Bem, em função dos vários comentários no “Blog do Gomes” sobre meu último Diários de Despedida, parceria que tenho com o site
Grande Prêmio , vou começar com alguns esclarecimentos.
Comecei a acessar o site
Grande Prêmio — sem menosprezar, lógico, até porque acho que acertamos muito em fazer essa parceria para o Diários de Despedida — na primeira etapa da temporada, quando anunciei que era meu último ano na categoria. Naquele dia, o repórter Bruno Vicaria veio até nosso box para fazer uma
entrevista comigo, logo após a corrida. Confesso que quando vi que era o repórter do
Grande Prêmio, fiquei meio ressabiado... Mas conversamos longamente, e quando li a reportagem fiquei contente, porque percebi que o cara realmente pegou a essência da coisa, do que estava se passando ali na intimidade de nossa equipe naquele momento.
Foi aí que comecei a conhecer o “Blog do Gomes” e logicamente a ver os comentários da ESTOQUE CAR. Acho até que ele está certo agora, pelo que li nas mensagens. Mas para mim era uma coisa, só o blog e o site, porque é da mesma pessoa e o “Blog do Gomes” tem muito acesso. Sei que o Flavio Gomes é um cara polêmico. E fui ver suas colunas anteriores, usando a palavra ESTOQUE CAR, que para mim soava pejorativo. Mas lendo agora os comentários de muitos internautas, até entendo o porque desse ESTOQUE CAR e vou explicar mais para frente isso.
Agora só para relembrar porque fiz aquela coluna. Como disse, na segunda-feira após a corrida do Rio, não tinha muito assunto, nem me ocorriam casos interessantes que tivessem acontecido no Rio. Sentei no computador e comecei a dar uma navegada nos sites de automobilismo para ver as notícias, o que tinha rolado e tal. Aí, mais uma vez, me chamou a atenção no “Blog do Gomes” essa maneira de se referir à ESTOQUE CAR.
Em forma de leitura dinâmica, li quase todos os 130 comentários do blog e confesso que fiquei surpreso e extremamente contente, pois dentro dos posts recentes que o Flavio escreveu — pesquisei rapidamente —, tirando o assunto Fórmula 1, foi o que mais repercussão teve. Pensei: “Poxa, alguma coisa tem de bom, mas é extremamente polêmico.”
Vi que tinham muitos comentários contra mim, muitos positivos, muitos a favor dos dois, uma democracia! Quero deixar claro que eu respeito à opinião do Flavio. Como eu coloquei na coluna anterior, tem assuntos que não dá para discutir: futebol, religião, partido político... Cada um tem a sua opinião, e eu respeito isso. Por isso quis colocar a minha opinião, porque eu me considero, SIM, sinônimo de Stock Car. Estou desde o início na categoria, me sinto “pai” dela junto com vários outros profissionais do meio que fizeram muito para a categoria chegar aonde chegou e obviamente fico extremamente puto quando vejo comentários de fora, de uma maneira negativa sobre a categoria. Mas vou aproveitar isso para explicar porque a categoria é assim:
Eu percebo o seguinte nos comentários: as pessoas criticam por ser uma categoria de carros bolha, que o cara não consegue ir à concessionária comprar o carro igual ao que tem na pista... Aí explico: uma coisa é querer, a outra é poder. O que quero dizer com querer e poder ? Eu gostaria de estar correndo em uma categoria de fato multimarcas, onde houvesse um confronto direto entre Mercedes, BMW, Peugeot, Mitsubishi, Chevrolet, etc., etc., etc., que é o que acontece na Europa, no WTCC — World Touring Car Championship, como o nome diz, é um Campeonato Mundial de Carros de Turismo —, ou na DTM — Deutsche Tourenwagen Meisterschaft —, onde as montadoras estão diretamente envolvidas. Tive a oportunidade de participar de um campeonato bem nessa linha, o Sul Americano de Superturismo, quando corri pela BMW sem o apoio financeiro da montadora, contra a equipe oficial da Alfa, da Peugeot, onde o Cacá Bueno corria... Mas esses campeonatos — que na época não tinham o nome de WTCC , tinham o nome de Superturismo —, morreram, em função dos altíssimos custos envolvidos para sua realização.
Por isso que eu digo: uma coisa é querer. Eu gostaria de estar correndo num campeonato desses, de estar recebendo um belo de um salário, pilotando um carro oficial da marca tal. Mas essa não é a nossa realidade. Nossa realidade é o poder. E nós podemos fazer uma categoria como é a Stock Car no Brasil. Esta é a nossa realidade. Que é uma categoria de carros com chassis tubulares, motor, câmbio, pneus padronizados, ou seja, tudo igual para todo mundo. Aonde em cima, sim, vai uma bolha. É uma bolha e ponto. Já ouvi algumas pessoas dizerem que é uma categoria de protótipos. De fato, de carro de turismo a Stock Car não tem nada.
Mas o que nós podemos fazer no Brasil é isso, essa é a nossa realidade. E tem mais, nós só conseguimos chegar a esse ponto, em função de um trabalho muito bem estruturado por um bando de pilotos abnegados, do qual eu faço parte, para tentar tornar a categoria uma realidade. Porque se nós dependêssemos de órgãos oficiais, a categoria estaria morta, como também estaria morta a Fórmula Truck, que também vive em função do envolvimento das pessoas apaixonadas pela categoria, ou seja, não tem nenhum tipo de apoio de federação ou confederação, como existe em outros países.
Eu entendo que muitos leitores se sintam “ludibriados”. E pensem: “Poxa, tô vendo lá uma bolha com a cara do Astra, e por baixo não é o Astra.” De fato, não é. Agora quero ressaltar porque surgiu a idéia de fazermos chassis tubulares e motores padronizados, independente de querermos a padronização. Isso foi no ano de 1999. Lembro muito bem, pois fazia parte do grupo de trabalho, que era o Paulo Gomes, Carlos Col e eu. Em final de 1998, fomos numa reunião à General Motors, nós corríamos com os carros Omega, um produto da Chevrolet. Nessa ocasião, os diretores da montadora nos disseram: “Olha, nós não temos mais interesse em continuar a promover o produto Omega, pois vamos deixar de fabricá-lo. Nós queremos que a Stock Car, a partir de 2000, comece a correr com carros Vectra.”
De cara, dissemos, não, os pilotos não vão ter interesse em correr com o Vectra, porque é um carro de motor 2.0 litros, fraquinho em comparação aos carros que utilizávamos e com tração dianteira. Usávamos motor de Opala, 4.8l, 6 cilindros, tração traseira, que tinha uns 350 cavalos. Já, o motor 2.0 litros, se a gente trabalhasse muuuito, ia tirar 180 cavalos. Isso é ridículo. E para aqueles que falam que não gostam de corrida de Stock Car, aí, sim, que iam reclamar daquele barulho de motor 2.0 litros na orelha. Então, dissemos que não podíamos aceitar aquilo, pois queríamos que a Stock Car continuasse com motores fortes, potentes. Foi quando tivemos a idéia de fazer o chassi tubular e de início continuaríamos usando o motor seis cilindros, em linha, com a carroceria do Vectra em cima. Isso foi uma idéia nossa: do Paulão, do Col e minha, para atender a marca e atingir nossos anseios, que eram continuar a pilotar carros rápidos, com tração traseira, que são carros de corrida de verdade.
Confesso que quando tivemos essa idéia, pensamos: a Chevrolet não vai aceitar isso. Mas para espanto nosso, eles toparam. Em seguida, demos o start nesse processo do chassi tubular, já pensando no futuro, em tentar envolver outras marcas, trazer dinheiro novo, para transformar esse dinheiro em premiação para todas as equipes, pois até então não tinha nenhum prêmio. Antigamente, a gente não ganhava nada, os troféus muitas vezes eram de plástico e quando chegava em casa, já estava quebrado. A gente não tinha dinheiro para comprar troféu para dar ao vencedor. Mas o que nós podíamos fazer era isso. Se acatássemos o que a Chevrolet queria naquele momento, estaríamos correndo com carrinho de motor 2.0 litros, tração dianteira, andando a 180km/h nas pistas. Ou seja, essa foi a maneira que encontramos para poder viabilizar a entrada de novos pilotos e equipes e a longo prazo tornar a categoria o que ela é hoje. E isto é o que PODÍAMOS fazer.
Eu também concordo muitas vezes quando vejo comentários sobre a Stock Car ter virado uma categoria show. E até já defendi isso diversas vezes, em outras discussões. Virou uma categoria show, sim, para a Rede Globo. Foi feita para a Rede Globo. Inclusive, quando a Globo começou a transmitir as primeiras corridas ao vivo, em 2000 — aquele mais aficionado vai lembrar que naquela época eram duas baterias, intervalo curto entre uma e outra, e na segunda invertia o grid: quem ganhou largava em último, o segundo era o penúltimo, e assim por diante —, por que era feito isso? Porque a Globo queria espetáculo, ação, emoção, para tentar manter a audiência alta. Aqueles amigos internautas que não gostam disso, lamento, mas a gente tem de remar a favor da maré. A maré é: audiência, Ibope, Rede Globo, para atrair patrocinadores, etc., etc. e tal. Essa é a realidade. Infelizmente nós temos no Brasil algumas categorias que são secretas, corre-se até nacionalmente, mas ninguém sabe que essas categorias existem. Aí alguém pode dizer: “Mas e o dia em que a Rede Globo resolver não transmitir mais a categoria, como fica?” Fica que: 1º) tudo na vida pode ter um fim, até os mais longos e maravilhosos casamentos que geraram muitos filhos; 2º) aí já temos uma categoria forte nas mãos, que pode tranquilamente ser televisionada por outra emissora!
Isso para concluir que a gente tem de nadar a favor da maré, não adianta querer ser mais realista do que o rei e querer fazer uma categoria de Marcas no Brasil. Como já tivemos no passado, e eu inclusive corri. Como li alguns comentários de que naquela época o automobilismo era bacana. De fato, era bacana. Mas o que aconteceu? Depois de três ou quatro anos, o campeonato morreu. Por que morreu? Porque não conseguia equiparar a performance de todos os carros no aspecto técnico. Nenhuma marca entra num campeonato desses, para botar um caminhão de dinheiro, que o leitor não tem idéia de quanto, para perder. Inclusive, de uma certa forma, agora está acontecendo essa discussão na GT3, numa escala muito menor, claro.
O fato é que não existem carros iguais. Se você fizer um campeonato de marcas, tem de haver uma maneira de equalização. Não existe um campeonato de diversas marcas, onde os carros têm exatamente a mesma performance como aconteceu na Stock Car em Londrina, onde tivemos o grid inteiro, 34 carros, com uma diferença de menos de um segundo (0s975) entre todos os carros. Isso só numa categoria monomarca, com carroceria bolha, que alguns dos amigos internautas acham uma chatice, mas só desse jeito conseguimos ter uma categoria tão equilibrada. E tem outro detalhe importante: uma montadora ,quando vai entrar num campeonato de marcas, vai focar num Mundial, montar uma equipe no seu país de origem, onde é a sua matriz. Como é o caso da BMW, que corre no WTCC, que tem 90% das provas disputadas na Europa. E o caso da Seat, que tem sede na Espanha. Talvez a única exceção seja o TC2000 na Argentina, que consegue envolver diversas montadoras neste campeonato, mas em minha opinião isto acontece devido à enorme paixão que os argentinos têm pelo automobilismo.
Já tivemos experiências no passado, quando a importação era fechada. Tínhamos quatro marcas no Brasil: Chevrolet, Ford, Volkswagen e Fiat. Mais ninguém. Isso foi nos anos 80. Com muito custo a CBA conseguiu reunir as quatro montadoras e fizeram o campeonato multimarcas de 1600 cc. Eu corri pela Chevrolet, com um Chevette. Bem, para tornar um Chevette competitivo, para aqueles que não sabem, nós usávamos um bloco de Chevette e cabeçote de Monza, que chamávamos de MISTO QUENTE, e que também não era encontrado na concessionária... Então, no segundo, terceiro ano, para tentar manter o pseudo-equilíbrio entre as marcas, começamos a correr com carros de 1300cc, turbo. Na época não se vendia carros turbo para rua. Logo, tudo tinha de ser manipulado, para haver um pseudo-equilíbrio, para as marcas não se sentirem melindradas e saírem do campeonato, pois os carros têm diferenças. Mas depois de três anos, a conta começou a ficar muito cara para as montadoras.Veio uma ordem da matriz dizendo: “Meus amigos, parem de gastar dinheiro aí, pois estamos gastando aqui nos nossos países de origem, nos Mundiais.” Esse é o querer.
Já o poder é a atual realidade aqui, de fazer carros “tupiniquins”, chassis tubulares, motores padronizados e uma bolha em cima, ou seja a nossa ESTOQUE. Então, concordo com o Flavio e dou o braço a torcer. É ESTOQUE CAR, mesmo. Mas uma coisa muito importante: a ESTOQUE CAR ou STOP CAR, como escuto às vezes por aí em táxis, hotéis, postos de gasolina, restaurantes, academia, sites, virou assunto de botequim. Por causa da grande divulgação que tem. Então, tanto faz, ESTOQUE CAR, STOP CAR ou STOCK CAR. Como diz aquele ditado: falem bem, ou falem mal, mas falem de mim.
E faço questão de registrar que essa discussão foi muito saudável e para mim, pessoalmente, aconteceu uma coisa importantíssima: no meio do automobilismo, os comentários positivos foram unânimes. Recebi vários e-mails, fui muito cumprimentado pela coluna. Teve até a solicitação de um site para poder publicá-la, mas por questões éticas, não permiti. Isso para mim é muito bom, pois é um termômetro importantíssimo no meu meio, o automobilismo que eu vivo e tanto amo. E confesso que quando escrevi, não tinha essa pretensão. Como disse, era falta de assunto mesmo...
Até Curitiba,
Ingo Hoffmann