25/03 -
18:05
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Paulo Moreira Leite
Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre o crescimento da economia brasileira, que hoje vive um dos melhores períodos de sua história. O consumo popular deu vários saltos, a produção de automóveis chegou a um nível recorde, as exportações explodiram. A inflação parece sob controle e o País passou da condição de devedor para credor internacional. Mas a falta de investimentos em infraestrutura coloca interrogações sobre o futuro, a desvalorização do dólar e a abertura comercial têm prejudicado setores importantes da indústria. A próxima reportagem da série será publicada nesta quarta-feira.
Vista a partir do chão de uma fábrica, a contínua prosperidade da economia brasileira tem outro valor e outro rosto. É menos luminosa e mais áspera.
Passei uma manhã de março em conversas com metalúrgicos da Zona Leste de São Paulo. Ouvi encarregados, peões, pais de família, avôs e garotos de brinco na orelha, aparelho no dente e cavanhaque aparadíssimo.
| Paulo Moreira Leite |
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| Para trabalhadores da Ferrolene, "deu uma melhorada leve" |
O maior aplauso partiu de um operário da Ferrolene, metalúrgica de 900 funcionários da Zona Leste de São Paulo, que fabrica chapas para automóveis, mercadoria que se tornou uma das alavacancas do crescimento. Mesmo assim, foi um elogio moderado. "Deu uma melhorada leve," me disse ele, minutos antes de atender ao apito para iniciar um turno de trabalho que vai das 6 da manhã às duas da tarde.
Casado com uma empregada doméstica, há oito anos este operário conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada. Há quatro, trocou um trabalho no comércio, onde "ganhava menos e jamais podia folgar aos domingos" pelo ofício na metalúrgica, graças a um parente próximo, que o indicou para uma vaga aberta.
Ele aparece na fábrica domingo sim, domingo não, para fazer hora-extra, quando reforça o salário em R$ 250. Com este dinheiro, consegue honrar a mensalidade de uma casinha de dois quartos que adquiriu em São Mateus, no extremo da Zona Leste, para onde se mudou depois de casar-se. O casal não tem filhos. Com um salário de R$ 814, sempre sobra um dinheiro para ir ao cinema e passear.
Estatísticas
As estatísticas mostram um ganho real no salário de muitos trabalhadores em geral e dos metalúrgicos de São Paulo em particular. Após anos de estagnação, quando mal se conseguia repor a inflação, o ano de 2003 – que coincide com o primeiro ano do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva – marcou uma primeira oportunidade de embolsar algum dinheiro a mais.
Para uma inflação de 16,15%, o reajuste foi de 19,64%, ou 3,4% a mais. De lá para cá, o quadro de ganhos sobre a inflação se repetiu em todos os anos seguintes, em margens entre 2% e 3%, para chegar a um acumulado positivo de 15,4 % em cinco anos. Não é só.
Inaugurado no governo Itamar Franco, o benefício conhecido como PLR (Participação nos Lucros e Resultados) não deixou de alcançar um número cada vez maior de trabalhadores, ano após ano.
No último controle disponível, de 2005, já chegava a 143 mil metalúrgicos, mais da metade da categoria. Em média, é uma renda suplementar de R$ 800 que é depositada, todos os anos, na conta dos trabalhadores – em duas parcelas semestrais.
Em uma categoria onde o salário médio fica em R$ 1.190,00, o PLR equivale a algo próximo a um 14º salário.
Outro dado é que o número de trabalhadores com registro em carteira não pára de aumentar. Cresceu 20% de 2003 para cá. É uma melhoria, mas a oferta de empregos aumentou menos do que isso. É que em muitos casos o aperto da fiscalização obrigou as empresas a formalizar quem já trabalhava, sem nenhuma garantia.
Salário mínimo
No último ano, os 80 metalúrgicos da Brasforma, metalúrgica de menos de 100 operários, tiveram um PLR de R$ 630. Há cinco anos, quando a situação da empresa estava melhor, essa remuneração foi muito superior. Agora, é considerada bastante modesta. O salário mínimo, quantia mínima para um acordo com o sindicato, é de R$ 415.
Conversei com diversos trabalhadores da empresa, que tomavam café com leite e comiam pão com margarina na primeira refeição do dia, no refeitório da fábrica – um ambiente que é alvo permanente das reclamações dos funcionários. O chão tem desnível. Os móveis estão em péssimo estado e o teto tinha goteiras até outro dia.
"Se você quiser saber o que melhorou, eu digo com sinceridade: nada. Nada!," enfatiza um operário de pouco mais de 20 anos, que se diverte com meu espanto. Pergunto pelo seu salário, ele me diz: "R$ 613 antes dos descontos".
Outro trabalhador fala de seus programas de fim de semana. Ele diz que as "pessoas do bairro agora têm mais serviço e isso é bom". Ajudante de solda, ganha R$ 641 por mês "antes dos descontos" e diz que a vida dele é melhor porque "sou solteiro, filho único e moro com meus pais".
A verdadeira questão é esta. Como é possível sentir grandes melhoras quando se ganha R$ 614 por mês? O salário até aumenta, mas as carencias seguem grandes. Quando se diz que o salário teve um ganho real de 2.6% de um ano para outro, isso quer dizer que a pessoa progrediu R$ 15 neste período. Dá 0,50 centavos por dia. Não paga uma passagem de metrô. Dois operários chegam a duvidar dos ganhos anunciados pelo sindicato. Estão convencidos de que o governo manipula os números da inflação para dar a impressão de que os preços não subiram tanto.
"A gente trabalha, trabalha muito, mas é sempre a mesma coisa", diz o operário que mora com os pais. Para as pessoas mais velhas, que têm uma remuneração um pouco maior, o horizonte é outro. "Essa conversa de melhoria está muito mal explicada," ironiza um operário que já passou dos 60. "Não vejo nada disso."
Os sindicalistas
Numa assembléia que reúne trabalhadores da Brasforma, um dirigente do sindicato recorda que a construção de lideranças é uma preocupação permanente da entidade. "Quem sabe um de vocês não irá se tornar o futuro presidente do sindicato?," sugere ele.
Para um imigrante do Ceará, do tempo em que se viajava para o Sul na carroceria de caminhão, a referência aos primeiros anos de São Paulo, quatro décadas atrás, "me recorda que naquela época era possível ganhar dinheiro de todo jeito. Ganhei muito dinheiro distribuindo jornais no ABC. Recebia muita caixinha," diz.
Chegando aos 60 anos, ele ganha R$ 1100 por mês, mas existem outros operários, que fazem função igual e recebem mais de R$ 1400. "Não me conformo com injustiça," diz.
Na entrada da Ferrolene, alguns trabalhadores terceirizados querem saber se poderão ser contratados. O sindicato diz que está fazendo força mas explica que talvez não dê para entrar todo mundo de uma vez. Alguns operários conversam sobre o crescimento econômico. A vida deles mudou um pouco. Um voltou a estudar, depois de anos fora da escola. Casado, um filho, quer terminar o colegial. Diz que a vida melhorou "porque a agricultura cresceu e a comida ficou barata. A produção brasileira está boa. Você já viu quanto custa um saco de batata?"
Filho de um motorista de ônibus que veio do Piauí, um operário com salário de R$ 814 explica que a grande mudança de sua vida ocorreu na troca de emprego. Era pedreiro, agora é metalúrgico e recebe uma parte da prosperidade da industria automobilística.
Antes, gastava R$ 80 por mês com o plano médico para a família. Agora, gasta R$ 48 com a mulher e um filho. Também fez um crédito consignado para abrir um pequeno negócio. Sua mulher é cabeleireira e ele está reformando a garagem de casa para fazer um salão para ela atender a clintela da vizinhança. Pretende gastar R$ 1800 de material. "Se eu não soubesse fazer o serviço de pedreiro, ia sair mais caro ainda."
O sindicato dos metalúrgicos de São Paulo é uma das fortalezas da Força Sindical. Luís Carlos de Oliveira, um militante que pertenceu ao Partido Comunista nos tempos da ditadura, é hoje o membro da diretoria encarregado de zelar pela base da categoria naquela região da cidade. Em Brasília, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força, integra a bancada de oposição ao governo Lula. Nas fábricas de São Paulo, as relações não tem hostilidade.
Quando se dirige aos trabalhadores, Luís Carlos, mais conhecido como Luisinho, gosta de recordar as campanhas pela anistia, a luta pelas diretas, a campanha para eleger Tancredo Neves no Colégio Eleitoral – e culmina o discurso dizendo que "hoje temos um torneiro mecânico que é tão bom ou até melhor do que qualquer doutor na presidência da República". Os trabalhadores estão habituados a ouvir isso e gostam.
"A dor do trabalho não acabou, mas muita gente está vivendo um pouco melhor," diz. Luisinho acha que entre todas as melhorias geradas pelo crescimento econômico, a mais importante é a do salário-mínimo. "Ninguém recebe o mínimo numa metalúrgica, mas todo mundo sabe que subiu muito. Hoje, um salário mínimo dá para pagar um aluguel. Vai dizer que isso não quer dizer nada?"
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