publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Obama faz o discurso da conciliação

11/02 - 22:46 - Paulo Moreira Leite, de Nova York

ALEXANDRIA - Os encontros entre candidatos e eleitores, uma cena típica das primárias americanas, tem um aspecto que é puro programa de auditório mas também permite alguns minutos de discussão verdadeira. Barack Obama fez um discurso de 60 minutos na quadra de basquete do TC Williams, no domingo, 10, para 3 000 pessoas presentes. Depois, abriu a palavra ao plenário, por 20 minutos. As pessoas levantavam a mão e pediam para falar. O próprio Obama escolhia quem teria acesso ao microfone. É claro que ninguém estava lá para brigar com o candidato – mas algumas pessoas da platéia colocaram questões fora do programa.

 

 

A pergunta de uma estudante latino-americana levou Barack Obama a revelar que enxerga "tendências despóticas" no presidente da Venezuela Hugo Chávez e também a admitir que os Estados Unidos tem tratado os países da região como "parceiros menores " mas que agora é preciso tratá-los como "parceiros integrais." Um marinheiro gay perguntou sobre a questão homossexual nas Forças Armadas, levando Obama a promter que iria discutir o assunto com as partes interessadas, para se eliminar todo vestígio de discriminação. Aproveitando a pergunta de uma senhora da platéia, que começou a questão fazendo – mais uma – declaração de amor, Obama deixou claro que, embora tenha um típico discurso da esquerda do partido democrata, está abrindo caminho como um  candidato da conciliação entre democratas e republicanos. 

O argumento é simples e bastante conhecido em diversas latitudes, pois envolve o pesadelo de construir uma maioria no Congresso. Em Washington, ninguém tem maioria sólida entre os parlamentares – a dança de cadeiras é frequente e, mais grave ainda, costuma mudar a cada dois anos, que é o tempo de duração do mandato dos deputados. Em função disso, os presidentes mandam menos do que gostariam e costumam ser eleitos para programas que precisam ser negociados palmo a palmo para sair do papel e entrar na vida real. Essa dificuldade de ação do Executivo transformou um dos três poderes – o Judiciário, representado por uma Suprema Corte de altíssima legitimidade – numa força hipertrofiada. 

Nessa situação, Obama fala em construir uma "maioria que funcione" no Congresso. No domingo, ele apresentou-se como o candidato que pode "atravessar a linha" que separa os dois partidos. Colocou-se como um político de espírito aberto e agregador. Ele fez carreira como liderança estudantil em Harvard – e depois como ativista em bairros pobres de Chicago – sempre agindo do mesmo modo, como um sujeito capaz de unir os contrários, somar adversários políticos em vez de dividir. Quando disputou – e perdeu – uma vaga para concorrer a deputado contra um antigo militante dos Panteras Negras, o rival chegou a acusá-lo de não ser "suficientemente negro" para entrar na disputa. Não se pense que eram as origens étnicas de Obama que eram questionadas, apenas. Havia uma crítica política, também.

Obama nunca deixou de olhar de lado quando também olhava para frente e é dessa forma que procura sair-se melhor na comparação com Hillary Clinton. No domingo, ele a definiu como "grande senadora" e "grande pessoa" e aproveitou para lembrar que o programa de governo dos dois é igual em mais de 90% das propostas. (Obama evitou falar daquilo em que são desiguais, porque este é um terreno que não o favorece. A proposta de Hillary para mudanças do sistema de saúde é mais ampla e eleitoralmente mais ambiciosa. Falar sobre isso, naquele encontro de eleitores animados, não seria uma idéia especialmente proveitosa). Mas ele também disse que duvida que Hillary possa "romper com 15 anos de política." 

A retórica de Obama atende a sua necessidade de mostrar que é o mais apto para construir um governo bem sucedido. Não lhe interesse o que fazer, mas o como. Em várias comparações, Hillary leva grande vantagem. Tem mais experiência de governo, enfrentou maiores adversidades – e passou uma temporada mais longa no Congresso. O programa de governo de Hillary é mais completo e seus assessores conseguem responder com mais rapidez à maioria das perguntas técnicas dos repórteres – o que também quer dizer alguma coisa. A vantagem real de Obama é sua personalidade política, a capacidade de argumentar, de ganhar dando a impressão que perdeu e vice-versa. Hillary salvou o governo do marido Bill Clinton mantendo-se leal num momento difícil para qualquer esposa. Mas criou um cotidiano de conflitos e confrontos desgastantes. Obama nunca parou de conquistar aliados. Não fez uma obra tão grande assim para chegar até aqui. Tornou-se candidato presidencial pelo que é – ou pelo que representa, como querem os sociólogos.  

Não por acaso, tem feito uma campanha cujo centro consiste em colocar-se no centro do palco, como já observou Joe Klein, da revista Time. Como argumento, Obama define que o melhor candidato para disputar a presidência é aquele que representa o "mais claro contraste" com o republicano John McCain. Por acaso, ele próprio – que neste caso tem a vantagem indiscutível de ter sido o único que sempre votou contra a guerra. No domingo, antes do encontro com os eleitores, Obama participou de uma mesa redonda sobre educação com cinco pais de alunos, nas dependências do mesmo TC Williams.

O próprio Obama fez questão de apresentar cada um dos pais aos jornalistas que assistiam ao evento. Quando chegou sua vez, ele se apresentou de uma forma engraçada. Disse: "Este sou eu. Quer dizer, eu sou vocês," completou, olhando para as câmaras de TV. Quando um dos pais relatou as dificuldades de convencer as crianças a fazer a lição de casa em vez de assistir TV, Obama comentou: "Isso lembra muito a minha casa." Num determinado momento do encontro com 3 000 eleitores, Obama fez um pequeno apanhado de suas propostas sobre educação, juntou com suas idéias sobre mudança e concluiu assim: "Minha mãe me deu duas coisas: educação e esperança."   

(Leia mais sobre a campanha presidencial americana nas próximas notas do blog)

 

Leia mais sobre: eleições nos EUA





US Multimídia


Publicidade


Matérias Relacionadas


Enquete