Coluna Warm Up: Havia um alemão...
Flavio Gomes
25/07/2008 - 14:59

Domingo, 25 de agosto de 1991. Do alto daquele pódio, em Spa-Francorchamps, cinco títulos mundiais nos contemplavam. Quase seis. Três pertenciam àquele já veterano vestido de amarelo, que já pensava em pendurar o capacete. Outros dois, ao rapaz de vermelho que, no final daquela temporada, colocaria mais uma taça de campeão na estante.

Não muito distante dali, já sem o macacão verde que nem suou, pois sua corrida durou poucos metros, um jovem de queixo pronunciado negociava para a etapa seguinte uma vaga no mesmo time do veterano de amarelo. Ele já tinha apresentado seu cartão de visitas na véspera, ao classificar o carro da pequenina equipe na sétima posição do grid. Era seu primeiro GP.

Nelson Piquet, da Benetton, e Ayrton Senna, da McLaren, guardaram seus troféus naquele 25 de agosto e cada um foi para seu canto cuidar da vida. Tinham preocupações bem distintas. O primeiro, com o futuro próximo. Não tinha contrato algum para o ano seguinte e ninguém parecia muito interessado em seus caros serviços. Talvez já fosse hora mesmo de parar. O outro abrira uma ótima vantagem na classificação, mas sabia que já não tinha mais o melhor carro do grid. O título de 1991 estava praticamente assegurado. Mas os anos que vinham pela frente seriam complicados. Assim que a Williams de Nigel Mansell parasse de quebrar, seria imbatível com seus motores Renault e seu sofisticadíssimo sistema de suspensão ativa.

Nenhum dos dois imaginava, nem remotamente, que a cena da qual tinham acabado de participar — dois brasileiros no pódio numa prova de F-1 — só seria vista longos 17 anos depois. Não na Bélgica, mas na Alemanha. Justamente a terra do garoto que estreara naquele 25 de agosto pela Jordan, um tal de Michael Schumacher, patrocinado pela Mercedes-Benz, que achava que ele tinha talento para, quem sabe, resultar em alguma coisa na categoria.

Há mais do que coincidências nessa pequena história contada acima. Há simbolismos. Da estréia de Schumacher até domingo passado, nunca mais dois brasileiros foram juntos ao pódio na F-1. É a medida certa do estrago que o heptacampeão causou na auto-estima do torcedor verde-amarelo de poltrona, aquele que, durante anos, odiou o alemão como se fosse dele a culpa pela aposentadoria de Piquet e pela morte de Senna.

Nem uma coisa, nem outra. Mas Schumacher foi, sim, agente participante do ponto final das carreiras de ambos. Nelson sentiu que não tinha mais idade para acompanhar o ritmo de moleques como aquele, que já na prova seguinte passaria a ser, aos 22 anos de idade, seu companheiro na Benetton. O tricampeão percebeu que era a hora de tirar o time de campo. Ayrton morreu quando Michael já fizera 20 x 0 nele na classificação do Mundial de 1994. Sem Prost e Mansell para brigar, o primeiro aposentado e o segundo exilado nos EUA, o brasileiro encontrara um rival à altura, duríssimo de bater.

E eis que, 17 anos depois daquele distante 25 de agosto, Nelsinho e Massa sobem juntos ao pódio em Hockenheim. Para aquele fanático da poltrona, que confunde patriotismo com torcida, exagerado e otimista além da conta, é o sinal claro do início de uma nova era. Afinal, já não há mais Schumacher nenhum na pista para atrapalhar...

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