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Mercado aceita fácil explicação de Palocci porque é conveniente

Ministro desfruta a mesma indulgência que Lula já teve enquanto lhe foi possível fazer reformas sem conflitos

Antonio Machado

Não tem essa de que o ministro Antonio Palocci deu a resposta que o Brasil precisa ouvir, atribuída ao presidente Lula, ao negar que enquanto prefeito de Ribeirão Preto (2000-2002) recebia uma mesada de R$ 50 mil da empresa de lixo Leão & Leão para repassar ao PT. O ministro seguiu o roteiro imaginário que reveste a crise política: agiu para impedir a contaminação da economia pelas incertezas. Não é por ora necessário saber se ele teve ou tem parte no processo de financiamento do caixa do PT, desde que o governo siga sangrando, segundo a lógica da crise permanente adotada pela oposição.

Elogia-se Palocci por chamar imediatamente a imprensa, assumindo uma postura de transparência frente às denúncias que Lula e outros chefões do PT, como o ministro José Dirceu, se recusaram a seguir. A omissão e as negaças se tornaram tão comuns neste escândalo de traficâncias que desconstrói o PT, que desmentir acusações, desde que diante da imprensa, já faz do acusado um inocente a priori. O fato é que, se Dirceu e, melhor ainda, Delúbio Soares, tesoureiro caixa 2 do PT, tivessem feito o mesmo e nada mudaria em relação ao pré-julgamento político de seus malfeitos. Acredita-se em Palocci porque se quer, e certos setores da economia precisam, acreditar, sem com isso insinuar culpas do ministro.

O comportamento normal é que o acusado se dispa da inocência ao ver-se na soleira do inferno, como pressentiu seu ex-secretário na prefeitura Rogério Buratti: imaginando-se abandonado pelo entorno do ministro da Fazenda, preso, algemado, vestido com o uniforme de prisioneiro e pressionado pela família a não cair sozinho, pediu o benefício da delação premiada ao Ministério Público de São Paulo e passou a cantar como um passarinho. Esta semana voltará a depor na CPI dos Bingos, quando terá a chance de ser mais explícito ou vir a desmoralizar-se. O que há até agora é a palavra de Palocci, com credibilidade, contra a de seu ex-assessor e amigo, flagrado pela polícia mandando destruir provas e envolvido com suposto achaque da multinacional Gtech, que presta serviços de loteria para a CEF, e com uma máfia de lixo em prefeituras de São Paulo e Minas.

Palocci sabe que, embora conte com a simpatia interessada de boa parte do empresariado, especialmente dos mercados financeiros, e de setores da mídia, graças à política econômica conservadora e, mais que isso, ao respeito irrestrito aos contratos, a sua imagem foi posta sob os holofotes. É a mesma indulgência dispensada pelo capital e a oposição a Lula: todos preferem que termine o mandato, mas isto, a esta altura, ao preço da inviabilização de disputar a reeleição. Neste quadro, nada salva o PT. E Lula e Palocci ficam reféns das seqüelas da crise política e da destruição do petismo.

Com a mão do gato

A aceitação de Lula e Palocci pelo capital, desarmando a oposição dos mesmos instrumentos de combate sem trégua manipulados pelo PT na era FH, foi sempre um processo de sutilezas. Não com o sentido irônico dito certa vez pelo deputado e ex-ministro Antonio Delfim Netto, segundo o qual o quanto antes o PT fosse governo mais cedo o encanto petista junto ao eleitorado seria quebrado e mais rápido se poderiam consertar os estragos. O sentido era o da mão de gato.

O que o capital apercebeu-se, desde que Lula rompeu com a tese da ruptura na economia com a Carta aos Brasileiros, é que com ele o inviável seria possível: reformar, com mínimos atritos sociais e a maioria do Congresso, dispositivos constitucionais que bloqueiam a modernização da economia, como a legislação trabalhista, benesses do sistema previdenciário do funcionalismo público e a rigidez das rubricas de despesas do orçamento federal.

Sem o pé de apoio

Desde meados de 2004 a capacidade reformista do governo foi posta à prova, com o progressivo desmantelamento de sua base de apoio no Congresso – e, viu-se depois, era o caixa 2 do PT que mantinha tal unidade de desiguais: PTB, PP, PL e parte do PMDB. O choque entre Palocci e Dirceu, com ecos no PT, também travava a aprovação dos projetos e dividia entre um e outro os interesses do capital. Lula nunca soube mediar este conflito e desembaraçar o nó no Congresso. Perdeu o pé de apoio e depende de Palocci para chegar até o fim.

O ministro da Fazenda, hábil, simpático, afastou as nuvens negras plantadas sobre sua cabeça pelo ex-assessor Buratti. Os promotores que averiguam o caso, porém, estão muito seguros quanto às provas colhidas contra a administração de Palocci em Ribeirão Preto. Pode ser provável que saia disso um compromisso: Palocci não é atingido diretamente - e não passou despercebida a forma gentil com que se referiu a Buratti em sua entrevista à imprensa no domingo -, mas seu governo municipal será denunciado, o que implica botar alguns antigos assessores no banco dos réus. O mais próximo é seu chefe de gabinete na Fazenda, Juscelino Dourado, que esteve com ele na prefeitura e foi sócio de Buratti, com quem mantém relações.

A renovação do brevê de vôo de Palocci não se estende a Lula. No Palácio do Planalto, teve quem visse na tática do ministro o meio de o presidente sacudir a poeira e partir para a ofensiva: isto é, chamar a imprensa e negar e negar, mesmo não dando os nomes dos "traidores", como afirmou na única vez em que tratou da crise sem subterfúgios. Seu prazo de validade política parece esgotar-se em 31 de dezembro de 2006. Qualquer tentativa de prorrogá-la deverá atrair mais ondas de denúncias, até do próprio PT "banda limpa".


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