02/03 -
18:41
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Paulo Moreira Leite
SÃO PAULO - Um conflito entre moradores dos Campos Elísios, tradicional bairro no centro de São Paulo, transformou-se numa guerra que mobiliza autoridades, advogados, personalidades da Igreja Católica e políticos ligados ao PT e PSDB. A disputa também envolve opções de recuperação de uma das áreas mais antigas da cidade e alternativas ligadas à perenidade da questão social brasileira. De um lado encontra-se uma entidade chamada Fraternidade Aliança Toca de Assis, que desde março de 2005 ocupa um palacete na rua Conselheiro Nébias, com 1600 m2 de área construída e um terreno de 2600 m2, e uma população declarada de 110 moradores de rua.
De outro, centenas de habitantes de um bairro tipicamente de classe média, convencidos de que a atração de um grande número de excluídos, desempregados e doentes para o bairro poderá comprometer a qualidade de vida e inviabilizar as chances de revitalização. Eles organizam protestos contra a entidade desde o primeiro dia, quando o então governador Geraldo Alckmin compareceu ao local para entregar a casa, propriedade do governo do Estado, a seus novos ocupantes.
"Naquele dia cheguei a me jogar na frente do carro do governador e quase fui atropelado," conta Luiz Augusto Sales, a principal liderança dos Campos Elísios, onde vive há quase 50 anos, fundou a Associação de Moradores e Comerciantes e ali mantém um concorrido salão de beleza, dividindo o tempo entre conversas sobre os problemas locais e a organização da agenda para atender a freguesia. "Somos um bairro com faculdades, escolas, e uma grande população de aposentados. Precisamos de um centro cultural, de um espaço de convivência." Refletindo uma opinião comum entre moradores, Luiz Augusto diz que o palacete da Conselheiro Nébias "seria o local ideal para isso."
Em função de denúncias apresentadas ao longo de três anos, dias atrás a suprefeitura da Sé despachou um comunicado à Toca de Assis determinando a interdição do local, exigindo que determinadas irregularidades fossem resolvidas. Na prática, o decreto não teve efeito imediato e, nos dias seguintes, o funcionamento da casa era igual ao de antes. Os problemas são vários: desde a falta de condições de higiene, alvo de advertências oficiais há pelo menos dois anos, até o não-pagamento de multas e atrasados pelo uso irregular do imóvel, que somam R$ 19.500. Uma denúncia dos vizinhos diz que a Toca não possui profissionais preparados nem instalações apropriadas para atender ou medicar a população ali abrigada, em grande parte idosos com a saúde mental comprometida.
Um total de 16 religiosos respondem pelo dia-a-dia da casa. Eles vestem túnicas de algodão rústico, pes descalços, portam crucifixo de madeira no pescoço e encerram a maioria das frases com sentenças religiosas como "Vá com Deus!" Apesar da aparência, eles não são frades nem foram formados em seminário. A Toca de Assis também não é uma ordem religiosa reconhecida pelo Vaticano. Conta com o apoio da hierarquia católica e também do Padre Julio Lancellotti, responsável pela Pastoral do Povo da Rua.
Num depoimento que eu iria ouvir outras vezes, um morador me disse que chegou a ver uma troca de curativo sem o uso de luvas de borracha, instrumento básico para evitar contaminação. O comerciante de acessórios Nazim Mohamed Auada, 44 anos, que reside no quinto andar de um edifício em frente a Toca, conta que na tarde de sábado, 17 de fevereiro, assistiu, pela janela de seu apartamento, um interno ser agredido por um dos irmãos. Nazim conta que imediatamente ligou para o 190, pedindo providências. "A polícia chegou, entrou no lugar mas a vítima preferiu não registrar queixa," conta Nazim.
Quem responde pela casa e pelos outros 15 devotos que se dedicam às tarefas cotidianas, é o guardião Agostinho da Sabedoria da Cruz, 30 anos. Perguntado sobre o pedido de interdição da prefeitura, o guardião responde: "isso não vai acontecer. Recebemos um prazo de 60 dias para atender a suas exigências e vamos cumprí-lo antes disso." Ex-ferramenteiro da Volkswagen, criado na região do ABC paulista, Agostinho conta que após uma "experiência mística" decidiu abandonar a vida de cidadão comum para "amar os pobres, os sujos, os mal-cheirosos, aqueles a que ninguém ajuda." O guardião responde às críticas com uma linguagem de culto: "eu olho para os pobres, feios, abandonados, e enxergo Jesus Cristo. Tenho o dever de lhes dar conforto e carinho. Outras pessoas conseguem dar mais importância a seu cachorro do que a um ser humano."
Num tom que mistura orgulho e provocação, Agostinho diz que "nós somos o espinho no ôlho das pessoas que não querem enxergar a sociedade aonde vivem. Vamos incomodá-las sim, porque não vamos desistir de nossa missão." Pergunto ao guardião se a casa possui um médico de plantão. A resposta é não. Pergunto por um enfermeiro. A resposta: "temos um técnico em enfermagem que mora na Moóca, que é perto daqui. Em caso de necessidade, nós o chamamos." E quando é necessário chamar um médico?
"Existe um posto de saúde a poucas quadras. Chamamos alguém de lá," diz. Ele garante que todos os pacientes com diagnóstico médico são registrados e catalogados, com anotações de medicamentos e respectivas dosagens. Um dos rumores mais frequentes no bairro é que a casa abriga moradores com moléstias variadas, inclusive doenças contagiosas. Agostinho responde: "Quando nós recolhemos um morador de rua, ele toma um banho, ganha roupas novas e depois o levamos a um hospital. Ali é examinado e recebe os cuidados necessários. " Perguntado sobre os critérios de escolha de moradores de rua, o guardião diz: "Quando temos uma vaga, procuramos os mais necessitados. Entre estes, escolhemos sempre aquele que está em pior estado."
Conforme Nelso Barbosa, um dos integrantes da associação de moradores, durante um encontro encontro com pessoas do bairro o sociólogo Floriano Pesaro, secretario municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, referiu-se aos serviços da Toca como um "atendimento medieval." (Procurado, Pesaro negou que tenha se expressado dessa forma).
Num comportamento que reflete a situação de tensão, os moradores de Campos Elísios se queixam de que são apontados na rua como "burgueses," "privilegiados" e "egoístas." Apenas um muro separa o apartamento de Dinah Piotrowski, presidente da Associação de Comerciantes e Moradores dos Campos Elísios e a Toca de Assis. Viuva, violonista de profissão, Dinah anima casamentos, festas de aniversário e outros eventos. Seu apartamento tem dois quartos, móveis simples. O maior luxo é um pequeno jardim, com flores amarelas. Um dia, de volta para casa, ela encontrou um interno sentado no telhado do quintal do edifício – e decidiu colocar grades nas portas e janelas. "Vivo numa prisão," diz. Para Nelson Barbosa, "o que a Toca está fazendo é profissionalizar o morador de rua. Eles não aprendem a trabalhar nem a ganhar a vida. Vivem daquilo que recebem."
Leia a continuação da reportagem em Campos Elísios – "Eles tem ódio de nós"
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