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O sofrimento e o medo de quem viaja para a Denguelândia

01/04 - 12:08 - Paulo Moreira Leite

Viajar para a Denguelândia tornou-se um suplício para quem é obrigado a tomar um avião até o Rio de Janeiro. "Boa sorte," me disse um amigo, ao ser informado de minha viagem. "Você sabe como eu poderia mandar um repelente para minha filha que mora no Rio?" perguntou uma amiga da faculdade. "Ouvi dizer que já acabou."

 

Repelente é uma idéia fixa de quem aguardava pelo embarque na Ponte Aérea, em Congonhas. "Em uma semana nossas vendas aumentaram em 700%," informa Aldemir Silva, gerente da única farmácia do lugar, que oferece repelentes tradicionais e também uma marca que possui deet, princípio ativo que, diz o rótulo, é eficaz para manter o Aedes egypt, mantendo-o à distância.

Na hora de comprar a passagem, alguns viajantes chegam a perguntar se a companhia não vai dar repelente no momento em que os passageiros descerem no Rio. Pode ser uma boa idéia de marketing – mas ninguém está fazendo isso.

"Quando me falaram que eu tinha uma reunião no Rio de Janeiro lembrei que o número de mortes é cinco vezes maior do que o tolerável, se é que se pode falar em tolerável num caso desses," diz Rosana Pistonesi, 40 anos. "Também pensei que em três meses de 2008 o número de casos equivale a todos os casos do não passado."

Rosana Pistonesi confessa que não esqueceu de levar um casaquinho para cobrir os braços, mas lamenta não ter se lembrado de colocar sapatos – viajou de sandálias, sem meias. Considera-se uma pessoa com sorte porque vai e volta no mesmo dia, para uma reunião nas proximidades de Santos Dumont. "Acho que o mosquito não aparece por ali."

Entre tantos viajantes, ela pode ser considerada uma veterana de epidemias: esteve em Goiania, quando a febre amarela estava no auge. "Tinha vacina, mas ela já tinha 9 anos e podia vencer logo. Desci no aeroporto e fui direto me vacinar."

Nem todos reagem do mesmo modo. "Nem estava pensando na dengue. Só lembrei agora", diz a farmacêutica Luciana Vasconcelos, de 36 anos, casada, uma filha. "Quero ver se dá tempo de comprar um repelente."

"Não penso no mosquito. Tenho medo é de avião," afirma Bernardo Capriotii, de 61 anos, gerente de vendas de um empresa de derivados de petróleo.

Informados na véspera de que deveriam ir ao Rio, Letícia Carvalho e Carlos Andrade, funcionários de uma empresa de cartão de crédito, chegaram em cima da hora para embarcar. Letícia passou repelente antes de sair de casa. Carlos embarcou com a pele e a coragem. "Não vai acontecer nada, se Deus quiser," comenta Letícia.

Depois de fazer o check in com a filha de 15 anos, que vai passar 15 dias em Búzios numa filmagem com Heitor Dália, o consagrado diretor de O Cheiro do Ralo, a produtora cultural Bianca Salles descobre que a Denguelândia pode ter lá seus riscos. "Estamos em guerra, ali acabou tudo," diz a caminho da farmácia.

Conversei com cinco passageiros que tomaram o avião para a Denguelândia a serviço hoje de manhã. Nenhum deles recebeu qualquer instrução para se prevenir contra a doença. Nem precisava, me diz dos grandes advogados trabalhistas do País. A avaliação é que a doença é um caso de calamidade pública e, se uma vítima da epidemia quiser alguma reparação, terá de acionar os governantes na Justiça – ou seja, o cofre da viúva.   

Saiba mais sobre a dengue:

  • Conheça o Aedes aegypti  e saiba como combater o mosquito
  • Veja os sintomas, o diagnóstico e o quadro clínico da dengue
  • Saiba como agir e o que evitar em caso de suspeita da doença 




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