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Paulo Moreira Leite
Esta é a quinta reportagem sobre o crescimento da economia brasileira. Para diversos observadores, a economia do País atingiu um novo patamar de desenvolvimento, com a inflação relativamente estabilizada, exportações diversificadas e a explosão do consumo popular. Mas restam desafios importantes, como o ruinoso estado da infraestrutura do País. A sexta reportagem da série será publicada na terça-feira próxima.
Até 2007, os moradores de Alto Taquari, no Mato Grosso, costumavam dividir a história desta cidade de 12 mil habitantes em duas fases – antes e depois de 1999, quando os primeiros vagões da Ferronorte chegaram ao lugar.
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| Vista geral da cidade de Alta Taquari, localizada no Mato Grosso |
Antes da estrada de ferro, Alto Taquari era conhecida pela fertilidade do solo, pelas chuvas regulares e abundantes, por uma altitude de 900 metros e pelo clima ameno – mas também pela imensa dificuldade para exportar a produção de suas lavouras e receber produtos de outros lugares a bom preço.
"A estação ferroviária mudou tudo isso," afirma o prefeito Lairto Sperandio (DEM-MT), referindo-se a um local batizado como "Estação Olacyr de Moraes," numa homenagem ao antigo Rei da Soja que foi um dos grandes patrocinadores da estrada de ferro. "Mas mesmo aquele período muito bom não se compara ao que temos hoje," esclarece.
Se em 2008 os índices de desemprego estão em queda no País inteiro, muitas vezes porque a fiscalização mais apertada obriga as empresas a formalizar trabalhadores que antes eram mantidos na informalidade, no Alto Taquari vive-se a realidade raríssima do desemprego zero.
"Aqui só não tem trabalho quem não quer," afirma o empresário Erocy Antonio Scaini, líder de cooperativa de caminhões da cidade e presidente da Associação Comercial, entidade com reconhecida influência nos destinos de Alto Taquari. "O município vive uma transformação brutal," afirma o funcionário público Marco Aurélio Julien, fundador e porta-voz do PT na cidade.
Embora as duas siglas travem uma luta encarniçada e permanente em Brasília, em Alto Taquari o PT integrava a base de apoio do prefeito filiado ao DEM até o mês passado, retirando-se da administração em função das eleições no final do ano. "Os benefícios à população são evidentes," diz Marco Aurélio.
Na origem desta mudança de horizontes encontra-se a construção de uma imensa usina de etanol da multinacional Brenco, que deu os primeiros passos no ano passado.
O processo abriu 3 mil novas vagas no mercado de trabalho de uma população total que mal supera a casa de dois dígitos – um processo tão fabuloso e transformador como seria a criação, em todo o território brasileiro, de 72 milhões de novos empregos de um ano para outro.
O prefeito descreve o processo: "junto com os operários que chegam para construir a usina, você precisa encontrar pessoas que vão alimentar essas pessoas. Aí aparecem 100 empregos. Depois, você precisa de gente para cuidar da limpeza. São mais 50 empregos. Em seguida, vem o pessoal da segurança: 80 empregos. Depois, o pessoal do transporte. Mais 100 empregos. E assim vai. Não termina nunca."
Num único estabelecimento de Alto Taquari, o faturamento mensal com a venda de cartões telefônicos passou de R$ 700 para R$ 16 mil. A necessidade de mão-de-obra qualificada é tamanha que a cidade não fica um mês sem promover cursos profissionalizantes.
O prefeito Sperandio estima que, em todas as suas etapas e ramificações, a construção da usina e as demais fases de investimento deverão representar uma injeção de meio bilhão de reais na economia do lugar.
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| Plantação de cana-de-açúcar em Alto Taquari |
Como tantas cidades nascidas a uma boa distância dos grandes centros urbanos, Alto Taquari colhe os benefícios dos investimentos do Estado brasileiro na produção do etanol e biodiesel. São brechas tecnológicas que o País começou a abrir depois dos dois primeiros choques do petróleo, na década de 70. Essas pesquisas amadureceram nas décadas seguintes, nos altos e baixos do Pró-Alcool, programa que sempre foi muito mais criticado do que elogiado, sendo encarado como uma dessas supostas manias que "só existem no Brasil" de "reinventar a roda."
Os frutos de grande valor comercial seriam reconhecidos depois que a humanidade admitiu que estava diante dos riscos imensos do aquecimento global e que era preciso fazer alguma coisa. Neste momento, quando se queria um combustível capaz de "reduzir a emissão de gases do efeito estufa", o Brasil tinha o etanol de cana-de-açucar, quase oito vezes mais produtivo do que seu principal concorrente, o etanol de milho feito nos Estados Unidos.
Às vésperas de iniciar também a construção de uma usina hidroelétrica - financiada por cinco empresas privadas e que irá gerar 350 empregos novos em sua fase inicial – Alto Taquari é um desses lugares onde a geografia encontrou-se com a história para gerar um bom produto final.
Graças a prosperidade de sua agricultura, o dinheiro público é farto. Em função da localização - em um entroncamento entre Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul - pode oferecer serviços a moradores de diversos lugares. Além de se beneficiar com a usina que é construída no município, os comerciantes e empresários da cidade também engordam o orçamento com negócios em outra usina no Estado de Goiás, pois não há outro centro urbano nas proximidades.
Apesar da população pequena, a cidade tem o 11º ICMS do Estado e seu IDH fica entre os dez mais altos do País.
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O drama de saúde pública envolve a rede de esgotos, que não existe. A totalidade das residências é servida por um sistema de fossas, bastante precárias como garantia de higiene para a população. O prefeito explica a falha pelo custo dos investimentos desse tipo.
Alto Taquari foi fundada há 25 anos por pioneiros que integram a diáspora gaúcha que povoou grande parte do Brasil em décadas recentes, mas abriga gente de diversos pontos do País, em busca de uma oportunidade para abrir negócios e melhorar de vida.
Filho de um trabalhador rural, o prefeito Sperandio nasceu numa fazenda de café em Itajugi, no interior de São Paulo, formou-se engenheiro agrônomo e mudou-se para lá com a esperança de virar fazendeiro.
Chegou a um povoado de 500 moradores, que era um distrito de uma cidade vizinha – onde a atividade principal e quase exclusiva era soja, grão que hoje faz companhia ao trigo, ao sorgo, ao milho e, é claro, à cana-de-açúcar.
Sperandio acabou envolvido na política, mundo que vivia uma desesperada busca de lideranças e, aos 53 anos de idade, acumula o terceiro mandato de prefeito.
Erocy veio de Xanxerê, no interior de Santa Catarina. Vendia máquinas, hoje está no negócio de caminhões e planeja ampliar os investimentos para linhas de ônibus.
O processo atual inspira muito otimismo, mas deve terminar no início da próxima década. O trabalho de construir uma grande usina e toda a infra-estrutura à sua volta mobiliza milhares de pessoas e garante o desemprego zero. Mas é um investimento de cinco ou seis anos, no máximo. Depois disso, a usina dará emprego direto a menos de 500 funcionários e será preciso encontrar ocupação para essa população que veio de fora. Uma boa parte poderá ser aproveitada no plantio e colheita da cana.
Existe o risco de Alto Taquari abrigar uma cidade-fantasma, no futuro? Em teoria, sim. Na prática, este é o desafio que se coloca no momento, explica o empresário Erocy Scaini: "temos esse período para mudar a economia da cidade. Boa parte dos serviços trazidos de fora poderão ser produzidos aqui. Também poderemos dar um salto no agronegócio quando Alto Taquari tiver uma esmagadora de grãos. Nosso ciclo ficará completo. Esse crescimento vai gerar muita riqueza. Podemos desenvolver a industria. Precisamos saber aproveitar a chance," diz Erocy.
Essa é a idéia que circula na cidade. Envolve a necessidade de dar um salto e colocar a economia local num outro patamar mais desenvolvido. O etanol abriu uma janela de oportunidade e é justo perguntar se ela será aproveitada. Embora Alto Taquari tenha somente 12 mil habitantes, este processo é uma amostra do que acontece – e do que pode ou não acontecer – no Brasil inteiro.
Especial prosperidade:
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