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Paulo Moreira Leite
Esta é a sexta reportagem sobre a prosperidade da economia brasileira. Vila Calu, na periferia de São Paulo, é um cenário estatístico de um mundo composto por famílias que têm renda média de R$ 1.062, hoje a maior parcela da população brasileira. Embora reais, os sinais de melhoria nem sempre são fáceis de decifrar, pois envolvem um unverso dominado por carências de toda ordem. A sétima reportagem sairá na próxima sexta-feira.
A uma hora do centro de São Paulo, a Vila Calu é um típico bairro da fronteira paulistana. Para quem vai do centro para a zona sul da cidade, o ponto de referência é o Jardim Ângela, lugar que já despertou atenção de organismos internacionais em função dos números de violência e morte. A Vila Calu fica dez minutos depois do Jardim Ângela.
No meio do caminho, avista-se a entrada de uma reserva dos índios guaranis. Em seguida, aparece a bandeira vermelha e a fumaça de um acampamento do Movimento dos Sem Terra (MST).
Boa parte das casas de Vila Calu não tem tinta na parede. Em vários locais, o emaranhado de fios das ligações clandestinas de luz e telefone é tão denso que o céu se transforma num quadro de rabiscos negros e linhas retas, como numa pintura abstrata. Há diversas ruas de terra. O chão é desnivelado, sem asfalto, com tantos buracos que o caminhão de lixo nem passa pela porta de casa – para livrar-se dos detritos, as famílias precisam carregar latas e sacos até um ponto mais próximo.
A Vila Calu tem encantos poéticos. No fim-de-semana, pode-se ver pessoas passeando a cavalo, num estilo bem diferente das aulas de equitação de um centro hípico: sela mexicana e chapelão na cabeça.
| Max Nogueira |
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| Meninas no futebol de várzea: um olho na bola, o outro no emprego |
O futebol de várzea é uma alegria que permanece. Na tarde do último domingo, dois times de meninas disputavam uma partida animada no campo de terra batida na comunidade de Horizonte Azul. Lata de cerveja na mão, muito bonita, a ponta-esquerda Katia Sobral, de 19 anos, assistiu à partida, mas não entrou em campo. Por quê? "Amanhã é meu primeiro dia no novo emprego e eu quero estar descansada" diz.
Ajudante de cozinha, Katia começou a trabalhar há dois anos. No primeiro emprego, recebia R$ 516 por mês. No próximo, irá embolsar quase R$ 1.000. "As coisas estão dando certo para quem tem experiência e pode mostrar que não é novato de tudo. O mais difícil é o primeiro emprego. Depois fica mais fácil."
Cenário estatístico de uma economia que transformou a chamada classe C na maior fatia de renda do País, é difícil encontrar gente com emprego e carteira assinada na Vila Calu – mas é fácil encontrar quem dá duro na economia informal.
| Max Nogueira/Lili Oliveira |
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| Padre Laerte em missa na paróquia |
A aposentada Maria Gomes Ferreira, de 66 anos, que vende temperos na feira dominical, cobrando R$ 1 por um copinho, diz que "a vida está ruim para todo mundo. O povo está enforcado pelas dívidas. Todo mundo faz compras a prestação, mas daqui a pouco não terá dinheiro para mais nada."
"As pessoas falam que estão em condição melhor porque não gostam de encarar suas dificuldades," diz o açougueiro Ronilson Geraldo Felipe, de 37 anos. "O salário de um funcionário de açougue era de quatro salários mínimos. Hoje, caiu pela metade." A história do próprio Ronilson poderia servir de um exemplo em outra direção, porém. Mineiro, mudou-se para São Paulo há 17 anos. Trabalhou como empregado e há quatro anos conseguiu ser dono do próprio estabelecimento.
| Max Nogueira/Lili Oliveira |
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| Ronilson: "as pessoas não querem admitir as próprias dificuldades" |
Na Vila Calu funciona uma espécie de sindicato da reclamação que tem suas raízes nos dramas maiores da vida social, estruturais e duradouros.
Uma das coordenadoras da Pastoral da Criança, há cinco anos Maria do Carmo Rodrigues Oliveira visita casas e famílias de recém-nascidos, acompanhando as crianças até completarem seis anos. Sempre ressalvando que há muito a fazer, e que toda melhoria numa área é acompanha de uma piora em outra, ela admite pequenos avanços.
"Costumo seguir a evolução de 140 crianças por ano," diz ela. "E é sempre a mesma coisa: metade apresenta sinais de desnutrição. E quando você conversa com os pais, eles dizem que falta dinheiro para uma alimentação melhor." Maria do Carmo admite, no entanto, que "de uns tempos para cá ficou mais fácil conseguir remédios e medicamentos." Este progresso, no entanto, não ocorreu na educação "onde houve até uma piora".
A descrença nos "políticos" é tão grande que a Vila Calu era uma das grandes reservas eleitorais de "Meu nome é Enéas," candidato do grito único e de uma promessa autoritária. O PT e Marta Suplicy costumam ter bons votos no lugar, ainda que o vereador mais conhecido seja Milton Leite, do PSDB.
Alguns sinais de que as pessoas têm um pouco mais de dinheiro no bolso são indiscutíveis. Na própria paróquia de Padre Laerte a coleta do dízimo elevou-se em 50% de 2007 para cá – o que permitiu à igreja local ingressar numa temporada de aquisições, como relíquias valiosas e imagens em mármore, além de patrocinar diversos eventos para mobilizar os fiéis.
Os eventos da vida cotidiana, como as festas de casamento, tornaram-se mais freqüentes e mais caros, como antes não se fazia. Para o Padre Laerte, a grande diferença não foi o aumento da renda embolsada pelas pessoas – mas a oportunidade de abrir um crediário. Filho de um servidor público e de uma professora, ele recorda que, no passado, "o salário de funcionário não era grande. Mas ele tinha conta em banco e podia ter crédito na praça. Isso mudou e o crédito está aberto para muita gente. Isso faz muita diferença".
Se em muitas famílias de classe média do País é comum encontrar sinais de estagnação ou mesmo de queda de padrão de vida em relação à geração anterior, na vida dura da Vila Calu o sinal da mobilidade freqüentemente aponta para cima.
O bairro tem uma população de 15 mil pessoas, dividas em 5 mil famílias. A família típica é formada pelos casais que habitam nos andares da pobreza trabalhadora brasileira. Ele, pedreiro. Ela, doméstica. Mas há pequenos comerciantes que saíram dessas famílias e hoje tocam seus negócios, num salto imenso. Muitos universitários – em faculdades privadas – tem a mesma origem.
"Não dá para se alimentar direito"
| Max Nogueira |
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| A chefe de cozinha Haydée |
Num ambiente onde não há representantes notáveis da imigração japonesa, "outro dia uma freguesa me perguntou por um tempero japonês complicadíssimo e raro, que nem eu conhecia direito," diz o gerente Eric Yudi Itiki, ele próprio descendente de nipônicos. "Daqui a pouco, vamos ter de oferecer arroz de sushi," diverte-se.
Separada, mãe de dois filhos, Haydée Vieira Caramaschi mora há 17 anos na Vila Calu, onde já teve loja de material de construção. O negócio fechou e hoje ela trabalha como chefe de cozinha numa residência de alto padrão no Pacaembu. Um filho é formado em publicidade e o outro termina o ensino médio. Haydée diz que, de uns tempos para cá, o comércio local de alimentos melhorou bastante. "O que você encontra num grande supermercado também encontra por aqui. A diferença é que você gasta combustível para comprar fora do bairro."
No passado, muitas pessoas tratavam logo de mudar-se para longe, quando conseguiam um emprego estável fora dali. Hoje, muitos preferem ficar – ainda que tenham de enfrentar uma longa viagem até o centro da cidade.
Na Vila Calu os imóveis são amplos e não é difícil encontrar casas de seis cômodos e mais de 200 metros de área construída. Com algum dinheiro no bolso, e disposição de pegar no pesado nas horas de folga, é possível fazer uma pequena reforma e garantir uma moradia confortável – sem pagamento de aluguel.
"Não troco isso aqui por nenhum apartamento em São Paulo," diz Paulo José, gerente de um restaurante em Cerqueira César. Há 12 anos ele mudou-se para uma chácara na Vila Calu. "Aqui eu descanso, crio animais, tenho repouso. Em São Paulo não teria a metade desse conforto."
| Max Nogueira/Lili Oliveira |
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| Encontro de moradores: crítica e aplauso ao Bolsa Família |
Mas a Vila Calu é um bairro de fronteira e de limites, onde cada lado também tem o seu inverso e esse conforto de bom padrão chega a ser um ponto fora do gráfico. Não faltam residências carentes que são o destino natural do programa Bolsa Família, que ajudou a esquentar algumas fatias do consumo popular. Essa ajuda tem defensores convictos e articulados, como o agente de saúde Jailson da Silva: "a população é carente demais. A economia até melhorou, mas as pessoas continuam vindo ao posto de saúde porque estão doentes. Sabe por que? Porque ainda não dá para se alimentar direito. Elas precisavam do Bolsa Família e de mais bolsas. O Brasil é muito desigual, a renda é muito concentrada".
A empregada doméstica Débora Souza Rocha discorda. Denuncia que "temos muitas meninas que desistiram de trabalhar, engravidam e depois correm para receber o dinheiro do governo." Débora aponta para as casas sem pintura, de tijolo exposto, nas proximidades e diz: "as crianças vão crescer e ficarão largadas na rua. Aí, essas mães vão arrumar outros filhos para conseguir tudo de novo".
Burgueses
Vila Calu nunca teve calçada nas ruas. De uns tempos para cá elas estão chegando, "mas são de cimento pintado, e não de tijolo, como nos bairros centrais e mesmo no Jardim Ângela," reclama um morador.
No posto de saúde a espera para fazer uma tomografia pode levar um ano e até mais. O mesmo prazo deve ser aguardado para uma cirurgia com um ortopedista. A espera para uma mamografia é de três meses, o que chega a ser motivo de comemoração pelas pacientes, pois há seis meses era o dobro.
Aquela região da cidade sempre teve um problema para tratar seus doentes, obrigados a viajar para bairros distantes ou mesmo outros municípios na hora de uma internação. Recentemente, foi inaugurado o hospital M'Boi Mirim – e isso deve melhorar bastante a situação.
Um levantamento feito no Bananal, a região mais carente no interior de um bairro já carente, apontou para a morte de 66 crianças de até 5 anos em 2007 – um índice escandaloso.
Embora não tenha sido feita uma investigação aprofundada sobre a causa de tantas mortes, boa parte delas pode ser atribuída a um clássico problema de saneamento, já que naquele pedaço da Vila Calu não há esgoto nem tratamento de nenhuma espécie.
As obras de infra-estrutura do Bananal acabaram incluídas nos investimentos do PAC. Hoje, com os recursos já contratados, os moradores acompanham minuciosamente cada etapa dos trabalhos, agora em fase de licitação, "pois é uma oportunidade que não pode ser perdida," diz Renata Ribeiro da Luz, advogada que preside uma ONG em atividade no Bananal. "Isso é antes de tudo uma conquista dos moradores."
A violência de Vila Calu é lendária, ainda que todos digam que a situação de hoje nem se compara com o o início da década. Naquele época, foram feitas execuções chocantes pela violência e mórbidas pelo estilo – uma vítima foi morta e enterrada mas seus braços foram deixados esticados, para fora do chão. Por determinado período, a disputa de território entre traficantes impedia a maioria das pessoas de sair de casa depois das 9 da noite.
Na Vila Calu o desamparo e a violência são tão grandes que moradores em busca de emprego em outras regiões da cidade muitas vezes dão endereço falso para não perder a vaga. Vez por outra ocorre um crime brutal, como o de um cidadão que no ano passado teve as digitais raspadas antes de morrer, mas essa circunstância não provocou a reação escandalizada que o caso merecia.
Alguns traços de comportamento estão aí para lembrar que, às vezes, a insegurança é tão grande que a própria prosperidade faz sentir medo. Por razões de segurança, os comerciantes enriquecidos, que os estudantes locais chamam de "burgueses" - expressão que mostra como a politização está chegando ao lugar -, evitam aparições públicas e não costumam falar sobre seus negócios.
Especial prosperidade:
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