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"É difícil ver uma criança de 12 ou 13 anos levando um tiro", conta jordaniana

14/05 - 16:12 - Leandro Meireles Pinto, da Jordânia

AMÃ - "Sempre quis ser uma advogada rica e com clientes internacionais. Mas depois que fui estudar na Cisjordânia e vi o sofrimento do povo na região, especialmente das crianças, percebi que isso não significava nada".

Leandro M. Pinto
A advogada Lubna Hammad

A advogada Lubna Hammad

Lubna Hammad, advogada, tornou-se especialista em direitos humanos e trabalhou na proteção legal de crianças na Faixa de Gaza como funcionária da Unicef. Em entrevista ao Último Segundo, Lubna afirmou que só quem vê a realidade dos territórios ocupados de perto é que percebe a gravidade do problema palestino.

Nascida na Jordânia, mas com pais palestinos, Lubna afirma que desde pequena gostaria de ser advogada especializada em empresas multinacionais. Seu pai é juiz em um tribunal da Autoridade Nacional Palestina em Jericó, na Cisjordânia. "Eu queria estudar Direito em Nova York, trabalhar em uma grande empresa e ficar muito bem de vida. Mas meu pai me convenceu a tentar uma universidade na Cisjordânia", diz Lubna. "Foi a partir daí que minha vida mudou", completa.

Apesar de ter pais palestinos, Lubna nasceu na Jordânia e nunca havia morado nos territórios palestinos até se mudar para Ramallah e começar a faculdade de Direito na Universidade Bizreit, perto de Ramallah e Jerusalém. "Foi ali que comecei a conviver com a realidade palestina que eu só ouvia falar até então", disse.

E foi vendo a realidade da Cisjordânia que Lubna começou a perceber que seus trabalhos como advogada poderiam ser mais úteis na ajuda aos necessitados da região. "Quando ia aos pontos de maior confronto, via soldados israelenses atacando crianças de até 10 ou 12 anos. Mesmo que elas estivessem jogando pedras, ato comum aqui na região, os policiais não deveriam atirar. O uso de força é desproporcional", afirma.

"Vi crianças de 10 a 18 anos sendo presas e ficando em cárceres péssimos, com difícil direito à defesa", completa Lubna, que desde então passou a trabalhar com entidades de defesa de crianças palestinas.

Quando começou a trabalhar para a Unicef, órgão de defesa dos direitos da criança, Lubna passou a ter livre acesso à Faixa de Gaza. E é lá que, segundo ela, o Estado de Israel pratica os piores abusos contra os palestinos. "Gaza é uma faixa de terra bloqueada por todos os lados. Não entra comida, não entra água, falta luz e a qualidade de vida da população é péssima", disse. "Além disso, as pessoas vivem com medo de um possível ataque e muitos vivem em situação permanente de tensão", completou.

Ao contar histórias sobre Gaza, Lubna se emociona. "É difícil ver uma criança de 12 ou 13 anos levando um tiro. É difícil ver gente de 30 ou 40 anos que nunca conseguiu sair da Faixa de Gaza. A vida dela é confinada naquele espaço de 360 metros quadrados. É uma situação opressora e que só gera radicalismo e violência", afirmou.

AP
Criança segura bandeira palestina

Criança segura bandeira palestina

Hoje Lubna se prepara para iniciar a pós-graduação em Direito voltado aos direitos humanos na Universidade de Columbia, em Nova York. Ela deixou para trás seu trabalho de campo nos territórios palestinos quando percebeu que isso havia começado a pesar em sua vida pessoal. "Quando você percebe que trabalha 12, 15, 18 horas por dia e vê que nada mudou, começa a desanimar. E o trabalho com as crianças era muito chocante, eu sempre ficava muito abalada", afirma, visivelmente emocionada.

Mesmo assim, a advogada não deixou a causa palestina para trás ao se mudar para Nova York. Na cidade, ela já organizou protestos e ajudou a fundar o grupo "Coalizão para Justiça no Oriente Médio", que mais tarde se tornou o grupo Adalah NY, palavra que significa "Justiça".

Longe do Oriente Médio, mas ainda lutando pela causa palestina em Nova York, Lubna diz esperar que a solução para o problema não seja a criação de um Estado Palestino onde hoje é a Cisjordânia. Para ela, o ideal seria a criação de um Estado único, onde viveriam palestinos e israelenses em coexistência, com a possibilidade de retorno dos palestinos refugiados.

"Mas este Estado único não poderia ser chamado 'Israel' porque traz uma história muito forte. Deveria ser 'Palestina', como sempre foi", afirma a advogada. Segundo Lubna, é impossível pensar em uma solução com dois Estados separados se o povo palestino não puder voltar para a região em que morava antes da criação do Estado de Israel. "E, além disso, como podemos pensar em um Estado com dois territórios separados fisicamente, como acontece com a Cisjordânia e Gaza?", questiona a advogada.





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