uma vida-padrão com emprego, família e carreira profissional, que raramente cometem qualquer tipo de ato criminoso, muito menos com tamanha carga de violência e perversidade.
"Muitos pacientes com problemas de saúde mental ficam preocupados numa hora como esta," diz uma psiquiatra, entrevistada sob a condição de não ter seu nome revelado.
Alvos da incompreensão e mesmo de preconceito, os pacientes temem o afastamento de amigos e a rejeição de familiares. Não há pessoa capaz de considerar "normal" o comportamento de dois adultos que, conforme o relato da polícia, foram capazes de estrangular uma menina de 5 anos e depois jogá-la pela janela do sexto andar de um edifício de apartamentos.
A questão, que faz parte dos manuais clássicos dos advogados de defesa, é a seguinte: se não é normal, esse comportamento reflete uma doença? Em caso positivo, qual? Para a maioria dos estudiosos deste reino de belezas e horrores infinitos que é a mente humana, pode-se distinguir com alguma clareza o comportamento de um psicótico do comportamento de uma pessoa comum.
Por definição, o psicótico tem graus variados de alucinação. Muitas vezes ouve vozes, imagina coisas que não existem, constrói uma fantasia e vai atrás dela. Não consegue se manter apegado ao princípio de realidade. De uma forma um tanto simplória, pode-se dizer que o psicótico seria aquela pessoa que conversa num universo interno, que é sua referência e ao qual presta contas, cultivando contatos esporádicos com aquilo que os demais entendem como "realidade."
"Crimes com essa carga de violência são tão chocantes que muitas pessoas tendem a achar que não podem ter sido cometidos por pessoas que consideramos racionais", diz o psiquiatra Maurício Garrote.
Com 25 anos de profissão, Maurício Garrote dedicou a maior parte de sua carreira ao tratamento de crianças e adolescentes que são vítimas de violência em famílias pobres da periferia de São Paulo e cidades vizinhas. Hoje monta um serviço preventivo em cidades do Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres do Estado.
"A verdade é que a quase totalidade dos crimes domésticos não tem nenhuma relação com qualquer doença mental conhecida," diz ele.
Entrevistado com a condição de não fazer análises específicas sobre o pai e a madrasta de Isabella, "pois nenhum profissional pode ter uma opinião formada sem um contato direto e prolongado com cada pessoa," Maurício Garrote acha possível fazer uma distinção entre indivíduos que, mesmo em condição mental diferente, são capazes de cometer crimes iguais.
Admite-se que psicóticos sejam capazes de cometer homicídios, ainda que os casos sejam raros. Ele próprio chegou a atender uma senhora de formação muito religiosa que, vítima daquele trauma conhecido como "depressão pós-parto", convenceu-se que o demônio havia se apoderado da própria filha – e decidiu matá-la para proteger a família.
Outro caso envolve um casal que responde a processo pela morte de um filho recém-nascido. A investigação policial acusa o pai de ter esmagado a cabeça da criança contra a parede. A família alega que ela caiu do beliche.
Para Maurício Garrote, uma distinção importante envolve o comportamento depois do crime. Uma mãe convencida de que sua filha foi possuída pelo demônio não esconde o que fez. "Sente até orgulho disso," recorda. Já o casal acusado de matar o próprio filho teve outra reação: conta uma história que, mesmo sem fazer nexo do ponto de vista da polícia, trai a vontade de esconder suas responsabilidades e escapar de uma condenação. Isso sempre acontece nessas situações.
Em 1997, a delegada Elizabeth Saito investigou um crime que não esquece até hoje: a morte de um bebê degolado dentro de casa por um sobrinho. Até o final, o rapaz tentou convencer a polícia de que o culpado era um assaltante, que ninguém viu entrar nem sair de casa. Depois, confessou. "Um psicótico dificilmente terá um comportamento organizado para tentar sair de uma situação como esta," diz Maurício Garrote.
Já um criminoso comum procura se defender. Após o crime fica preocupado em construir álibis, apagar pistas e dificultar o trabalho de investigação da polícia – e muitas vezes é bem-sucedido. Outras vezes, não.
Embora a violência doméstica tenha números assustadores, envolve uma realidade muito difícil de ser apurada por métodos tradicionais. Os crimes estão ligados a adultos que, muitas vezes, preferem manter um pacto de cumplicidade para se proteger e manter a convivência conjugal.
Raramente batem às portas da polícia para fazer uma denúncia contra o parceiro. Não há testemunhas isentas. Mesmo vizinhos, que podem fazer relatos com alguma proximidade, preferem não se envolver. Os casos de estrupros regulares e constantes costumam envolver pais e filhas biológicas e raramente são denunciados pela mãe.
A polícia não tem elementos para contar exatamente como foi a morte de Isabella – ao menos até aqui. Mas acredita que se aproxima da apuração da verdade em função de provas que sinalizam o esforço do pai e da madrasta para acobertar a violência ocorrida no apartamento – como a limpeza de sangue no tapete, na fralda e na cama.
A versão da polícia é que a mãe estrangulou a menina e que, convencido de que ela estava morta, o pai decidiu jogá-la pela janela – sem saber que a morte ocorreria no chão, depois da queda do sexto andar. Depois, diz a investigação, eles limparam o apartamento e apagaram as provas.
Se isso for verdade, o que ainda está para ser provado definitivamente, "o casal acabou sendo apanhado porque montou uma tentativa espetacular para acobertar o primeiro crime, de agressão, e acabou cometendo um segundo, o assassinato," observa o psiquiatra.
Em mais de duas décadas às voltas com pacientes, vitimas e cidadãos, Maurício Garrote está convencido de que a maioria das crianças não é alvo de crimes pré-meditados, mas de acidentes ocorridos dentro de casa, quando adultos perdem o controle sobre a própria agressividade.
Esses impulsos, muitas vezes, não têm uma origem fácil de ser diagnosticada. Mas, muitas vezes, são liberados em pessoas com dependência de álcool e drogas, que podem ter reações imprevisíveis seja num momento de alto consumo – ou durante uma crise de abstinência.
Nas famílias de classe média, onde ocorreram episódios como o massacre dos pais de Suzanne Richthofen e a tortura sistemática de uma filha adotiva por uma empresária de Goiânia, funciona uma estrutura de serviços privados – consultórios psiquiatricos, advogados, escolas privadas – que permite manter episódios chocantes no silêncio de parentes e amigos próximos.
Nas famílias mais humildes, também se procura esconder a violência e a agressão. Mas quando uma criança muito machucada chega à escola, sua condição chama a atenção de professores, que costumam alertar a polícia, pelo serviço Disque-Denúncia.

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