Coluna Grand Prix: Corrida ruim, final feliz
Reginaldo Leme
07/11/2008 - 07:00

Lewis Carl Hamilton é campeão do mundo. Com um ano de atraso, mas ainda o mais jovem campeão da história. Piloto de talento indiscutível, 207 pontos, nove vitórias, 22 pódios e já campeão com apenas 35 corridas na F-1. Indiscutível o merecimento, mas com uma ponta de decepção deixada por uma corrida medíocre, a única que vi dele em três anos, desde a GP2 em 2006. Em conversas do paddock, sempre ouço que Hamilton é daqueles em que se pode confiar em qualquer situação — calor, frio, pista veloz, travada, com piso seco, molhado. Aprendi domingo que ainda lhe falta saber correr obedecendo estratégias cautelosas. Não foi a pressão, mas a necessidade de não correr riscos que ofuscou o talento de Hamilton em Interlagos.

Ao contrário do inglês, Felipe Massa brilhou. Dominou a corrida com folga, sem sustos, sendo veloz no seco e no molhado. No final, ainda deu um show de maturidade ao aceitar a perda do título em condições jamais vistas antes, além de elogiar o rival e jamais acusar a Ferrari pelos erros que todos sabem terem sido cometidos em exagero este ano. Na verdade, foi o próprio Stefano Domenicali que, ali dentro do box, vivendo o clima de decepção do pós corrida, pediu desculpas a Felipe pelos erros. Eu fui testemunha disso e, depois de abraçar seu piloto, Domenicali repetiu o gesto para mim, como se quisesse pedir desculpas a todo cidadão brasileiro.

Felipe foi magnânimo ao assumir sua parte nos erros que, para ele, foram "cometidos em equipe". E, de tão honesto, conseguiu transmitir este seu sentimento para o torcedor brasileiro. Foi o que confortou a todos diante de uma derrota difícil de engolir porque tinha acontecido em míseros 21 segundos, que é o tempo que faltava de corrida quando Hamilton ultrapassou Timo Glock na subida da Curva da Junção. Dali ele subiu a reta para receber a bandeirada como campeão.

Felipe saiu fortalecido dessa disputa, que foi o golpe final para conquistar de vez a Ferrari, depois de ter "destruído" o campeão Kimi Raikkonen durante todo o ano. Aliás, o finlandês admitiu que estaria disposto a ajudar o brasileiro no que fosse necessário, mas fez a sua corrida normal, terminando em terceiro, atrás de Alonso. No pódio, gastou duas palavras ditas ao pé do ouvido de Felipe como consolação: "Bad luck" (má sorte). E assim se despediu até o começo dos testes para o ano que vem. Tem razão quem diz que, em vez de atacar Alonso, Raikkonen deveria ter diminuído seu ritmo para retardar Hamilton, permitindo que a turma de trás entrasse na briga com o inglês. Esta, sim, seria uma ajuda. O que a Ferrari precisava era de quatro carros entre Massa e Hamilton. Por tudo isso, concordo com o que tenho ouvido de muitos amigos desde domingo: a Ferrari ganhou o título de construtores, mas a McLaren foi a melhor equipe; Massa desfez, na última etapa, o equilíbrio do ano todo com Hamilton, ganhou mais corridas, liderou mais voltas, mas quem levou o título foi o inglês.

O final de corrida mais emocionante da história nos leva a fazer uma conta incrível, como bem me lembra o companheiro de SporTV Alex Grunwald. Somando-se as distâncias percorridas em 18 etapas, chega-se a um total de 5.480.888 metros. E tudo isso para o título ser decidido nos últimos 700 metros de pista. Sinais de uma F-1 mais interessante que está chegando.



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