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Família desconfia de manipulação em laudo sobre morte por dengue

23/03 - 12:52 - Paulo Moreira Leite

RIO DE JANEIRO - Quando a terra começou a cobrir o caixão de seu pai, Ana Maria da Conceição, 55 anos, teve um pensamento triste e universal numa hora como esta. Lembrou que "a gente não é nada nessa vida." Aos 86 anos, Francisco Batista Monteiro, que todos nas vizinhanças em Campos dos Goytacazes, no interior do Estado do Rio, conheciam como Chiquinho, foi enterrado no dia 20, quinta-feira passada.

 

O laudo médico diz que a morte foi causada por infecção pulmonar, o nome genérico de pneumonia, mas até o último momento os filhos brigaram para que ali também constasse uma segunda causa: dengue.

"É a pura verdade," diz Ana Maria, lembrando que o pai passou os últimos dias de vida internado no Hospital dos Plantadores de Cana, onde se concentra boa parte dos doentes atacados por essa doença na cidade. Após muita relutância, o governo do Estado agora reconhece que se transformou numa epidemia.

Seu Chiquinho morreu no dia em que as autoridades debatiam se havia ou não epidemia e o número de casos no Rio atingia mais de 2 000 por dia.  

"O médico colocou apenas morte por pneumonia, favorecendo assim a diminuição da estatística de morte por dengue," afirma Francisco Roberto, o primogênito da família, num email enviado para o meu blog um dia depois da morte. "Precisamos nos unir e cobrar soluções imediatas para combater esta situação que as autoridades tentam esconder."

"Nós queríamos que o médico colocasse que além da pneumonia ele estava com dengue e até discutimos por causa disso. Mas acabamos desistindo," conta Ana Maria. "Não dá para ficar brigando muito nessas horas. A gente precisa cuidar de outras coisas." A família diz que queria que o laudo também falasse sobre a dengue "porque é o certo. O exame sobre as plaquetas do sangue ficou pronto no dia da morte e mostrou isso," diz ela, referindo-se a um componente que já ameaçava faltar nos estoques dos serviços de antedimento.

A filha conta que "meu pai nos enganou direitinho. Naquele dia de manhã ele falou comigo. Disse que estava bem e tinha uma cor melhor. Eu passei a noite com ele e fui para casa descansar. Meia hora depois, me avisaram que tinha morrido."

Seu Chiquinho, que é definido pela família como um guerreiro, teve uma vida difícil e esforçada. Educou dois filhos e uma filha – todos cinquentões, hoje - com modos severos. Ganhou a vida naquelas ofícios simples e honrados de tantos brasileiros: foi eletricista, também entendia de hidráulica. Conseguiu emprego na CTC, a empresa de ônibus da cidade, onde era borracheiro. Foi assim que se aposentou, com mais de 70 anos.  

Não sabia ler nem escrever: no tempo certo de estudar, não havia escola no lugar onde morava; quando havia escola por perto, não tinha mais interesse, embora a família insistisse.  

Dona Valdelite, a viúva, 77 anos, conta que há vários anos a saúde do marido não andava boa. Ele tomava remédio para tremores que os médicos identificaram como mal de Parkinson. Fumante inveterado, sofria de bronquite e tinha uma tosse muito forte. Muitas vezes precisava de ajuda para andar pela casa. A vista também falhava. 

Dez dias antes de morrer, seu Chiquinho começou a tossir muito, com muita força. Quando viu que nada resolvia, nem mesmo muitas colheradas de xarope, a família resolveu "pedir socorro," conta a viúva.

Foram quatro dias de aflição, sofrimento e falta de condições. Para sair de casa, não havia ambulância. No primeiro hospital, não havia leito. Em outro, faltava máquina de raio-X. Mas, na enfermaria, "havia muitos mosquitos," conta o filho Francisco Roberto. Num dos diversos hospitais por onde Chiquinho passou nos últimos dias, a família concluiu que era melhor ir embora logo "pois tudo é tão ruim que a gente entra com uma doença e pode sair com duas," diz a viuva.

Quando seu Chiquinho voltou para casa, a família chamou uma médica do bairro. Ele não parava de suar: tinha molhado o travesseiro, o lençol, o pijama. Estava cansado, com dor de cabeça. Convencida de que era um diagnóstico de dengue, a doutora mandou que fosse internado de novo e, dessa vez, até apareceu uma ambulância para buscá-lo. No dia seguinte, ele morreu. "Ele chegou lá com as unhas roxas," conta a viúva. "Um de meus filhos conta que ouvi um médico comentar com o outro que 'o negócio não estava bom."

Em busca de explicações sobre o caso, a direção do hospital Plantadores de Cana, em Campos de Goytacazes, onde Francisco Batista Monteiro morreu, foi procurada mas não deu retorno. Sem ouví-la, não é possível confirmar – nem desmentir – a desconfiança de manipulação na causa da morte. Foram feitos seis telefonemas à instituição. A pessoa responsável no dia de hoje foi informada sobre a necessidade de esclarecimentos. Também foram deixados recados no telefone celular da médica que atendeu Chiquinho em casa. Não houve retorno até o momento.

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