20/02 -
08:47
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Paulo Moreira Leite
A discussão sobre a democratização está na ordem do dia em Cuba? É quase impossível conversar sobre este assunto em Havana. Ao menos em teoria as pessoas não sabem o que isso significa, pois não tem uma memória a respeito.
A quase totalidade dos cubanos nasceu sob o regime comunista, passou a vida lendo um único jornal, foi educada pelos mesmos livros de história e só participou de eleições de mentirinha para referendar a chapa escolhida de cima para baixo em organismos do Estado. Fidel Castro é um chefe de Estado popular e a oposição não existe para a maioria das pessoas, já que tem sido eliminada regularmente da vida pública desde 1959.
É difícil para os cubanos discutirem opções para seu futuro sob a pressão permanente do bloqueio econômico imposto ao país pelo governo americano há quase meio século. O bloqueio americano é um obstáculo imenso e injusto contra o desenvolvimento cubano. Impede o acesso a tecnologias contemporâneas e impõe sacrifícios à população, especialmente aos mais humildes.
A contrapartida é que serve como espantalho favorito para a propaganda do regime e funciona como um fator de imobilidade política. "Sem mudanças na área externa você pode esquecer qualquer hipótese de mudanças na área interna," me disse um intelectual cubano com quem pude conversar informalmente durante uma visita à ilha, no final de 2006.
Cuba é um país governado por um pequeno grupo de dirigentes do Partido Comunista que, após a aposentadoria completa de Fidel Castro, irá entregar o poder a seu irmão, Raul Castro. O regime se auto-define como ditadura do proletariado mas seria mais adequado definí-lo como uma ditadura, sem adjetivos. Embora o eleitor norte-americano esteja discutindo a formação de dinastias Clinton e Bush que se revezam na Casa Branca, a sucessão em família continua mais comum em monarquias.
Em Cuba as pessoas são vigiadas por um sistema de segurança com raízes e ramificações que chegam à casa de cada família, onde todo cidadão é obrigado a registrar o nome das visitas que recebe – e essa relação será controlada, mais tarde, pelas autoridades. Fidel Castro é um político identificado com as conquistas sociais produzidas pela revolução, como uma boa saúde pública e um sistema educacional que atinge 100% da população ou quase.
Seu carisma é reconhecido mesmo pelos adversários e não tem equivalentes entre seus pares, muito menos entre as novas gerações, que não carrega no curriculo a condução de uma revolução vitoriosa a partir de um pequeno grupo de guerrilheiros acampados no mato.
O país sobrevive sob um regime esgotado, do ponto de vista economico, conformista, como ambiente político, e regressivo, em perspectiva histórica. Cheguei a assistir, pela TV, a um encontro de dirigentes da UNE cubana. Se fosse um encontro de funcionários públicos em busca de redução na jornada de trabalho o ambiente seria mais combativo e independente.
Andei pelas poucas livrarias e sebos de Havana. As mercadorias em oferta são obras reeditadas de autores marxistas alinhados. Nem dissidentes históricos tem seu lugar. É controle mesmo. O livro mais novo não era original: continha uma longa entrevista de Fidel Castro.
Visitei duas fábricas de charutos, na capital e no interior do país, que empregam aquilo que as autoridades definem com a "elite" dos trabalhadores cubanos. O calor é imenso, não há ar condicionado. Os operários trabalham de bermuda, camiseta e sandália havaiana.
A carência é tão grande que aceitam presentes como sabonete, xampu ou desodorante para deixar o turista tirar uma foto. (As mulheres aceitam absorventes íntimos, que ainda não raros na Ilha). A visita a um supermercado mostra prateleiras onde produtos corriqueiros para a maioria dos trabalhadores de qualquer país da América Latina, como refrigerantes, doce em calda, embutidos, são vendidos como artigos de luxo -- e consomem um mês de salário. Nas feiras populares, a comida é farta e barata.
O atual projeto político da direção do partido é reforçar a aproximação com o governo da China Comunista. O discurso "ortodoxo" e "radical" do PC cubano tem a ver com esse figurino chinês. A cúpula do partido, seus aliados e amigos aguardam pela nova ordem para assumirem os negócios como investidores privados. Querem uma transição econômica sem a perda do poder político.
Como ocorreu em outros lugares, o que está em curso é o capitalismo dos burocratas. Uma privatização silenciosa, embalada por elogios às reformas ocorridas na China Comunista: as ramificações mais lucrativas e promissoras do Estado são entregues a dirigentes políticos e amigos do regime que, pouco a pouco, passam a comandá-las de acordo seus interesses.
Embora tenham ocorrido tentativas de democratizar o comunismo por dentro, nenhuma deu certo, apesar de episódios memoráveis, que hoje estão perdidos nos labirintos de muitas contradições da história, como a revolução húngara de 1953, a Primavera de Praga de 1968. A restauração capitalista é uma realidade nos antigos países socialistas, onde funcionam regimes que, nos dicionários marxistas, seriam classificados como "democracias burguesas."
Com seu capitalismo stalinista, a China recebe investimentos imensos, ganha tamanho de potência e ajuda a alavancar a economia mundial. Mas há conflitos, o número de protestos do cidadão comum chega a milhares por ano, a ausência de instituições democráticas é um risco permanente de instabilidade.
Mesmo assim, a possibilidade de contar com assalariados cubanos bem educados, treinados e mantidos sob uma disciplina de ferro pela ditadura é uma possibilidade que pode interessar a muitas corporações internacionais, que hoje fecham os olhos para o lado amargo do milagre chines.
Essa é a discussão. Qual seria o melhor destino para o povo cubano?
Opinião
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