Diários de Despedida: Brasília
Ingo Hoffmann
13/11/2008 - 01:00

Marcel Marchesi


Hoje em dia temos muitos pilotos muito jovens, com seus 13, 14 anos de idade, começando suas carreiras de piloto. No meu caso a coisa foi bem diferente. Apesar de eu também querer começar a correr bem cedo no kart, infelizmente naquela época não tinha o apoio dos meus pais, e, portanto, tive de esperar completar 18 anos para tirar minha carteira de motorista e na seqüência poder começar a correr nas pistas. Isto aconteceu no ano de 1972, quando estreei em um Campeonato que se chamava “Festival do Ronco”. Acho que já disse isto em outro Diário de Despedida...

Nos anos de 1975 a 1978, corri na Europa, passando pela F-3, F-2 e F-1. Porém, por total falta de recursos (patrocínio), fui obrigado a tomar a opção "forçada" no final de 78 de voltar a correr no Brasil. Assim, no início de 79, cá estava eu de volta ao Brasil de mala e cuia, procurando uma nova categoria para reiniciar minha carreira.

Como todos já sabem, escolhi a "Estoque Car", onde estou até hoje. O meu regresso para o automobilismo brasileiro foi bastante difícil, por diversas razões, tais como: falta de grana, falta de adaptação ao carro, falta de equipe adequada, etc., etc., sendo que uma das dificuldades era não ter um local (oficina) para preparar meu carro. Depois de muito procurar um galpão nas cercanias de Interlagos, acabei alugando uma pequena garagem, praticamente em frente ao portão principal do autódromo.

Essa garagem era tão pequena que dentro dela cabia somente o carro de corrida, e praticamente nada mais. Logicamente não tinha escritório e muito menos telefone. Portanto, acabei fazendo amizade com um cara que tinha um depósito de material de construção, vizinho de minha pequena garagem, que por força da circunstância virou meu “escritório” lá. Muitas vezes, alguém de lá vinha me chamar, para total constrangimento meu, pois tinha uma ligação para mim no “nosso” telefone.

Um belo dia o dono dessa loja trouxe o filho dele, que na época tinha sete anos de idade, para ver o meu “Opalão Estoque Car” de perto, pois o menino era fissurado em carro de corrida. Acabei fazendo uma amizade legal com ele, tanto que depois de algum tempo lhe dei de presente um capacete laranja que eu tinha ganhado.

Como o menino de fato era totalmente apaixonado por automobilismo, ele começou a correr de kart, foi seguindo carreira até que chegou na F-1 com grande destaque. Este menino é o Rubinho Barrichello, que no último GP do Brasil acabou me prestando uma puta homenagem ao correr com as cores de meu capacete. Toda essa história, acho que a maioria de vocês já deve estar sabendo de tanto que ela foi explorada por toda a mídia, mas eu quero falar sobre isto, pois foi sem dúvida, uma das maiores homenagens que eu jamais recebi. Junto com o "presente" de ele correr com as cores de meu capacete, ele ainda me deu uma credencial com direito a ficar dentro dos boxes da Honda, com fone de ouvido na cabeça, podendo escutar toda a conversa dele com seu engenheiro.

A última vez que estive acompanhando o trabalho de uma equipe nos boxes foi em 1978, quando eu ainda corria na F-1, então vocês podem ter uma idéia de como a coisa mudou nestes 30 anos. A começar pela telemetria, pois ao se entrar nos boxes, parece que estamos entrando na Nasa de tantos computadores, sendo que o Rubinho me contou que a Ferrari tem o dobro do equipamento — as equipes mais bem classificadas têm direito a mais boxes, portanto podem se instalar com muito mais equipamentos. No caso da Honda, por ter direito a um espaço menor, não podem levar tantos equipamentos.

Como estive durante os três dias com o fone de ouvido acompanhando toda a comunicação com o Rubinho na pista durante treinos e corrida, pude escutar tudo em relação a acertos do carro e duas coisas me chamaram mais a atenção:

1) Como é grande o conhecimento técnico do Rubinho em relação ao acerto ideal do carro;

2) O engenheiro costuma falar por muito tempo no rádio, passando informações para o piloto, e o Rubinho, em qualquer lugar que estiver na pista, vai trocando informações sobre o acerto. O que me impressionou é a tranqüilidade com que ele faz isso, ou seja, sem alterar o ritmo da respiração, devido ao excelente preparo físico que um piloto de F-1 tem de ter.

Enfim, foram três dias de muita emoção para mim, mas o momento que mais mexeu comigo foi no primeiro treino de sexta-feira, quando o vi colocar o capacete na cabeça, entrar no carro e sair para a pista. Confesso que cheguei a chorar, pois até então não acreditava que ele iria fazer isto.

E para completar, ainda ganhei o capacete de presente no final, devidamente autografado com os dizeres "INGO, FOI UM PRAZER TE CARREGAR EM INTERLAGOS, PUTA ABRAÇO, RUBINHO".

Só posso terminar dizendo: VALEU, RUBINHO, MUITO OBRIGADO.

Sobre minha despedida de Brasília na Stock Car, foi sensacional. Depois da etapa de Curitiba, com nossa equipe classificada, disse que dali para frente só queria me divertir na pista. Muitas vezes, fazer uma boa corrida não significa vencer ou subir no pódio, e posso garantir para vocês que me diverti muito nas voltas finais, quando cheguei ao pelotão da frente e consegui ganhar umas quatro posições. Saí bastante satisfeito e feliz com a acolhida dos amigos da "velha guarda" que hoje trabalham na Stock Car e dos fãs nos nossos boxes, após a prova. Só tenho a agradecer por estar tendo momentos tão especiais nesse meu ano de despedida.

Espero continuar me divertindo em Tarumã.

Até.




Envie esta matéria a um amigo
© Copyright Warm Up Motorsport Coverage