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Barreiras comerciais dos EUA devem diminuir com futuro presidente, diz especialista

14/04 - 15:30 - Paulo Moreira Leite

Qual o interesse do Brasil na eleição americana? Quase ninguém sabe. Uma das poucas vozes autorizadas a falar sobre o assunto é Myles Frechette, veterano diplomata dos Estados Unidos, um dos principais especialistas em tratados comerciais com a América Latina. Ele está convencido de que o próximo governo americano deve amenizar barreiras contra exportação de produtos brasileiros -- qualquer que seja o próximo ocupante da Casa Branca.

Aos 72 anos, Frechette já ocupou diversos postos estratégicos no Departamento de Estado, foi um dos responsáveis pelas relações com Cuba nos anos 60, serviu no Consulado em São Paulo na década seguinte, quando o Brasil vivia sob uma ditadura militar e foi nomeado embaixador em Bogotá entre 1994 e 1996, no auge do prestigio do supertraficante Pablo Escobar.

Capaz de circular pelas famílias democratas e republicanas do Departamento de Estado, a ponto de ocupar cargos de confiança no governo de Bill Clinton, Frechette admite ter dado seu voto para George W. Bush nas duas eleições presidenciais e confessa que esta foi a "maior decepção de minha vida."

Leia a entrevista de Frechette, que conversou com o iG por email:

Paulo Moreira Leite/ iG - O Brasil enfrenta sérias restrições a suas exportações para os Estados Unidos, como suco de laranja, aço, etanol... Estas barreiras são antigas e até hoje nenhum presidente se dispôs a acabar com elas. Existe alguma chance do próximo presidente americano resolver esse impasse e diminuir as tarifas de nossos produtos?

Myles Frechette - A variável mais importante é a rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio. O diretor da OMC diz que a rodada poderá estar terminada no fim deste ano. Se for assim, muitas questões colocadas hoje estarão resolvidas. Caso contrário, tudo dependerá da próxima administração. Não importa qual partido vença as eleições para a Casa Branca. Republicanos e Democratas entendem a importância de reduzir o custo dos combustíveis e suspender os aumentos no preço dos alimentos. A redução nas tarifas do etanol poderá ser aceita. Isso significaria reduzir ou mesmo eliminar as tarifas sobre etanol de cana-de-açúcar feito no Brasil e desencorajar a produção do etanol de milho nos EUA.

Paulo Moreira Leite/ iG - A última vez que os Estados Unidos tiveram uma preocupação real com a América Latina ocorreu depois da revolução de Fidel Castro. Criou-se a Aliança para o Progresso. Falou-se em reformar a educação e até se apoiava a reforma agrária.  Intelectuais americanos foram estimulados a estudar o continente e surgiram, no Brasil, os brazilianistas, que tiveram um papel importante no estudo do país. Hoje, a América Latina é vista como a última das prioridades. Existe a possibilidade de ocorrer uma mudança nessa direção?

Myles Frechette - Após a Segunda Guerra Mundial, quando a Guerra Fria teve início, os Estados Unidos adotaram a política de "contenção." Isso implicava em impedir a União Soviética de ampliar sua influência em qualquer lugar do mundo, inclusive na América Latina. Por essa razão os Estados Unidos instituiram a Aliança para o Progresso e fizeram o que era possível para impedir a esquerda, que poderia se tornar aliada da União Soviética, de chegar ao poder. Exemplos disso são a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o golpe contra Jacobo Arbenz na Guatemala, em 1954, não desencorajar os militares chilenos de derrubar Salvador Allende, apoiar o governo militar no Brasil, etc. Quando a Guerra Fria terminou e a União Sovietica desintegrou-se, a diplomacia dos EUA mudou do confronto para o fortalecimento da democracia, dos bons governos e do desenvolvimento econômico.

O interesse pela América Latina diminuiu, mas não é negativo. Este é um dado da globalização. No mundo de hoje, a China, o Oriente Médio, a Coréia do Norte, a proliferação de armas nucleares substituiram a confrontação da Guerra Fria. Acredito mesmo assim que, não importa quem vença as eleições de 2008, haverá maior atenção para a América Latina no próximo governo. O comércio entre os Estados Unidos e a América Latina continua muito importante. Em 2007, o total de exportações americanas para o continente chegou a U$ 200 bilhões. Já as exportações para a China ficaram em U$ 50 bilhões.

Paulo Moreira Leite/ iG - Qual balanço dos últimos presidentes americanos em relação ao Brasil? Algum deles empenhou-se concretamente para beneficiar o país de alguma forma?

Myles Frechette - Não tenho dúvidas de que, depois de Jimmy Carter, George W. Bush é o primeiro presidente americano a tentar seriamente desenvolver uma agenda cooperativa e positiva com o Brasil. Os presidentes Lula e Bush tem uma boa relação, ocorreram visitas nos dois países, foi feita uma iniciativa na área de biocombustíveis e também se desenvolveram encontros entre empresários dos dois países.

Paulo Moreira Leite/ iG - O senhor foi consul em São Paulo, durante o período  duro da repressão política sob a ditadura militar. Quais lembranças guarda do período? De que forma o governo americano ajudou na questão por direitos humanos? 

Myles Frechette - Fui nomeado consul no Rio de Janeiro entre 1974 e 1976. Neste período havia um bom entendimento entre o secretário de Estado Henry Kissinger e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Azeredo Silveira. Quando Jimmy Carter assumiu o governo, as relações bilaterais pioraram por duas razões: violações de direitos humanos pelo governo militar e o desejo do Brasil em desenvolver armas nucleares. Entre outros assuntos, eu era responsável por manter Washington informada sobre violações de direitos humanos. Estes relatórios eram usados por Washington para tentar convencer o governo brasileiro a reduzir as violações.

Paulo Moreira Leite/ iG - Os sindicatos americanos dizem que a abertura comercial cria desemprego. Por que o senhor costuma dizer que eles estão errados?

Myles Frechette - Todos os anos, 50 milhões de americanos mudam de emprego. Pouquíssimas dessas mudanças são provocadas pelo comércio exterior. Mesmo assim, ainda existe uma lei chamada "Trade Adjustment Act (TAA)", que ajuda a recolocar trabalhadores que ficaram sem emprego por causa das importações. Uma renovação e fortalecimento dessa legislação está em discussão pelos dois partidos e eu acredito que, caso isso aconteça, novos tratados de livre comércio poderão ser aprovados pelos democratas, que controlam o Congresso.

Paulo Moreira Leite/ iG - O senhor acredita num tratado de livre comércio Brasil-EUA para os próximos anos. Por quê?

Myles Frechette - Porque a iniciativa privada desses dois países acredita que irá ajudar a aumentar o comércio, criar empregos e reduzir a pobreza no Brasil.

Paulo Moreira Leite/ iG - Quem é o maior responsável pelo fracasso da Alca, o tratado de livre comércio das Américas? Brasil ou EUA?

Myles Frechette - Brasil, porque não aceitaria uma política que faria da Alca uma realidade. O Brasil não aceitaria nenhuma fórmula da Alca que pudesse ser aprovada pelo Congresso americano, que tem a palavra final nos tratados de livre comércio. A idéia de uma Alca "light" (que era a proposta do Brasil) não levaria a uma mudança pela liberação comercial, que é a idéia básica para um acordo dessa natureza.

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