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20:19
, atualizada às 07:03 01/04 -
Paulo Moreira Leite
Esta é a quarta-reportagem de uma série sobre o crescimento econômico brasileiro. Para diversos estudiosos, o desenvolvimento do País atingiu um novo patamar, apoiado em grandes exportações de commodities para os países asiáticos, a começar pela China, pela expansão do consumo das famílias de renda menor e pela imensa oferta de crédito. Mas ausência de uma infraestrutura adequada e a desindustrialização de determinados setores colocam perguntas sobre o ritmo e o sentido deste crescimento.
Na face menos luminosa de uma prosperidade que tem permitido uma melhoria saudável no padrão de consumo das fatias de baixo da pirâmide social do País, um pedaço da industria brasileira está sendo sacrificada pela produção chinesa, que entra no Brasil graças ao preço mais baixo, aos subsídios que recebe em seu país – e ao dólar barato.
As compras gigantescas que o governo chinês faz no Brasil – ferro, derivados de petróleo, soja, couros – ajudam a alavancar um crescimento continuado, que a maioria dos estudiosos avalia que irá prosseguir ainda que a economia americana tenha saído dos trilhos.
A contrapartida tem sido amarga para determinados setores da industria. O mesmo Brasil que, com muita razão, festeja a presença de 46% da população naquele universo de consumo onde começa a classe média, assiste ao desmanche de uma parcela de um parque industrial respeitável, que ajudou a diferenciar nossa economia entre os povos em desenvolvimento.
Entre o ano 1990, quando Fernando Collor derrubou as primeiras barreiras à importação, e 2007, a população brasileira passou de 146 milhões de pessoas para um total de 180 milhões – ou um crescimento de 24%. Nessa situação, quem produz para o mercado interno deveria ter elevado sua produção na mesma proporção. Ou então, deveria crescer – num ritmo menor. Foi pior do que isso. Embora a população tenha sofrido um acréscimo de 35 milhões de pessoas, em diversos casos a produção da industria brasileira diminuiu de forma drástica.
Na industria de móveis a produção caiu 1,3%. Na industria textil, 2,8%. Há casos mais chocantes, no entanto. A industria de vestuário encolheu 24% em 17 anos e a de calçados, 42,9%. (Todos esses números deveriam ter crescido 25% só para acompanhar o crescimento da população).
Há uma década, fabricantes de uma mercadoria tão popular e cada vez mais requisitada pela juventude, as escovas de cabelo, reuniam 30 fábricas em São Paulo. Hoje são duas. Por que? "Porque os chineses oferecem mercadorias tão baratas que seu preço não paga aquilo que nós gastamos só com a matéria-prima," afirma Manoel Canosa Miguez, o Manolo, dono das Escovas Fidalga, com meio século de existência.
Após cinco anos de enfrentamento com os importados, a Fidalga sobrevive como pode. Com sede no Bairro do Limão, a empresa funcionava em três turnos. Hoje opera num só. Os custos foram revistos. Além de cuidar do negócio, Manolo reserva boa parte de sua agenda para audiências em órgãos do governo, onde ingressou com uma ação por dumping contra os concorrentes.
Também fez uma viagem a China, que lhe permitiu conhecer melhor as armas à disposição do adversário. Seu argumento para a força dos importados situa-se no plano dos impostos e das relações com o Estado.
No Brasil, os impostos podem chegar a 40%. Na China, os produtos de exportação pagam 1% de imposto, taxa simbólica, e ainda recebem um subsídio de 12% sobre seu valor, que permite à empresa reaplicar o próprio investimento. Se no Brasil os chamados encargos sociais e trabalhistas chegam a 105%, na China ficam em 8,5%. "Nosso mercado se inverteu," diz Manolo. "Antes, a produção nacional tinha 80% e os importados tinham 20%. Agora, a relação continua de 80% a 20%, para os chineses."
Em outro setor da industria, a ótica, o país já teve 300 fábricas de tamanho razoável. Em uma década, restaram 15. "Por baixo, foram perdidos 30 000 empregos," afirma Rinaldo Dini, da Metalzilo, uma das mais antigas do país. Nos melhores tempos, a Metalzilo chegou a 300 funcionários, marca que lhe permitia ser considerada uma fábrica grande. Nos piores, caiu para 50. Hoje, está com 100.
Essa melhora deve-se a um processo vitorioso por anti-dumping, resolvido no final de 2007, que estabeleceu uma sobretaxa capaz de garantir a cobrança de impostos de armações importadas por um preço padronizado no mercado internacional, na base de U$ 270 por quilo – ou U$ 5 por peça. "Essa vitória nos deu um alívio, mesmo parcial," diz o empresário. O problema é que o processo levou três anos para ser concluído. Quando os empresários decidiram bater às portas da Justiça, conta Rinaldo Dini, o dolar andava pela marca dos R$ 2,70 ou R$ 2,60. Agora, caiu para R$ 1,78 "o que já anulou boa parte de nossos ganhos."
Outra parte das vantagens conseguidas tem sido anulada de outra forma. Nos últimos anos, o contrabando deixou de ser uma atividade artesanal para funcionar como uma máquina poderosa, com a regularidade dos bons relógios: sempre que os impostos sobem, as mercadorias desaparecem das importadoras legais para ressurgirem nas bancas de camelôs e mesmo em pequenas lojas, alimentadas pelos braços clandestinos do chamado "descaminho." A sensação de muitos empresários é de que enfrentam um inimigo poderoso e bem organizado, que disputa o mercado brasileiro sem escrúpulos nem pudores, que irá crescer e ocupar fatias imensas do mercado -- sem que os governos locais possam fazer muita coisa a respeito, pois se trata de uma força muito mais poderosa que a deles.
"Enfrentamos um concorrente que ataca em todas as frentes," descreve Rinaldo Dini. "Por exemplo: eles fazem um óculos que pode competir em qualidade e preço com aquele que fabricamos. Mas também fazem outro modelo, que é uma imitação deste, só que em material inferior, muito mais barata. O consumidor compra no risco, pelo preço. Mas também pode aparecer um terceiro modelo, que é uma falsificação da imitação, que você não sabe de onde saiu e que vai atrapalhar sua produção, também."
O mercado brasileiro de óculos de sol, por exemplo, chega a 90 milhões de pares vendidos por ano. Nesse total, "as industrias brasileiras ficam com 5%. A outra parte é dos chineses." Há dez anos, as vendas eram inferiores a 10 milhões por ano. O mercado era fechado às importações e as marcas brasileiras dominavam as vendas. "A concorrência fez bem, ajudou a ampliar o mercado mas tornou-se uma atividade destrutiva," afirma Rinaldo Dini. "Quem cresceu foi o produto importado. Nós diminuímos." O empresário pergunta: "será que isso é bom para o país?"
Na prática, ninguém acha que o futuro do capitalismo brasileiro depende deste ou daquele ramo da industria. O dragão chinês mudou o perfil da economia mundial. Transformou a oferta de matérias-primas numa benção da natureza. Nesse ambiente, não seria recomendável e nem seria possível nadar contra a corrente. Os próprios empresários prejudicados em seus negócios concordam que, como linha geral, esta opção está correta. Qual o problema, então?
"Nós estamos vendendo riqueza bruta, enquanto isso nunca foi boa política," afirma Manoel Canosa Miguez, o Manolo. "Os chineses não vendem riqueza. Vendem a matéria- prima manufaturada." A industrialização ajudou a criar um país com uma presença internacional destacada entre nações com história semelhante, estimulou a formação de universidades públicas de qualidade, permitiu que o país disputasse um lugar no mercado internacional, formou as primeiras camadas da classe média urbana. Rinaldo Dini pergunta: "Você acha que os produtos chineses vão ser sempre baratos? Eu acho que não. Quando não houver concorrência, eles poderão impor um preço mais alto. Também acho que eles acabarão repetindo a história do Japão, que também vendia produtos baratos e de má qualidade há 50 anos e hoje é conhecido por vender produtos bons e caros."
O debate coloca-se nessa questão. Envolve a necessidade de encontrar um ponto de equilíbrio capaz de aproveitar ao máximo as correntezas globais da economia – sem deixar de garantir oxigênio para o país ser mais do que simples fornecedor de matérias-primas para os centros mais dinâmicos do planeta.
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