18/02 - 12:11 - Paulo Moreira Leite, de Nova York
Estou feliz com a tristeza dos ultraconservadores, americanos mas não fico impressionado com sua gritaria contra a candidatura de John McCain. Minha opinião sobre o show atual republicano é a seguinte: há algumas semanas os caciques mais lúcidos do partido decidiram forçar a escolha de McCain como presidenciável do partido pelo receio de que as primárias pudessem parir uma aberração que seria puro folclore na campanha – e uma alegria para qualquer candidato democrata. De Rudy Giuliani a George Bush, pai, não há um fiapo de dúvida a respeito de que o nome é McCain.
Minha aposta é que os ultraconservadores vão gritar e espernear até conseguir um pedaço de filé mignon na campanha de McCain, garantia de espaço num eventual governo republicano, o que é sempre possível diante da incrível capacidade dos democratas prejudicarem a si próprios. McCain terá necessidade do braço militante dos ultraconservadores para procurar votos, como fez George W. Bush em 2000 e 2004, e é provável que faça concessões. Se repetir o antecessor, pode entregar a chapa de vice para um ultraconservador – como fez o próprio Bush, ao compor uma chapa com Dick Cheney.
No mundo inteiro existem partidos conservadores. Eles combatem reformas sociais porque só acreditam no valor do indivíduo, consideram as iniciativas do Estado para produzir melhoriais puro desperdício de dinheiro público, mas respeitam a democracia e as regras fundamentais do jogo político moderno.
O próprio ex-presidente Richard Nixon é um bom exemplo de político conservador. Ele cometeu uma patifaria que lhe custou o governo, a espionagem no edifício Watergate, mas o balanço final tem sido reavaliado com outras poderações. Nixon aproximou o país da China, fez a paz com o Vietnã e abriu um período de distensão internacional importante. No plano interno, respeitou acordos com sindicatos, que tem uma força real na sociedade americana, e até realizou investimentos heterodoxos no Bem-Estar Social. Nixon não deixou de ser conservador por causa disso. Mas em vários terrenos ele buscou respostas contemporâneas aos problemas de sua época.
Os ultraconservadores têm outro programa. São a favor do feudalismo. Querem colocar o Estado a serviço da Igreja deles. Combatem o avanço da ciência sempre que ela possa ameaçar seus dogmas religiosos (mas não se importam com os dogmas das religiões dos outros). Não se importam com quem morre de AIDS nem com pesquisas que possam avançar na cura do câncer. Uma de suas porta-vozes mais conhecidas já declarou que os judeus precisavam ser "endireitados", exclamação reveladora quanto a origem medieval de seu pensamento.
A fraqueza atual dos ultraconservadores se explica pelo fato de que suas idéias foram assumidas, testadas e reprovadas pelo governo George W. Bush. É um governo que deu errado em todas as iniciativas importantes, não deixa herdeiros conhecidos nem saudades. Ganhou uma eleição apoiado numa fraude nas urnas da Flórida e produziu uma guerra baseado numa mentira. Recebeu uma economia com superávit e oito anos depois entrega o país em déficit.
(O ultraconservadorismo do governo Bush até hoje intriga observadores, pois sua gestão no Estado do Texas teve uma postura considerada moderada. A mudança foi captada por um seriado de humor da TV americana. No início do mandato presidencial, um Casseta & Planeta local contava a história de um presidente apatetado que fora seqüestrado pelos próprios auxiliares e era mantido como refém longe da Casa Branca enquanto um vice de cabelos brancos -- Dick Cheney--e um auxiliar de feições malignas -- Karl Rove-- davam as ordens).
Na origem do ultraconservadorismo americano encontra-se uma ação de ruptura com o pacto que assegurou o convívio tenso, mas politicamente civilizado, entre democratas e republicanos ao longo do seculo XX. Não são as patifarias graves, mas as de alcance limitado, que podem envolver qualquer candidato, de qualquer partido. São conspirações, ações coordenadas. Seus fundadores cultivavam o ditador espanhol Francisco Franco, patrono do fascismo espanhol, que derrubou um governo eleito, entre seus ídolos.
O movimento nasceu no início dos anos 60 e, como tantos dinossauros da Guerra Fria, esperava-se que não fosse capaz de sobreviver às novas condições do ambiente político após o colapso da União Soviética. Não. Um dos principais formuladores, Irving Kristol, mantinha o oxigênio de suas fileiras com argumentos assim: "Não existe pós-Guerra Fria para mim. Longe de haver terminado, minha Guerra Fria aumentou em intensidade". Para Irving Kristol, após o colapso da União Soviéticia, era necessário perseguir o pensamento de esquerda que havia corrompido a sociedade americana "setor após setor."
No plano interno, essa visão gerou uma pré-guerra civil em Washington, que dividiu o país, radicalizou conflitos, alimentou um ambiente de caça às bruxas contra o governo Clinton e paralisou a vida pública. Com o 11 de setembro, esse anticomunismo no pós-comunismo recebeu o alimento que faltava para engordar e crescer. Bush era um presidente medíocre e pré-derrotado ao tentar a reeleição, em 2004. Foi salvo pela incompetência democrata – e pela guerra, claro.
No plano externo, essa visão levou ao desastre do Iraque, país miserável, governado por uma tirania brutal. Os ultraconservadores não suportam um planeta sem tensão e sem confronto. McCain diz que os Estados Unidos podem manter tropas do Iraque por 100 anos. Os ultraconservadores acham pouco.

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