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China e Índia negociam acordo para enfrentar a escassez de petróleo
Objetivo é fazer ofertas conjuntas para a compra de áreas de prospecção e petroleiras no mundo
Antonio Machado
Enquanto aqui se perde tempo com escândalo político, elogia-se a política monetária que domestica a inflação praticando juros reais recordes de 14% ao ano e o grosso da receita de impostos se esvai em custeio do estado, gastos assistencialistas e giro da dívida do Tesouro, China e Índia, duas maiores potências emergentes do mundo e únicas capazes de confrontar em médio prazo a hegemonia dos EUA, não cansam de surpreender.
O que falta ao Brasil em termos de programa de desenvolvimento já que a política econômica é neutra, para não dizer omissa quanto ao crescimento, centrando-se exclusivamente na solvência das finanças públicas e na estabilidade dos indicadores macroeconômicos, lá é o que tem em abundância.
Nada se faz em termos de políticas públicas que não seja para engrossar a produção industrial, criar empregos e eliminar aceleradamente a pobreza, tudo puxado pelo investimento público e privado em educação e novos negócios empresariais, e uma eficiente geopolítica de resultado, não tertúlias diplomáticas que rendem aplausos dos basbaques e nenhum resultado comercial.
A última que vem daquela região revela o tamanho do atraso a que o Brasil está exposto, desde que se promoveu a financeirização da política econômica ao plano das prioridades concomitantemente à saída do estado como ente coordenador do crescimento e supridor de fundos para a expansão da economia e a infra-estrutura pública.
Os governos da Índia e da China negociam acordo pelo qual as estatais de petróleo dos dois países fariam ofertas conjuntas para a compra de novas zonas de prospecção em todo mundo e mesmo petroleiras que detenham reservas e concessões de óleo e gás.
"A associação entre Índia e China pode ser tão formidável que não haverá alvos não acessíveis", anunciou Talmiz Ahmada, porta-voz do governo indiano para assuntos de petróleo. As negociações podem já estar concluídas em setembro e a intenção da atuação conjunta, de acordo com o ministro indiano do petróleo, Mani Shankar Aiyar, é impedir que as necessidades de consumo dos dois países, que tendem a se tornar os maiores queimadores de petróleo do mundo junto com os EUA, incendeiem os preços do mais vital insumo de energia.
Em menos de dois anos a cotação do barril dobrou, passando de US$ 60 nas bolsas de mercadorias e acima de US$ 45 nos contratos longos.
Visões estratégicas
A China importa 40% de suas necessidades de petróleo, sendo que no ano passado respondeu por um terço do aumento global da demanda e é responsabilizada pelo aumento de preços nos últimos 18 meses. A Índia importa 70% do que consome. Nenhum dos dois prevê redução desse ritmo, já que suas economias crescem acima de 7% ao ano – 9% em média na China, desde 1980.
O Brasil está mais à vontade: até o ano que vem a Petrobrás deverá alcançar a auto-suficiência, além de também investir em concessões no exterior. A diferença entre os movimentos está na concepção das estratégias. Na China e Índia, os investimentos são para garantir o abastecimento e, sobretudo, para manter a competitividade da economia, não o lucro dos acionistas.
Foi graças a tal concepção que uma das cinco estatais chinesas de petróleo arrematou, concorrendo justamente contra a rival indiana, a petroleira canadense Petrokazakhstan, que mantém concessões na ex-república soviética do Cazaquistão. A CNPC ofereceu US$ 4,18 bilhões, superando a oferta da ONGC Videsh, que pôs na mesa US$ 3,6 bilhões, o valor de mercado estimado da empresa.
O governo da Índia, que foi para o negócio associado ao tycoon da siderurgia indiana Lakshmi Mittal, estuda aumentar sua oferta. A disputa está posta pelos dois governos como evidência da necessidade de acordo.
Só importa crescer
No mês passado, outra petroleira estatal da China, a CNOOC, quase pôs os pés nos EUA, oferecendo US$ 18,5 bilhões pela Unocal, que era pretendida também pela norte-americana Chevron. Por pressão do Congresso e do governo Bush, os acionistas da Unocal recusaram a oferta chinesa.
Na base de tudo, estão a garantia de suprimento, a busca de custos menores para manter a competitividade da industria nativa, o afastamento de riscos ao crescimento econômico acelerado e o progresso social. No Brasil, nada disso é política de estado.
O preço subsidiado dos combustíveis na China é um dos fatores do elevado crescimento chinês, mas já implica desabastecimento e ágio em partes do país. Tais seqüelas revelam que crescimento econômico artificial é tão ruinoso quanto ausência de estratégia deliberada de desenvolvimento.
A opção da Índia, que está desmontando o seu sistema de protecionismo à indústria local, incentivando o capital privado a puxar os investimentos, tudo sob o quadro institucional de preços de mercado, é mais segura no longo prazo. O que faz toda diferença, numa analise comparada com Brasil, é a vontade e coesão política pelo crescimento. Aqui, é fraca, quase inexistente, com a economia prisioneira da lógica financista da dívida pública e de juros reais de 14% ao ano. Na Índia, menos de 3%. Na China, também há o maciço ingresso de capitais externos.
A impressão é que aqui o desenvolvimento é uma meta estética, um valor moral, e não política imanente de estado. Pegue-se o caso da política externa, mola de propulsão do modelo econômico da China e Índia. Na América Latina, o Chile é o que mais chega perto destes gigantes. Tem 47 acordos de livre comércio com outros países. Fora do Mercosul, o Brasil não tem nenhum. Mas não falta blablablá.
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