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Paulo Moreira Leite, de Nova York
WASHINGTON -- No início do ano, a sucessão de George W. Bush parecia um sonho para o Partido Democrata. A popularidade de Bush estava no fundo do poço, a irritação com a guerra do Iraque não parava de crescer e a economia já ameaçava entrar em recessão – o que é ruim para o povo mas costuma ser boa notícia para a oposição. As perspectivas eram tão negativas que uma parte significativa de senadores e deputados republicanos desistiu de disputar a reeleição.
Um mês e meio depois, a disputa entre Hillary Clinton e Barack Obama ameaça cristalizar uma divisão no partido e gerar uma confusão entre eleitores que só pode beneficiar os republicanos. Se há dois meses a Casa Branca parecia já reservada para os democratas, só faltando escolher se seria ocupada pelo postulante X ou Y, agora já se admite que o partido de John McCain pode se tornar um competidor real. "Este é o grande risco do momento," afirma Jerome Levinson, professor de Direito da American University, em Washington, intelectual com ligações históricas com o movimento sindical.
A verdade é que ninguém esperava que a disputa entre Hillary e Obama fosse manter-se tão equilibrada na fase atual. Acreditava-se que Obama fosse cair nas primeiras rodadas, deixando o caminho aberto para a consagração da adversária, considerada "inevitável" por assessores e mesmo adversários. Mas Obama ganha um fôlego cada dia maior, já conquistou um número maior de delegados eleitos e, conforme a maioria dos prognósticos, deve pelo menos manter essa vantagem pequena mas real até a convenção, no dia 4 de agosto.
O problema reside neste quadro de equilíbrio. Se até a convenção um dos concorrentes disparar na frente, cravando uma vantagem matemática que ninguém seria capaz de contestar, o impasse estará resolvido. Mas até agora a maioria dos observadores trabalha com outro prognóstico, de um quadro de equilíbrio matemático entre os dois concorrentes, até porque os Estados onde Hillary espera receber mais votos, como Texas, Ohio e Pennsilvania, só votam entre março e abril. O risco, num ambiente de equilíbrio, seria o uso de medidas burocráticas para resolver questões políticas. Em tese, os super-delegados, integrantes da máquina do partido, poderiam dar conta da situação. "Mas seria desmoralizante, caso os super-delegados votassem contra a decisão da maioria dos delegados eleitos," observa Levinson.
Outro ponto envolve dois estados que foram excluídos da convenção, Michigan e a Flórida. São locais com peso relevante na escolha do presidente e importantes na eleição de verdade. Ocorre que seus diretórios regionais decidiram mudar a data das primárias e, numa decisão solitária, a direção nacional dos democratas decidiu puní-los declarando que não iria reconher o processo.Coisas da pequena política. A Flórida, estratégica em qualquer eleição, não só fez uma primária à revelia, como ela vencida por Hillary Clinton. (Obama não colocou seu nome na cédula). Os delegados da Flórida não desistiram de ter seu voto na escolha do candidato a presidente. Imagine-se a guerra civil que pode acontecer na convenção caso a diferença entre Hillary e Obama possa ser resolvida pelos delegados da Flórida.
Eleitor de Hillary Clinton, Levinson reconhe que a candidatura de Obama está em crescimento acelerado mas adverte. "É preciso aguardar o voto em estados onde a presença de trabalhadores sindicalizados é forte. Eles estão comprometidos com Hillary e podem dar um impulso para a campanha dela." O professor admite, porém, que a presença de duas candidaturas fortes num mesmo partido pode desmobilizar o lado derrotado – beneficiando John McCain. Isso porque a disputa entre os concorrentes internos pode abrir feridas sem cicatrização, mais tarde. "O Obama tornou-se um fato político importante, independente de ser ou não nomeado presidente. Meu receio, e não é só meu, acredite, é que, caso não seja indicado pelo partido, seus eleitores percam a motivação para ir às urnas e apoiar os democratas. Muitos eleitores poderão dizer que ele não saiu candidato porque é negro e foi vítima de uma perseguição. Nesse caso, os republicanos seriam beneficiados."
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