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Sobel é internado às vesperas de lançar livro de memórias; leia capítulo com exclusividade

14/03 - 12:41 - Paulo Moreira Leite

Dez dias dias antes do lançamento de seu livro de memórias, "Um homem, um rabino", Henry Sobel encontra-se internado numa clínica de repouso nas vizinhanças de São Paulo.

Num quadro de grande ansiedade, que pessoas que convivem com Sobel explicam pela expectativa que envolve a recepção do livro, o rabino foi conduzido a clínica no final da manhã da última quarta-feira e deve ficar fora de circulação até o dia 25 de março, data do lançamento.

O prefácio do livro é assinado por Fernando Henrique Cardoso, um velho amigo de Sobel. No dia 31 de março, o ex-presidente da República abre as portas do Instituto Fernando Henrique Cardoso para festejar o lançamento da obra.

Com mais de 300 páginas, preço de R$ 39,90, editado pela Ediouro, "Um homem, um rabino" terá uma tiragem inicial de best-seller – são 30 mil exemplares.

Em seu primeiro capítulo, Sobel fala do episódio das gravatas furtadas num shopping center da Flórida, há exatamente um ano, em um escândalo que dividiu sua biografia em duas partes. "Quem sou eu?", interroga-se o rabino, num dos parágrafos do livro.

"O objetivo deste livro é mergulhar em minhas memórias e, com elas, resgatar, não só minha vida, mas um pouco de quarenta anos de história do Brasil, dos judeus e do judaismo brasileiros, dos quais fui personagem, em alguma medida."

Para o rabino, o livro é "o momento em que peço perdão a meu povo – o povo judeu – e ao meu País – o Brasil." Ele ainda acrescenta: "e peço perdão, também, a mim mesmo, à espera de um salvo-conduto que me permita lutar contra as dificuldades e reconstruir uma vida digna e comprometida com causas universais."

A data de lançamento do livro foi escolhida para coincidir com a prisão do rabino na Flórida. Ele foi detido no dia 23 de março. O lançamento será no dia 25 – só não foi marcado para o dia 23 porque cairia nos feriados da Pascoa.  

LEIA COM EXCLUSIVIDADE UM CAPÍTULO DO LIVRO DE SOBEL

Divulgação
 

"Polêmicas com os ortodoxos

NASCI EM UM LAR JUDAICO ORTODOXO E, APESAR DAS GRANDES DIFERENÇAS de interpretação da religião, como rabino liberal, nunca tive problemas com meus pais. Sempre respeitamos essas diferenças. No entanto, em todo esse tempo de trabalho no Brasil, estive envolvido em polêmicas e disputas — algumas delas duríssimas — com os ortodoxos. Acho que, para que essas polêmicas sejam mais bem entendidas, é importante contar um pouco sobre as várias linhas filosóficas do judaísmo.

Existem três grandes correntes: a ortodoxa, que se subdivide em “linhagens” familiares de rabinos famosos, com seus respectivos seguidores. Um dos ramos da ortodoxia é o movimento hassídico, que nasceu na Europa oriental no século XVIII, pregando um judaísmo menos elitista, mais popular e alegre. Muitos ortodoxos se vestem de preto, usam barbas e deixam crescer os cachos laterais dos cabelos (peot, em hebraico), repetindo os hábitos dos ancestrais. Nas congregações mais estritas, as mulheres raspam o cabelo e usam perucas cobertas por lenços, para não despertar o desejo de outros homens, que não seus maridos.

A segunda corrente inclui conservadores e liberais — curiosamente os dois termos definem uma orientação filosófica semelhante. Ela é majoritária nos Estados Unidos, na Europa e mesmo no Brasil. Mas, em Israel, o establishment religioso é controlado pelos ortodoxos. A CIP e eu somos liberais/conservadores. Os reformistas, as congregações ultraliberais, com força principalmente nos Estados Unidos, formam a terceira grande corrente filosófica judaica.

Desde minha chegada ao país, mantive pouco contato com rabinos de outras correntes. Quando meu pai me visitava, de vez em quando eu o acompanhava a uma sinagoga ortodoxa. É bom lembrar que não existe uma hierarquia religiosa rígida no judaísmo. Em muitos países, como o Brasil, sequer há um rabino-chefe, e cada líder religioso trabalha de acordo com suas convicções.

Sempre expressei posições liberais. Por exemplo, desde os anos 1970 eu defendia o direito de homens e mulheres sentarem-se juntos na sinagoga da CIP (veja texto ao final). Os sócios mais tradicionalistas resistiam à mudança, que já era adotada nas sinagogas reformistas. Por que não? Não queremos trazer mais gente para a sinagoga? Porém, só nos últimos anos a minha própria congregação começou a admitir homens e mulheres sentando-se juntos nas cerimônias religiosas.

Também defendi a ordenação da primeira rabina do Brasil, Sandra Kochman, em 2003, o que os ortodoxos não admitiam. E a segunda rabina, Luciana Pajecki Lederman, esteve comigo em vários campos de estudos de férias na CIP. Ora, se a comunidade se preocupa com judeus que abandonam a religião, não pode esquecer mulheres que se afastam por conta de restrições que lhes são impostas.

Em 1980, um grupo de rabinos ortodoxos publicou, na mídia judaica, uma declaração afirmando que não oficiariam cerimônias religiosas — bar e bat-mitzvá, casamentos... — se toda a comida servida nas recepções não fosse estritamente kasher24. Achei um absurdo e manifestei isso em entrevistas e artigos. Em minha casa, mantemos a kashrut e, na CIP, não é permitido servir comida que não seja kasher. Todavia uma coisa é respeitar a tradição e outra coisa, muito diferente, é impor a tradição.

Outro incidente, agora em Israel, aconteceria em 1990. Os rabinos religiosos resolveram tirar o rótulo de kasher de todos os alimentos produzidos por empresas que fizessem propagandas “obscenas”. Claro que, em sua interpretação muito particular sobre o que é obscenidade, eles incluíam outdoors ou anúncios de TV com moças usando calças compridas e com os braços descobertos. Um novo lance de obscurantismo se manifestaria com a retirada do selo de kasher das garrafas de Pepsi e de Coca-Cola. Isso porque, segundo os chefes da ultra-ortodoxia, essas marcas patrocinam artistas como Michael Jackson, que colaboram para “perverter os jovens judeus”.

Ora, façam-me o favor... Questionado pela imprensa, manifestei claramente meu repúdio a esse tipo de posição. Um alimento é ou não kasher em razão de sua composição ou da forma de seu preparo. A classificação não pode ser determinada pelo humor do rabino de plantão diante de uma moça bonita em uma propaganda... Não sei como ficou o assunto.

O mercado das comunidades ortodoxas é importante nos Estados Unidos, em Israel e na Europa ocidental. Talvez, a Coca-Cola e a Pepsi-Cola tenham buscado algum tipo de composição, ao contrário do McDonald’s, que jamais cedeu à pressão dos ortodoxos e abre suas portas aos sábados em Jerusalém. A marca, que em muitos países latino-americanos é vista como símbolo do “imperialismo ianque”, em Israel se transformou em sinônimo de tolerância e liberdade de costumes. Isso porque, em Jerusalém, o lobby ortodoxo é para que nada — bares, restaurantes, cinemas, transporte público — funcione durante o shabat."

Clique aqui para ler a íntegra do capítulo





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