Ao colega alemão
Flavio Gomes
31/10/2008 - 18:20

Há 20 anos, Ayrton Senna conquistava no Japão seu primeiro título mundial. O aniversário aconteceu anteontem, dia 30 de outubro. Era de madrugada, e pela janela do meu apartamento em São Paulo eu via que nos outros prédios da metrópole muitas luzes estavam acesas nas salas e nos quartos, e o brilho azulado dos aparelhos de TV dava um estranho colorido à cidade àquela hora, quando todos deveriam estar dormindo.

Ouvi rojões estourando aqui e ali, e o país acordou sorridente no domingo, com olheiras, é verdade, para saber dos detalhes da corrida apenas nos jornais da segunda-feira de manhã, já que internet era algo que nem em sonhos existia.

O futebol brasileiro andava meio em baixa, naquele final da década de 80; uma crise técnica que teve seu auge com a patética participação da seleção na Copa da Itália, em 1990. A F-1, em alta. Senna já era um ídolo, depois de três anos cravando uma pole em cima da outra na Lotus, e ganhando algumas corridas, também. Em 1987, Nelson Piquet conquistara seu tricampeonato pela Williams, o planeta se curvava à velocidade dos pilotos verde-amarelos.

Contratado pela McLaren para a temporada de 1988, Senna levantou a taça em sua primeira temporada num time de ponta de verdade, depois de um duelo inesquecível com Alain Prost, seu então companheiro e futuro inimigo. Aquele negócio de corrida de carros estava dando certo, em resumo. Era melhor que a bola, e de um dia para o outro todo mundo no país passou a entender de chassis, motores, pneus, suspensões e aerofólios. “Slick” passou a ser termo tão corriqueiro quanto “falta” ou “tiro de meta”, "pit stop" e "grid" foram incorporados ao vocabulário como "corner" e "pênalti".

Pano rápido de duas décadas.

No começo desta semana, um jornalista alemão que mora no Rio me mandou um e-mail perguntando por que não se vê nenhuma movimentação popular em torno do possível título de Massa domingo. Precisava mandar um despacho para sua agência, acho que a DPA, e não entendia a indiferença do público diante do que pode acontecer na prova de Interlagos.

Expliquei que a F-1 não é tão popular assim por aqui, no Rio é menos ainda, tem o Flamengo e tem a praia e o futevôlei, e os anos sem títulos nas pistas foram apagando aquela chama de duas décadas vitoriosas com o trio de sempre, Emerson-Nelson-Ayrton — uma feliz e improvável coincidência para um país que começou a fabricar automóveis com 50 anos de atraso em relação à Europa civilizada.

Disse a ele também que brasileiro só gosta mesmo de esporte que tem brasileiro ganhando — foi assim com o tênis de Guga e com a ginástica de Daiane — e que é do caráter nacional se apropriar das vitórias (“nosso Guga” e “nossa Daiane”) e varrer as derrotas para baixo do tapete (nunca vi ninguém dizer “perdemos” a cada fracasso de Barrichello, ou do basquete, ou do atletismo). Não sei se é igual em outros países, não conheço tão bem assim a alma de outros povos, fiz a ressalva.

O colega queria saber também se em caso de conquista de Felipe as pessoas vão sair às ruas para comemorar, e eu garanti que não. Não, não vão fechar a avenida Paulista, nem interditar a Atlântica. Talvez ele seja recebido pelo presidente, pelo prefeito e pelo governador, certamente irá falar com o papagaio da loira tonta da TV e será levado ao Faustão e ao Jô, mas não, não teremos feriado nacional segunda-feira. E também garanti a ele que ninguém vai se derreter em lágrimas se Massa perder o campeonato, porque ele não é um ídolo-mito-herói-vítima-do-sistema como foi Senna, os tempos são outros, e, se ele vencer, pode até ressurgir a paixão brasileira pela F-1, ok, de novo todo mundo vai passar a entender de pressão aerodinâmica, asfalto abrasivo e centralina, mas isso passa rápido, será uma paixão efêmera que vai durar até a próxima derrota.

Aqui é assim, foi o que tentei explicar ao meu amigo alemão.




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