08/02 - 20:14 - Repórter especial do Último Segundo, em Nova York
Com razão os adversários se queixam de que até agora a imprensa americana ainda não voltou-se para Barak Obama com o mesmo apetite investigativo que dirige aos outros concorrentes à Casa Branca. O tratamento irá mudar nas próximas semanas, quando a força de sua candidatura se confirmar nas primárias – como se recordam os admiradores de Geraldine Ferraro, maravilhosa democrata destroçada no passado por problemas no Imposto de Renda do marido, e também Gary Hart, retirado de cena depois de ter sido fotografado em alto mar com uma namorada fora do casamento.
A melhor reportagem que já li sobre Obama encontra-se na edição de março da revista Vanity Fair, que também circula no Brasil. Depois de ouvir parentes, colegas e amigos, chegando a viajar até o Hawaí para cumprir seu trabalho, Todd S. Purdum escreve um perfil que explora alguns ângulos novos e faz revelações de interesse.
Purdum explora um aspecto importante na biografia de Obama. Recorda que a cor da pele, no caso, contém informações inesperadas sobre sua condição social. A maioria dos negros americanos descende de escravos trazidos ao país, deserdados e desenraizados. Muitos tiveram pais que se educaram com dificuldade e nem sempre puderam frequentar boas escolas.
A história social de Obama não tem relação com esse passado. Seus antepassados negros passaram longe do cativeiro. Namorador, com filhos de vários casamentos, o pai era africano e integrava a elite do Quenia. Nessa condição morou Estados Unidos, namorou e conheceu a mãe de Obama - que era branca - e depois voltou para o país de origem. Educado pelos avós maternos, que não eram milionários mas tinham um patrimonio confortável, o próprio Obama só passou pelo gueto dos negros pobres quando já era um jovem crescido, preocupado em mudar as coisas erradas do mundo, e decidiu organizar moradores de bairros humildes – jamais como morador. Frequentou escolas de elite e, numa delas, era um dos únicos três alunos negros entre 1200 crianças brancas. Quem gosta de atribuir posturas políticas às suas heranças biograficas, pode dizer que o tom moderado e o espírito de conciliação de Obama faz parte de suas origens, um tanto peculiares. Ele tornou-se uma liderança respeitada em Harvard pela capacidade de conciliar estudantes de esquerda e direita e é dessa forma que tem procurado seu caminho na campanha presidencial, celebrando cada aliado republicano que recebe.
A reportagem também mostra um cidadão ambicioso, que desde o início procura brechas para tocar sua carreira – e abrir espaço para seus projetos. Numa de suas primeiras investidas em busca de um posto público, ele enfrentou uma eleição contra um antigo militante dos Panteras Negras, organização negra radical dos anos 60 – e perdeu. Muitas pessoas tem a impressão de que Barak Obama é um político bonzinho, que decidiu disputar a presidência por insistência da platéia. Todd Purdum deixa claro que se sujeito que vai atrás do que quer e não espera acontecer.
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