Diários de Despedida: Curitiba
Ingo Hoffmann 24/09/2008 - 13:33
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Primeiro, gostaria de ressaltar que fiquei muito feliz com tantas manifestações dos internautas no “Blog do Gomes”, respondendo à minha última coluna. Agora vamos falar de amenidades. Bem, sobre Curitiba tenho uma história, que considero uma das melhores corridas da minha vida.
Em Curitiba fiz a quarta corrida da minha vida. Na verdade, fiz a quarta, a quinta e a sexta corridas da minha vida lá. Estreei em SP em 1972, corri três provas aqui e fui para Curitiba. Uma corrida de Fuscão. Campeonato para estreantes e novatos. Eu ia rodando com o carro na estrada, chegava ao autódromo, tirava o pára-choque e ia para a pista correr. A pista era exatamente a mesma, só não tinha no final da reta aquele S, era uma curva para direita, muito mais rápida do que é hoje.
Nessa corrida, com um Fuscão 1.500cc, teve um lance muito interessante, que de certa forma mostra bem a minha maneira de ser. Eu vinha disputando o primeiro lugar com um cara, o Luiz Osório, o Lutcho — volta e meia eu o encontro —, uma disputa acirrada, eu passava ele, depois ele me passava, enfim... Até que na entrada do miolo, coloquei por dentro, comecei a ultrapassá-lo e no meio da curva, nós nos tocamos e ele rodou... E nós estávamos loooonge do terceiro colocado, mas bem longe. Ele saiu rodando, era só eu ir embora e ganhar a corrida, né ? Mas eu parei o carro, de verdade, PAREI O CARRO, esperei ele manobrar, voltar para a pista para eu continuar disputando. Meu tesão era e é disputar. No final, acabei em segundo, perdi a corrida...
Para ser franco, quando a gente se tocou, achei que era culpa minha. Hoje sei que não era, é coisa de corrida, mas aquela era a minha quarta corrida da vida. Fiquei com a consciência tão pesada, que pensei: “Pô, vou esperar o cara. Meu tesão era continuar disputando.” Quando cheguei no boxe ninguém acreditou... Me diziam: "Você é louco, cara???"
Outra história interessante que aconteceu em Curitiba, não lembro exatamente o ano, acho que final dos anos 90. Quem organizou esse encontro foi o Clóvis Grelak, na época eu corria com patrocínio da Filipaper e ele era o assessor de imprensa. A história foi a seguinte: uns dez dias antes de ir para a prova da Stock em Curitiba, o Clóvis entrou em contato comigo, dizendo que foi consultado por uma pessoa, que morava no interior do Paraná, e queria organizar um encontro comigo para fazer uma surpresa para o pai dele.
Esse cara, não lembro o nome, quando jovem morava no Rio com os pais, e o pai dele era um tremendo fã meu. Anos antes, esse pai levou o filho ainda garoto numa corrida no Rio, pois queria me conhecer e que o filho também me conhecesse. Mas o filho não quis ir, não estava a fim. E o pai ficou meio decepcionado com isso. O tempo passou, os pais desse garoto se separaram, ele foi morar com a mãe no interior do Paraná, perdeu contato com o pai, cresceu, casou e teve um filho. E adulto, pai de filho, percebeu como era importante para o pai naquela época ter me conhecido. Percebeu que ele tinha sido o responsável por impedir que isso acontecesse e sentiu vontade de se reaproximar do pai, achando que poderia fazer isso através de mim. Por isso, contatou nosso assessor de imprensa na época, para arranjar esse encontro surpresa.
Foi tudo combinado, e logicamente o Clóvis colocou a TV em cima, armou tudo. Chegaram com as credenciais, vieram direto para nosso box, e o pai não entendendo nada, pensava: “Pô, como é que vamos nos boxes?” Eu sabia de tudo que estava acontecendo e foi extremamente emocionante, todo mundo chorou, eu também. Entraram, o pai dele me abraçou, falou algumas palavras de elogio e depois fiquei meio de lado, pois estavam num momento família. Eles se abraçaram, o filho pediu desculpas, que naquela época quando garoto não tinha entendido a importância do pai me conhecer. Ficou toda família reunida, foi muito legal.
Acho o seguinte: é bacana de ver também que o automobilismo não é só carro na pista, competição, tem muito esse lado do calor humano. A gente de fato tem fãs por aí e muitas vezes nem nos damos conta da importância que temos para eles. Percebi que a Stock Car serviu para aproximar um filho e um pai que estavam separados há muitos anos.
Foi super emocionante!
E agora, na minha galeria de histórias, terei mais uma de Curitiba. Imagina, no domingo, cinco minutos antes da abertura dos boxes para alinharmos no grid, começo a ter uma crise renal... Foram momentos de pânico. Já estava amarrado com o cinto de segurança dentro do carro e fui obrigado a sair e correr para o centro médico para ser atendido pelo Dr. Dino Altmann. Eu já sabia do que se tratava, não era a primeira vez e conhecia bem os sintomas. Enquanto era atendido, minha preocupação era que minha equipe levasse o carro para a saída de box, que ficava quase em frente ao centro médico, para eu ter tempo de alinhar, pois iria correr de qualquer jeito. Tomei uma injeção e sai correndo.
A sorte é que a largada atrasou um pouco e nesse tempo o remédio pôde fazer efeito e eu me acalmar. Estava apavorado, pois a dor é insuportável. Quem já teve pedra no rim sabe bem do que estou falando. Mas graças a Deus tudo correu bem, consegui correr, marcar bons pontos junto com meu companheiro, o Lico, que fez uma corrida fantástica. Assim conseguimos tirar nossa equipe do sufoco. E daqui para frente posso correr mais tranqüilo e me divertir um pouco, nessas últimas três etapas que faltam para minha despedida da Stock Car.
Até Brasília!
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