09/05 - 08:41, atualizada às 12:57 09/05 - Leandro Meireles Pinto, da Jordânia
AMÃ - O papa Bento 16 alertou, neste sábado, para o uso incorreto da religião para fins políticos. Ele fez o discurso em encontro com líderes religiosos muçulmanos na Mesquita King Hussein Bin Talal de Amã.
A visita à mesquita é uma tentativa de se aproximar da religião islâmica após um discurso no qual associava Maomé e o Islã à violência em 2006. Durante seu discurso deste sábado, Bento 16 não mencinou suas polêmicas declaraçoes de 2006, mas disse que a violência "vem da manipulação da religião, e não do conflito de crenças".

Papa cumprimenta líder muçulmano na mesquita / AFP
Bento 16 também pediu à comunidade internacional novos "esforços" para promover a paz e a reconciliação no Iraque, e disse aos líderes iraquianos presentes na cerimônia que "façam tudo o possível" para garantir aos cristãos desse país "o direito à pacífica coexistência".
Esta é a segunda passagem de Bento 16 por uma mesquita desde que se tornou papa, em 2005. Em 2006, Bento 16 rezou na famosa Mesquita Azul, em Istambul, na Turquia.
Na última sexta-feira, árabes israelenses protestaram em Nazaré contra a presença do papa na Terra Santa. Com cartazes e faixas, o grupo condenou "aqueles que insultam o profeta do Islã Maomé", um recado claro ao discurso papa.
Autoridades jordanianas, no entanto, negam qualquer tipo de atrito religioso com o papa e afirmam que a visita do pontífice à mesquita neste sábado é um marco de diálogo e integração com o Islã.
"Bento 16 busca novas portas, novos diálogos. Nós queremos abrir portas para outros países muçulmanos com a visita do papa à mesquita", afirmou o padre Rifat Bader, porta-voz da Igreja Católica na Jordânia.
A Mesquita King Hussein Bin Talal de Amã, inaugurada em 2005, é a mais nova e mais moderna mesquita da Jordânia. Com área de 7,7 mil metros quadrados, ela pode receber seis mil fiéis ao mesmo tempo.
Visita ao Monte Nebo
Bento 16 visitou neste sábado, em seu segundo dia de estadia na Jordânia, o Monte Nebo, a 35 quilômetros de Amã, onde segundo o livro do Deuteronômio, Deus permitiu a Moisés ver a terra prometida, embora não tenha podido entrar, já que morreu antes e em seu lugar o fez Josué.

Papa Bento 16 reza no topo do Monte Nebo / AP
"É justo que comece aqui, nesta montanha, minha peregrinação aos Santos Lugares, já que o magnífico cenário que se vê deste lugar nos reflete o grande plano de salvação que Deus tinha preparado para seu povo", disse o papa.
O discurso foi seguido por numerosos fiéis e os franciscanos encarregados de custodiar os lugares relacionados com a história da Salvação. Várias centenas de crianças cristãs aclamaram o papa durante sua visita, cantando e tocando instrumentos típicos jordanianos.
Universidade de Madaba
Após deixar o Monte Nebo, Bento 16 percorreu as estreitas ruas da cidade de Madaba em seu papamóvel. O líder da Igreja Católica foi saudado pela população e chegou ao local onde será construída a Universidade Católica do Patriarcado Latino de Madaba, província jordaniana onde vivem vários cristãos.

Papa percorre as ruas de Madaba no papamóvel / AP
Ao colocar a pedra fundamental da Universidade, Bento 16 disse que as religiões "podem se corromper" e que ficam "desfiguradasdas" quando são obrigadas a servir à ignorância e ao preconceito, ao desprezo, à violência e ao abuso.
Em discurso no qual ressaltou o papel do conhecimento, o papa disse que a fé em Deus não suprime a busca da verdade, mas, ao contrário, a encoraja, e lembrou a frase do apóstolo Paulo na qual pedia os cristãos a abrir a mente "para tudo que é verdade, é nobre, justo, puro, bom, virtuoso e merece ser louvado".
"Obviamente, a religião, como a ciência e a tecnologia, como a filosofia e toda expressão de nossa investigação da verdade, pode se corromper. A religião fica desfigurada quando é obrigada a servir a ignorância e o preconceito, o desprezo, a violência e o abuso", disse.
Agenda de domingo
Neste domingo, Bento 16 fará uma missa campal no Estádio Internacional de Amã, onde são esperadas cerca de 40 mil pessoas. Após a missa, ele tem almoço privado com líderes da Igreja Católica e no final da tarde visita o local em que acredita-se que Jesus tenha sido batizado, no rio Jordão.
Na segunda-feira pela manhã, Bento 16 se despede da Jordânia e parte para a peregrinação em Jerusalém e nos territórios palestinos.
* O jornalista Leandro Meireles Pinto viaja a convite do Jordan Tourism Board
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