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Campos Elisios – "Eles têm ódio de nós"

02/03 - 18:49 - Paulo Moreira Leite

CONTINUAÇÃO - Alguns moradores de Campos Elísios apoiam a Toca de Assis, até hoje. "Só tenho uma palavra para definir a relação de muitos vizinhos com a Toca: ódio. Eles não se conformam de ver que tem gente ajudando, contribuindo para fazer o bem para os mais necesssitados, enquanto eles não fazem nada", diz a dona-de-casa Selma Aparecida Lázaro Branco de Matos, 40 anos. Ela mudou-se para os Campos Elísios há oito meses. Todos os dias passa três horas na Toca como voluntária. Toma conta de um bazar para a venda de roupas usadas. Casada com um motorista de táxi que também reforça o orçamento como inspetor escolar, Selma não trabalha fora e é mãe de oito filhos. Admite que a formação extremamente religiosa contribuiu para o nascimento de uma prole tão grande, pois ela e o marido são contra o uso de medicamentos e métodos anticoncepcionais, "só os naturais."  

A Toca de Assis abriga uma população declarada de 110 moradores de rua, que passam o dia internados no casarão. Os vizinhos, que monitaram a Toca com máquinas fotográficas e mesmo filmadoras, dizem que a maioria passa o dia inteiro parada, sem atividade, em bancos e cadeiras de roda. A casa também possui um anexo, com 40 leitos, destinado a um grupo de pessoas que passa o dia fora – mas é recebido para dormir, com num albergue. Muitos moradores de rua que dormem sob árvores e marquises do bairro e passam o dia pedindo esmola e cigarros aos passantes costumam se encontram na calçada em frente ao palacete da Conselheiro Nébias. Ali esperam pelo café da manhã, pelo almoço e pelo jantar. Também dormem. Alguns namoram, outros brigam e até se machucam, contam os vizinhos. Diversos vizinhos recordam que, no ano passado, um morador de rua, que chegou a viver na Toca de Assis por um período, foi morto a facadas após uma briga noturna.

Ao longo de algumas visitas aos Campos Elísios, pude encontrar dezenas de cidadãos que faziam suas refeições e dormiam na calçada. Na manhã de sábado, 1 de março, havia quatro pessoas por ali. Um deles dormia desde cedo e não abriu os olhos antes das 13 horas. Outro era um imigrante cearense, desempregado, que esperava por uma refeição e se dizia pronto para retornar para o Estado natal. "São Paulo já era," disse. O terceiro era um gaúcho de cabelão comprido, que se declarou em busca de qualquer emprego (até se ofereceu para me ajudar a escrever esta reportagem, em troca de algum dinheiro). O mais novo veio da Bahia, passa os dias com um grupo de jovens que pede uns trocados com o argumento que vai tomar conta de automóveis num quarteirão ao lado – mas tem um olhar disperso que sugere uma imensa dificuldade para concentrar-se em qualquer ponto da vida real. Ele pediu um prato de comida na Toca mas foi embora com um copo d'água.

Uma senhora septuagenária, que há mais de 40 anos vive no bairro, diz que o problema não é a existência da casa, mas as cenas que se vê na rua. "Conheço o trabalho que é feito lá dentro e não acho ruim. Muitas pessoas reclamam dos cantos e missas que podemos ouvir de vez em quando. Sou católica e gosto. Costumo até ajudá-los com farinha, sacos de arroz e um butijão de gás, de vez em quando. O problema é o que se faz aqui fora. As pessoas dormem, comem, cozinham. Fazem xixi, cocô e até sexo. Nossas calçadas se tornaram intransitáveis. Antes eu gostava da Toca. Agora eu acho que foi uma idéia que deu errado."

O guardião Angostinho da Sabedoria da Cruz classifica esse comportamento como "puro preconceito. Atribuem aos moradores de rua os problemas da sociedade." O preconceito existe. Muitos vizinhos associam a presença de moradores de rua a alguns altos índices na criminalidade do lugar,  o que é pura dedução, longe de ser confrmada de modo conclusivo. É difícil negar, contudo, que a Toca de Assis atrái cidadãos que vieram de vários pontos da cidade, boa parte saídos dos labirintos da Cracolandia, onde a miseria, a promiscuidade e a depedência química tornaram-se uma marca da paisagem. "Sou do comércio atacadista e a presença dessas pessoas não afeta meu negócio," admite  Francisco Sanchez, que há doze anos tem uma loja de rolamentos no bairro. "Mas a imagem de quem trabalha por aqui é prejudicada. Quando um cliente vem à loja e vê aquelas pessoas dormindo na minha calçada, pode começar a se perguntar que tipo de coisa eu faço, como eu sobrevivo num meio desses. Todos temem que seu negócio seja julgado por causa disso."

Na quarta-feira, 27 de fevereiro, fiz uma visita de hora e meia  a Toca de Assis. Assim que o portão se fecha, é possível avistar, na parte de trás, um pequeno disco colado à porta, embranquecido pela chuva, com os dizeres: "Brasil sem aborto."

US

Selma, vizinha que ajuda no bazar dos

religiosos: "Alguns vizinhos tem ódio de nós"

A primeira visão é de diversos internos em cadeiras de roda, outros que caminham pelo páteo de paralelepípedo, olhar perdido. Desorientado, um interno veio falar comigo, confundindo-me com um parente – situação relativamente comum quando se visita esses ambientes. O local estava calmo, silencioso, organizado. É possível que nem sempre seja assim, pois minha visita fora acertada com antecedência. Acompanhei trabalhos de reforma da cozinha e da lavanderia, que estão sendo feitos com donativos externos, inclusive um banco multinacional. Visitei salões e cômodos de pé direito alto, colunas de estilo mourisco – típicas da arquitetura paulistana dos casarões de café erguidos nas primeiras décadas do século passado. Entrei num quarto onde uma dezena e meia de pacientes em estado grave passam o dia dormindo. Numa sala grande, um grupo silencioso contemplava uma imagem do padre Roberto Latieri, fundador da Toca de Assis, instituição com casas em diversos pontos do país e sede central em Campinas. Conheci duas capelas em funcionamento. A maior delas é de  adoração perpétua: as velas ficam acesas 24 horas por dia – e sempre um devoto está presente, em orações.

Num lugar de reconhecido valor histórico, um dos ambientes foi alterado pelos novos ocupantes. Eles pintaram uma parede para homenagear, com cruzes, nomes e datas, os mortos da tragédia da Praça da Sé, em 2004, quando moradores de rua foram assassinados.  Foi após essa tragédia que o padre Julio Lancellotti convenceu Geraldo Alckmin a ceder o local para uso da Toca de Assis. Personalidade sempre mencionada no lugar, o próprio Lancellotti é alvo de uma homenagem interna. O anexo onde 40 moradores de rua são autorizados a dormir leva o nome de "Hospedaria Padre Julio Lancellotti." Pergunto ao guardião sobre a homenagem aos mortos da Praça da Sé. Ele refere-se a eles como "mártires." Não vi nenhuma atividade educativa durante minha visita. O guardião me diz que cursos e outras atividades ocorrem em outros horários. Ele me mostra uma sala de artesanado e uma pequena escolinha, desativada porque o número de alunos era pequeno. "Agora eles estudam em outra sala," diz.

Do lado de fora da Toca, encontro a pequena empresária Tania Regina Lopes, que abriu um restarante novo e bem arrumado a uma quadra dali. Ela queixa-se de moradores de rua que já invadiram seu estabelecimento em busca de um prato de comida em horário de almoço. Conta que diversas vezes uma funcionária precisa lavar as calçadas e os jardins do estabelecimento porque é ali que alguns fazem suas necessidades. Tania Lopes reside no bairro desde a infância. Define-se como católica, tem sempre um crucifixo no pescoço, faz contribuições mensais regulares para sete instituições de caridade – boa parte mantidas pela Igreja – mas acha que o trabalho da Toca de Assis só prejudica o lugar. "A presença deles assusta as pessoas, cria insegurança." Pergunto se ela não sente piedade por aquelas vidas infelizes, sem rumo, feias, sem banho. "Sinto piedade, sim." E completa: "por isso mesmo acho que deveriam ser ajudadas a mudar de vida. Não é isso o que fazem com elas."

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