09/02 -
13:24
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Paulo Moreira Leite, de Nova York
Basta caminhar pelas ruas e lojas do Bronx, bairro popular de Nova York e um dos termômetros sociais do país, para entender por que a crise mudou a eleição presidencial nos Estados Unidos. Na Jeans Store, imensa loja de roupas na rua 167E, camisas expostas na calçada são oferecidas a 1 dólar e 99 centavos. Mas a falta de interesse é tão grande que o tecido branco já ficou amarelado e a roupa azul embranqueceu. Dentro da loja, o número de vencedoras é superior ao de consumidoras – num aritmética que, em breve, deverá produzir aqueles ajustes desagradáveis que sempre ocorrem nessas horas.
O governo americano anunciou que em janeiro o número de empregos suprimidos em todo o país foi o mais alto dos últimos quatro anos. A quantidade de pessoas que pedem seguro desemprego – quase 350 000 por semana – também é recorde. Antes disso, os candidatos tinham de dar respostas para a guerra do Iraque. Agora, devem tratar da guerra pela sobrevivência, sempre mais difícil em lugares como o Bronx.
Num armazém de produtos importados da África, o movimento caiu tanto que alguns empregados se preparam para ir embora. A senhora simpática que fica no caixa diz que vai voltar para casa. Aonde?, pergunto. "Em Gana," explica, movendo o braço em direção ao Oceano Atlântico.
Um dos locais de convívio e conversa do bairro são as financeiras onde os trabalhadores que tem família no exterior mandam dinheiro para casa. Imigrantes de primeira e segunda geração, ele conversam, trocam informações, ouvem fofocas e contam piadas. O salão de uma dessas casas estava vazio quando estive lá, numa tarde da semana passada. Três funcionárias dão um sorriso amarelo quando ouvem falar da crise. Elas dizem que o número de trabalhadores que envia dinheiro não caiu, mantendo-se na faixa de uma dezena por dia. "O que mudou foi o dinheiro enviado," explica uma delas. "Antes, cada pessoa enviava 300 dólares por semana, mais ou menos. Agora, mandam 200 dolares."
A verdade é que ficou muito mais difícil manter-se no emprego. Os imigrantes ilegais estão sendo despedidos, porque agora é possível contratar quem tem os papéis em ordem "e não provoca problemas com a imigração, que pode até fechar seu negócio", diz uma das moças. Nos últimos dias a oferta de gente em busca de trabalho cresceu tanto que "as empresas só querem dar lugar para quem tem diploma de faculdade."
No fim da tarde, o garçom Leoncio Morris, 32 anos, que nasceu na República Dominicana e há dez anos conseguiu título de cidadão americano, entra na financeira para cumprir o ritual obrigatório de mandar dinheiro para a família. Conversa no guichê, cumprimenta todo mundo, faz gracejos, pisca para uma das moças. Vira-se para mim e comenta que a mulher americana "não quer mais nada com os homens. Se você perde o emprego, corre o risco de ser mandado embora de casa." As moças ouvem – e caem na risada.
O dólar barato, que ajuda as exportações americanas, transformou-se numa tragédia para essas pessoas. "O dólar está valendo 33 pesos dominicanos. Com isso não dá para comprar uma banana em São Domingos," diz o garçom. Enquanto prepara o envio na tela do computador, uma funcionária corrige: "Dá para comprar duas." Morris ergue os dois braços: "E faz diferença? Duas bananas!"
Morris chegou a estudar no Bronx Community College. Pagava uma taxa semestral de 300 dólares para ter duas horas de aula por semana. Depois a taxa subiu para 500 dólares e ele parou de estudar. "Acabei de saber no jornal que o metrô vai subir. Agora é que não ia dar para seguir estudando." Uma das moças do guichê estudava Economia e diz que abandonou o curso em função de um problema de doença na família.
Pergunto pela eleição. Uma das moças diz sorrindo que, se pudesse, votaria em Fidel Castro. O garçom Morris avisa: "Aqui votamos nos democratas. Somos pobres e o partido democrata é o partido dos pobres." Pergunto quem levou seu voto na Superterça. "La Mujer," responde. Pergunto o que ele pensa de Barak Obama. Numa demonstração de que não pretende expor o nível de seu engajamento político, ele simula um olhar distante, como se estranhasse a pergunta. "Não sei direito o que ele pensa. Todos aqui preferem La Mujer."
Por que? Ele fala da economia e dos benefícios que recebia durante o governo de Bill Clinton, uma espécie de super-Bolsa Família com crescimento altísismo. "Naquele tempo as pessoas tinham emprego, os benefícios eram melhores, havia comida barata para todo mundo."
A memória daquele tempo é o grande trunfo de Hillary Clinton, no Bronx e fora dali. Entre 1992 e 2000, quando Bill Clinton governou os Estados Unidos, a economia americana viveu o mais prolongado período de crescimento já registrado pelas instituições que se ocupam disso. O desemprego chegou a cair para 1% --sem truques estatísticos.
Até agora nenhum candidato foi capaz de apresentar um projeto convincente para tirar o país do ambiente pesado dos homens e mulheres do Bronx. Embora as campanhas eleitorais tenham sido inventadas para a disputa de votos, e não para estimular o confronto de idéais econômicas, é de se esperar que nos próximos meses apareçam idéias para isso.
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