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Campos Elísios - Governo, política e religião

02/03 - 18:53 - Paulo Moreira Leite

CONTINUAÇÃO - Como todo drama social de verdade, no conflito dos Campos Elísios as cartas tradicionais da política nem sempre fazem sentido. O decreto que cedeu a casa foi assinado por Geraldo Alckmin, governador do PSDB e candidato a prefeito. Já o patrono espiritual, padre Julio Lancellotti, costuma ser associado ao PT. A subprefeitura da Sé, que enviou o comunicado que fala em interdição do local, atua sob o comando de Gilberto Kassab, do DEM. Na Câmara Municipal, o vereador do PT Beto Custódio, presidente da Comissão de Direitos Humanos, é um aliado seguro dos religiosos da Toca. Outra fatia do partido tem se mobilizado ao lado dos vizinhos. Uma das mais ativas militantes da causa dos moradores é uma bancária, ativista do PT, muitas amizades no partido.

Num bairro que serve de abrigo a parte da comunidade judaica de São Paulo, onde crescem igrejas pentecostais e também correntes budistas, o debate entre a Toca de Assis e os moradores tem um conteúdo religioso mais explícito do que em outros lugares. Na denúncia enviada ao Ministério Público, os moradores apontam para a prática de rituais religiosos – como missa, cânticos e outras celebrações – como um atentado ao artigo 19 da Constituição, que estabelece o caráter laico do Estado. O documento lembra que a entidade "utiliza, como não poderia deixar de ser, o imóvel público para sua ação e sua prática religiosa, sua liturgia, suas cerimônias, sua ascese, para a realização de seu 'carisma' fundamental, que é a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento."

Apoiado em Ruy Barbosa, o documento dos moradores lembra que na República "firmou-se a regra de que nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nenhum culto ou igreja terá relações de dependência com o governo, nenhum culto ou igreja terá com o governo relações de Aliança."

Quando se refere a seus tempos de estudante, Agostinho fala dos cursos de sociologia como "conhecimentos ateus." O discurso messiânico do guardião já foi bastante criticado dentro da própria Igreja, pois atribui cada gesto e cada impulso pessoal à uma manifestação da vontade de Deus. Agostinho doou bens – fruto da venda de uma automóvel e de uma indenização recebida quando deixou a Volkswagen – para a Toca de Assis. Ele observa que a preocupação maior dos críticos do bairro "não envolve o tratamento médico dos doentes nem o uso religioso do lugar, mas desvalorização de seus investimentos." O guardião está certíssimo. De uma forma ou de outra, os moradores do bairro estão sempre falando de dinheiro – ou pelo menos de condições materiais de vida -- quando se queixam da Toca. Está errado?, pergunto. "Cada um tem seus valores. Nós achamos que as vidas humanas valem mais do que o patrimônio."

A impressão é que pessoas de profunda convicção religiosa – como o guardião Agostinho –, capazes de abrir mão de seu patrimônio para se empenhar numa causa , tentam impor o mesmo comportamento aos demais, forçando um debate moral fictício. Os moradores dos Campos Elisios trabalham duro, juntam dinheiro e pagam impostos para ter uma condição melhor no futuro e deixar um patrimonio para os filhos. Eles são cidadãos com as qualidades e defeitos de seu tempo. Defendem essa realidade muitas vezes impalpável mas real que é o espaço público. Eles têm esse direito.





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