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Viver em território palestino "é como estar em uma jaula", diz brasileira

13/05 - 10:18 - Leandro Meireles Pinto, da Jordânia

AMÃ - "Viver ali é como estar em uma jaula". É assim que a brasileira Fátima, hoje morando em Amã, capital da Jordânia, descreve a vida na Cisjordânia, território palestino ocupado por tropas israelenses, onde viveu por sete meses.

 

Filha de palestinos que imigraram para o Brasil pouco antes da criação do Estado de Israel, em 1948, Fátima casou-se com um jordaniano também descendente de palestinos e, por motivos profissionais do marido, viveu na Cisjordânia por sete meses.

"Foi um período difícil. É muita pressão, muitos pontos de checagem de revista do Exército israelense (checkpoints). A vida nos territórios ocupados não é fácil", disse a brasileira. "Eu sou dentista e não fumava. Sabia dos riscos de fumar. Mas a tensão na região é tão grande, a pressão israelense sobre a população é tão forte, que eu passei a fumar. Isso é só um exemplo de como morar no território ocupado mexe com a gente", disse Fátima, que recebeu a reportagem do Último Segundo para um jantar em sua casa em Amã, capital da Jordânia, com outros nove casais, a maioria composta de palestinos ou descendentes de palestinos.


Soldados israelenses fazem revista em checkpoints na Cisjordânia / Getty Images

A advogada especializada em direitos humanos Lubna Hammad, cunhada de Fátima e de origem palestina, também conversou com a reportagem do Último Segundo sobre a situação dos palestinos que ainda moram em Gaza e na Cisjordânia. Ela conta a história de seu pai, que ainda mora na Cisjordânia. "Ele não sai de lá por nada", diz.

Lubna explica que seu pai é juiz da Autoridade Nacional Palestina (ANP), mora em Jerusalém e trabalha em um tribunal de Jericó, a cerca de 45 quilômetros de Jerusalém. Por causa dos diversos pontos de checagem policial, o pai de Lubna leva quase 3 horas por dia em uma viagem que duraria cerca de uma hora. "Ele tem 64 anos e tem que acordar às 5h da madrugada para poder chegar ao trabalho no horário. Na volta é a mesma coisa e ele chega em casa quase 22h. Isso não é vida, ainda mais para alguém dessa idade", disse Lubna.

Além disso, a advogada reclama das constantes humilhações e atrasos sem sentido nos "checkpoints", postos policiais em que todo palestino deve ser revistado pelo Exército israelense.

Lubna explica ainda que existe uma grande diferença entre a situação dos palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. "Na Cisjordânia, a situação é ruim, mas em Gaza chega a ser humanamente degradante. Ninguém deveria viver naquelas condições", disse.

A Faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra ao sul de Israel. De um lado, o Mediterrâneo. Do outro lado, Israel. Ao sul, a fronteira com o Egito. "Nessa pequena área de 360 quilômetros quadrados, cerca de 1,5 milhão de pessoas ficam amontoadas. Falta água, falta comida e é muito difícil entrar e sair da área controlada pelo Exército israelense", diz a advogada.

Lubna explica que só conseguiu acesso à Gaza por causa do trabalho humanitário que fazia pela Unicef, órgão de defesa dos direitos das crianças. "Além disso, há os ataques constantes de Israel sobre o povo de Gaza. O que eles chamam de 'eliminação seletiva' de líderes terroristas, eu chamo de execução extrajudicial", disse a advogada.


Faixa de Gaza fica na região sul de Israel / Getty Images

Na Cisjordânia, a situação é melhor e também há menos violência. Mesmo assim, Reema Junadi, filha de palestinos e nascida em Dubai, nos Emirados Árabes, diz que a vida na Cisjordânia é muito "pobre e difícil".

Ela se mudou para a Jordânia há 13 anos, onde se casou com Muhannad Abu Shacra. Reemia nunca morou nos territórios palestinos e leva uma vida estável na Jordânia. "Já fui à Cisjordânia apenas para visitar parentes. Na primeira vez, fiquei apenas na Cisjordânia, em época de paz, e achei a região tranquila", afirma Reema. "Mas, na segunda vez que fui, cruzei a fronteira com Israel e me bateu uma tristeza enorme. Pude perceber as diferenças entre Israel e a Cisjordânia. Em Israel, é tudo rico e organizado; na Cisjordânia, a vida é muito pobre e difícil", disse Reema. "Até o asfalto fica diferente quando você cruza a fronteira", completou.

Imigração em massa

A Jordânia é o país com o maior número de palestinos no mundo. Dos cerca de 6 milhões de habitantes, metade é de origem palestina. O primeiro grande fluxo de imigrantes palestinos para a Jordânia ocorre em 1948, quando é criado o Estado de Israel e muitos são expulsos de suas casas e seguem para Gaza ou para a Cisjordânia, até então território da Transjordânia (o que hoje é a Jordânia).

Durante a guerra árabe-israelense de 1967, Israel ocupou a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, as Colinas de Golan e a Península do Sinai. Assim, uma nova onda de palestinos deixa a região novamente e foge para países como Jordânia, Síria e Egito.

Apesar de boa parte dos palestinos na Jordânia terem se integrado à sociedade e chegado à elite do país, muitos ainda sofrem e vivem em péssimas condições. "É só você ver os campos de refugiados que ainda existem aqui na Jordânia. Têm pessoas com vidas miseráveis por lá", afirma Fátima. "Alguns ainda estão lá esperando para voltar à Palestina. Para voltar para suas casas", explica Lubna Hammad, advogada especializada em direitos humanos para palestinos e irmã de Ashraf Hammad, marido de Fátima.

A solução para os palestinos

"Este país não pode continuar sendo apenas um refúgio para as pessoas. Essas pessoas tem suas próprias casas e o direito de existir em suas próprias casas, em um Estado legítimo", afirma o senador jordaniano Akel Biltaji, nascido em Gaza e refugiado na Jordânia após a criação do Estado de Israel, em 1948. De acordo com o senador, a tendência para os próximos anos é a criação de um Estado Palestino legitimado pela ONU e pela comunidade internacional, em coexistência com o Estado de Israel.

A opinião do senador, apesar de encontrar mais abertura na comunidade internacional, não é consenso entre os palestinos que moram em Amã.

A advogada Lubna Hammad, por exemplo, afirma que o ideal seria a criação de um Estado único, onde viveriam palestinos e israelenses em coexistência, com a possibilidade de retorno dos palestinos refugiados. "Mas este Estado único não poderia ser chamado 'Israel' porque traz uma história muito forte. Deveria ser 'Palestina', como sempre foi", afirma a advogada.

Segundo Lubna, é impossível pensar em uma solução com dois Estados separados se o povo palestino não puder voltar para a região em que morava antes da criação do Estado de Israel. "E, além disso, como podemos pensar em um Estado com dois territórios separados fisicamente, como acontece com a Cisjordânia e Gaza?", questiona a advogada.

Ainda há outros que são de certa forma indiferentes à criação ou não de um Estado Palestino. "Eu moro na Jordânia há mais de 40 anos. Tenho boa casa, bom trabalho, meus filhos estão bem educados. Minha vida é aqui. Não tenho motivos para deixar tudo para trás novamente", afirmou um empresário que fugiu de casa e pediu para não ser identificado pela reportagem do Último Segundo.

* O jornalista Leandro Meireles Pinto viaja a convite do Jordan Tourism Board





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