Diários de Despedida: São Paulo
Ingo Hoffmann
05/08/2008 - 12:37



Bem, de volta a Interlagos, onde tudo começou... Mas não vou falar aqui de Stock Car, vou relembrar o começo de tudo mesmo, meus primeiros passos no automobilismo. Quero contar uma história que aconteceu em 1973, quando eu ainda era estreante. Para o amigo leitor se localizar, naquela época a graduação de pilotos era assim: estreante novato; dependendo dos resultados que alcançassem, eram promovidos para PC (piloto de competição); e próximo degrau era o POC (piloto oficial de competição), a graduação máxima que havia no Brasil naquela época.

Eu estreei, em 1972, como estreante novato, a bordo de um Fusquinha 1.500. Fiz seis corridas em Interlagos, e, na sexta, o motor fundiu, me obrigando a parar. Aí, começou o drama de arrumar patrocínio... Bem, em 1973, com o patrocínio da Creditum, voltei a correr ainda como estreante novato, mas numa nova categoria, chamada Divisão 3. Corria com um Fusquinha 1.300, mas com motor preparado para 1.600 – uma potência bem razoável para a época. E os pilotos estreantes novatos tinham de usar pneu radial.

Em paralelo à essa categoria do campeonato paulista, tinha o campeonato brasileiro Divisão 3 classe A, onde os pilotos corriam com esse mesmo fuscão, motor 1600 preparado, mas a única diferença era que os pilotos de competição (PC) corriam com pneus slick.

Bem, comecei o Paulista Divisão 3 como piloto estreante novato, fiz umas quatro ou cinco corridas, ganhei diversas delas e, no meio do ano, a Federação Paulista de Automobilismo resolveu me promover para PC, onde só me sobrava a chance de correr no Brasileiro Divisão 3, ou seja, com os feras, os mais experientes. Em outras palavras, tinha de abrir mão do campeonato paulista, onde tinha grandes chances de ser campeão.

Quando recebi essa informação, fiz um ofício para a Federação dizendo que não queria ser promovido para PC, pois estava brigando pelo campeonato e não me achava com experiência para correr na categoria de pilotos de competição. Esse ofício não foi aceito, e no meio do ano passei a competir como PC, onde só me restava a chance de correr no Brasileiro da Divisão 3. Ou seja, quando fiz minha prova de estréia nessa categoria, já tinha acontecido umas três etapas do Brasileiro.

Nessa categoria havia grandes nomes, e um deles que me lembro bem é o Alfredo Guaraná Menezes, o bicho papão. Fui para minha estréia na categoria PC com o mesmo Fusquinha que corria na estreante e novato, só que com pneus slick, e fiz a pole-position. Pensei: “Caramba! Fiz a pole e vou largar na frente do Guaraná, Julio Caio e outros grandes nomes!” Era na pista antiga de Interlagos.

Largou a corrida e tivemos uma disputa incrível, o Guaraná e eu. Até que aconteceu um fato sensacional, na curva do Sol, que era muito rápida, para a direita. Com aquele Fuscão, era feita quase de pé embaixo. Estava na frente dele, eu em primeiro, ele em segundo, quando dei uma rodada de 360 graus cinematográfica. Ele me passou, abriu, sei lá, uns quatro carros de mim, mas como minha rodada foi muito rápida e o carro já parou na direção certa, engatei marcha e fui atrás do Guaraná. Bem, cheguei nele e, quando faltavam poucas voltas para o final, ele teve um problema no carro. O ultrapassei no Bico de Pato e ganhei a corrida. Ele ficou em segundo. Resumindo, estreei na categoria PC à revelia, vencendo a prova. Em seguida, venci mais algumas e no final fui campeão brasileiro da categoria Divisão 3 de 1973, sem ter participado das primeiras provas.



Aí, no início de 1974, o Giba, que era meu preparador, me sugeriu: “Vamos comprar uma Brasília?” A Brasília tinha sido lançada no mercado brasileiro no final de 73, e ele me convenceu que seria um carro rápido. Bem, com o apoio de meus patrocinadores, conseguimos comprar uma Brasília zero-bala e botamos ela para correr. Era uma sensação, porque a Brasília era um carro novo no mercado, lançado pela VW meses antes, e, para o pessoal de hoje se localizar – porque a maioria dos leitores não vai entender isso –, a Brasília naquela época era “top de linha”; a mesma coisa que estar sentado hoje em uma BMW M5, M3. Um foguetão.

A compra do carro e a preparação já geraram muita notícia no meio. Surgi com essa Brasília na pista, se não me engano, na segunda etapa do Brasileiro. Comecei a temporada com o fusca que tinha ganhado em 73. O tempo de volta em Interlagos, com aqueles carros da Divisão 3, era de 3min30s, na pista antiga de oito quilômetros. A Brasília que estava estreando tinha um conceito totalmente revolucionário. Motor do Fuscão 1600cc, refrigerado a ar, com uma ventoinha, que refrigerava os cilindros. Mas essa ventoinha tirava potência do motor. Então o Giba me disse: “Ingo, vou fazer um carro sem a ventoinha, e a refrigeração vai funcionar pela própria ventilação do carro”. Também colocamos nessa Brasília câmbio de F-3, outra novidade. Assim podíamos escalonar as marchas, ou seja, trocar a relação de primeira a quinta, além de ter um câmbio de quinta marcha, que ninguém tinha.

Agora, o interessante era o seguinte: a alavanca era ao contrário. Como um motor de Fórmula tem o câmbio adaptado atrás e o posicionamento de câmbio do VW era na frente, então a primeira era no lugar da quinta, segunda no lugar da quarta, terceira na terceira, segunda na quarta e primeira na quinta. Tinha de me condicionar para trocar a marcha na contra-mão. Fomos para a pista, tivemos uma série de problemas com o negócio da ventoinha que não funcionava. Não dava certo... Acabei não classificando, larguei em último – mais de 30 carros largavam, um grid muito cheio –, e o Guaraná fez a pole. Mas entrei na corrida com a ventoinha montada em condição de refrigeração normal.

Larguei, vim passando, passando, passando, fulminei o recorde de Interlagos, que era de 3min30s – virei 3min26s –, e, em uma das voltas, recebi uma pedrada no radiador de óleo. Era um motor que tinha cárter seco, então na frente do carro tinham dois radiadores de óleo montado em V. Um dos radiadores recebeu uma pedrada e começou a vazar óleo, e esse óleo ia para a suspensão em cima do eixo traseiro, deixando o carro escorregadio. Quando entrei na reta, passei o Guaraná no retão, fui para primeiro e, no final do retão na curva três, freei. O carro escorregou no próprio óleo e bati no muro... Fiquei parado lá...

Mas foi uma corrida sensacional, porque largamos em último, a Brasília era uma novidade que só eu tinha, e vim passando todo mundo até liderar a corrida. E, com essa Brasília, acabei sendo bicampeão em 74. Aqueles aficionados, mesmo, que acompanham o automobilismo há muito tempo, sabem que essa Brasília realmente marcou época.

Outro detalhe legal é que, naquela época, a Divisão 3 tinha alguns carros até 1.600 cc classe A e classe C (carros acima de 4.000cc), Opalões e Mavericks. E eu, com essa Brasília 1.600, muitas vezes andava junto ou até na frente dos carros grandes. Dessa forma, conquistei uma torcida muito grande em 74 em função dessa história do brasileiro torcer para o mais “fraco”; o pequenininho brigando contra o grandão. Bons tempos!

Tempos em que a Stock Car nem tinha nascido. E hoje está aí, completando 30 anos, numa excelente fase. Estamos indo para a próxima etapa, a “Corrida do Milhão”, dia 31/8 no Rio de Janeiro. E pensar que tudo começou com um grupo de apaixonados, que muitas vezes colocou dinheiro do bolso para manter a categoria. Onde durante muitos anos não sabíamos se teria ou não a temporada seguinte... Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história.

Abraços e até a próxima!


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