Coluna Warm Up: Salvo pela crise
Flavio Gomes 06/03/2009 - 17:23
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| Barrichello e Brawn: "só tem tu, vai tu mesmo" |
Rubens Barrichello começou a ganhar a vaga na nova Brawn GP, a agora definitivamente ex-Honda, em 15 de setembro do ano passado. Lembram daquela segunda-feira? Pois é. No domingo, um dia antes, Sebastian Vettel vencera o GP da Itália, em Monza. Barrichello terminou a corrida em 17º, uma volta atrás do alemão — em mais uma atuação apagada dele e de seu time. Mas o destino do brasileiro, traçado naquela segunda-feira, 15 de setembro, nada teve a ver com o GP do dia anterior.
Enquanto Barrichello amargava a ressaca de mais uma corrida ruim, nos EUA o secular banco de investimentos Lehman Brothers pedia arrego. Os historiadores, no futuro, usarão essa data como o marco zero da crise econômica deflagrada em 2008, considerada a mais grave desde a quebra das Bolsas em 1929.
Foi a crise que levou a Honda, menos de três meses depois, no dia 5 de dezembro, a anunciar que estava se retirando da F-1. Rubens, pois, que agradeça aos irmãos Lehman e aos caloteiros americanos que enfiaram a economia mundial no ralo.
Sim, porque se a Honda não tivesse resolvido cair fora das corridas com medo do bicho-papão, ele estaria provavelmente a pé. Tanto que antes do anúncio da defecção dos japoneses, o time já tinha iniciado os testes com Bruno Senna e Lucas di Grassi, numa clara demonstração de que Rubens não fazia parte dos planos para 2009. Com todos os outros times fechados para 2009 (àquela altura, faltava só a Toro Rosso), Barrichello tinha como destino a aposentadoria, jogando golfe por aí.
Mas veio a crise, a desistência, e a interrogação, mais uma entre tantas que envolveram o futuro da Honda: se esse negócio continuar existindo, quem vai guiar?
A contratação de Barrichello foi recebida com surpresa, por ser ele considerado carta fora do baralho ao final da última temporada. Mas faz todo sentido. A Brawn GP vai alinhar em Melbourne no dia 29 com meros sete dias de testes nas costas, um projeto pouco desenvolvido e usando motor e transmissão de uma estranha no ninho de Brackley, a Mercedes. Nesse cenário, a última coisa que Ross Brawn precisava era de um novato a quem tivesse de ensinar para que servem os botões no volante. Seria o caso do primeiro-sobrinho Bruno Senna.
Rubens, ao contrário, é velho conhecido de todos os envolvidos no projeto da Brawn GP. Trabalhou seis anos na Ferrari com o engenheiro inglês e passou as últimas três temporadas no time que vai seguir defendendo. Não tem mais grandes pretensões, está louco para continuar correndo e já não é mais um piloto caro — a questão salarial, dele e de Button, não está muito clara. A equipe precisará desesperadamente de pontos neste ano, porque eles significam verba para 2010, e Rubens tem chances muito maiores que Bruno de consegui-los quando houver uma chance, por conta de sua experiência de 16 temporadas na categoria, o que faz dele o recordista de GPs disputados na F-1.
Portanto, que Barrichello agradeça à crise. Sem ela, estaria procurando algum lugar para dar suas tacadas na semana que vem. Em vez disso, fará testes em Barcelona, dando início a mais uma fase de sua longa carreira.
É sempre assim. A desgraça de muitos pode ser a salvação para outros.
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