15/05 - 15:47 - Leandro Meireles e Luísa Pecora
AMÃ - A primeira visita do papa Bento 16 ao Oriente Médio foi cercada de assuntos polêmicos e delicados. Holocausto, criação do Estado palestino e a relação entre o islamismo e o catolicismo foram os temas mais sensíveis tratados pelo pontífice durante sua peregrinação à Terra Santa.
Em apenas sete dias na região, o papa Bento 16 se encontrou com líderes religiosos muçulmanos, judeus e cristãos e, em diversos discursos, pediu maior aproximação entre as diferentes crenças.
"Em um mundo tristemente lacerado por divisões, este local sagrado estimula e desafia os homens e mulheres de boa vontade a se comprometer para superar as incompreensões e conflitos do passado e iniciar o caminho de um diálogo sincero para construir um mundo de justiça e de paz para as próximas gerações", disse o papa durante visita à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, lugar sagrado para as três principais religiões monoteístas - o catolicismo, o islamismo e o judaísmo.

Papa cumprimenta líder muçulmano na mesquita / AFP
Em uma tentativa de se aproximar da religião islâmica após um discurso no qual associava Maomé e o Islã à violência, em 2006, e que causou grande controvérsia no mundo muçulmano, Bento 16 visitou também a mesquita King Hussein Bin Talal, em Amã, na Jordânia. Lá, ele se encontrou com líderes islâmicos e afirmou que a violência "vem da manipulação da religião, e não do conflito de crenças".
Para Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), a visita do papa ao Oriente Médio teve um "objetivo mais profundo" do que reatar as relações entre a Igreja e o Islã. "O objetivo foi dar a contribuição da Igreja para a resolução do conflito entre judeus e muçulmanos na região", disse.
"Vemos que Bento 16 passa tanto por locais fundamentais para os judeus quanto por cidades que são importantes para os católicos e também para os muçulmanos, como Belém. O que ele fez é, por meio da vocação religiosa do Vaticano, tentar gerar uma aproximação entre árabes e judeus", explicou Casarões.
Criação do Estado Palestino
No âmbito político, Bento 16 se encontrou com chefes de Estado e não deixou de expressar sua vontade da criação de um Estado Palestino, além de criticar a construção de muros na Cisjordânia. "Ao visitar cidades cortadas pelo muro e falar que apoia a criação do Estado palestino, ele mobiliza a opinião pública de forma diferenciada, lembrando que grande parte da Europa é muito católica, ainda", afirmou Guilherme Casarões.

Bento 16 acena para fiéis antes da missa / AP
“Evidentemente, o papa buscou um resultado político, claro que não imediato. Ele tenta uma solução de médio prazo, com a Igreja católica se afirmando”, disse Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da Escola Superior Diplomática.
Segundo Espinosa, a Igreja Católica “acabou contribuindo” para que os judeus não se estabelecessem na própria Europa após a Segunda Guerra Mundial, e isso criou um dos maiores problemas do final do século 20 e 21, que é a questão judaica no meio da palestina.
“Apesar da visita do papa à região ser importante, acho que esse problema não terá uma solução de curto prazo. O Estado de Israel é uma artificialidade implantada no coração do Oriente Médio. As feridas são muito profundas e acho que, infelizmente, esse problema ainda deve durar décadas”, explicou Espinosa.
O professor Espinosa, no entanto, adverte que as posições tomadas pelo papa durante sua visita ao Oriente Médio não são novidade e apenas ecoam aquilo que já é consagrado pela ONU.
Segundo Espinosa, as palavras do papa têm significado, mas nenhuma dessas questões foi formulada pela Igreja Católica. A solução dos dois Estados foi consagrada pela ONU e vem desde o governo de Bill Clinton. Da mesma forma, a crítica ao muro vem sendo feita pela ONU, por todos os países árabes, e por outros, como o Brasil, por exemplo. "Na verdade, o papa não levantou nada de novo, mas se posicionou ao lado das únicas soluções possíveis para o Oriente Médio", disse Espinosa.
Impacto da visita
Apesar da conotação política de sua visita ao Oriente Médio, especialmente em Israel, Bento 16 veio à região como peregrino, e não chefe de Estado, e é improvável que as declarações de Bento 16 tenham impacto imediato na política conturbada do local. "Na prática, o impacto da visita é pequeno, é mais simbólico do que real", afirma o professor Casarões. "Mas é interessante ver como o papa tem buscado fazer esse papel de mediador de conflitos", afirmou Casarões.
O diálogo entre as diversas religiões e as lideranças políticas é o legado que a visita de Bento 16 deixa ao Oriente Médio. Mas, mesmo assim, o papa volta para o Vaticano com algumas críticas e ressalvas sobre algumas de suas declarações na Terra Santa.
O discurso do papa sobre o Holocausto, por exemplo, gerou descontentamento em Israel. O diário "Ha'aretz", o mais progressista e o segundo mais influente do país, disse que Bento 16 "não lembrou a responsabilidade dos nazistas no Holocausto", o que considera importante, levando em conta a origem alemã do papa e seu passado na juventude hitlerista e na Wermacht, as forças armadas do Terceiro Reich.
"Quando o papa critica o muro e assume uma posição em favor dos dois Estados, da convivência pacifica ente os lados, está desagradando os israelenses. Quando trata de valores ocidentais em relação ao papel da mulher na sociedade, por exemplo, ele certamente desagrada os muçulmanos. De qualquer maneira, tanto um lado quando o outro reconhece a importância da visita do papa, das posições que ele manifestou publicamente no Oriente Médio. As posições mais civilizadas acabaram sendo fortalecidas por ele, mas é impossível agradar a todos os lados", conclui o professor Espinosa.
(*com colaboração de Luísa Pecora)
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