F-1 começa a viver 'Aloncentrismo' para 2009
Warm Up
16/07/2008 - 13:31

Montagem Warm Up/Bruno Vicaria

A Terra já viveu sua fase heliocêntrica e teocêntrica; na F-1, é "aloncêntrica"


VICTOR MARTINS
de São Paulo


Foi o piloto de testes da pior equipe do campeonato, Vitantonio Liuzzi, da Force India, que disse a frase mais valiosa dos últimos dias sobre o que vive a F-1 — e isso desde o ano passado: "Tudo gira em torno de Fernando Alonso". E é verdade. Nenhum movimento será dado até que o espanhol decida para onde vai, ou se fica no pé em que está, em 2009. Diz Alonso que só vai fazer um anúncio em setembro, nos mesmos moldes de Michael Schumacher há dois anos.

O bicampeão foi peça fundamental na composição do grid deste ano assim que ficou definido que deixaria a McLaren após ano mais do que conturbado com Lewis Hamilton e Ron Dennis. Flavio Briatore falou "yo soy la garantía", Alonso acreditou e resolveu voltar à Renault, tendo como companheiro alguém que não seria oposição ferrenha, Nelsinho Piquet. Giancarlo Fisichella já havia sido dispensado pela porta dos fundos e se mandou para a FI e Heikki Kovalainen pegou o lugar de Fernando no time de Woking.

E 2008 tem sido um ano de muitas alternâncias nos comentários e poucos resultados em pista. A Renault vem ao menos livrando a cara de Fisichella e Kovalainen, que no ano passado não alcançaram nada além de um segundo lugar — do finlandês no aquático GP do Japão — e sofreram com um carro ruim. Alonso não conseguiu fazer ou transformar o R28 um carro vencedor. E por isso ora fala que tudo está na fossa negra e parece jogar a toalha, ora mantém a esperança e deixa escapar um ou outro elogio.

Enquanto não definir em que equipe estará, a F-1 tende a viver uma letargia e um escondido espetáculo de rumores e conversas de bastidores. Os caminhos não são muitos para aquele que quer voltar a vencer, até pelos atalhos que apresentam. Não para 2009, no caso. A história do Banco Santander na Ferrari para 2010 é forte e coincide com o fim do contrato de Kimi Raikkonen, cujos amigos já soltaram que o nórdico não quer mais seguir essa rotina intensa sem que aproveite as regalias de sua existência. O Santander não vai querer simplesmente a Ferrari só pelo vermelho de seu logotipo.

Se assim for, Alonso teria (mais) um ano de transição. A BMW Sauber não aceitaria isso; a Red Bull, que demonstra um recrudescimento interessante, idem. A Renault estaria disposta, talvez, afinal vai montar um super esquema para provar que pode dar o pulo e apagar os vexames pós-títulos e convencer o asturiano a permanecer. Difícil que a Ferrari desfaça o contrato de qualquer um de seus pilotos, ainda que nenhum deles ganhe o título — e que, neste caso, deixaria Felipe Massa em situação delicada. A Honda já mostrou interesse em Alonso, mas não há o mínimo sinal de uma via de mão-dupla — e quem não quer Alonso? Só a McLaren, óbvio, que está satisfeita com Hamilton-Kovalainen.

Mas supondo que todas as equipes pretendam disfrutar das benesses da qualidade inegável de Alonso, a mobilização será gigantesca. Começando pela BMW, que tentará amarrar Robert Kubica até quando puder e até deixa puxarem o cadarço para que Nick Heidfeld se vá. Na Williams, com um patrocinador "made-in-Arabia", petrodólares entrarão, mas provavelmente insuficientes para atrair Alonso. De qualquer forma, lá Nico Rosberg e Kazuki Nakajima não são certezas. O primeiro pelo que disse agora, a conversa do contrato do compatriota alemão Lukas Podolski, que assinou contrato para jogar no Bayern München: "Mas ele estará lá?", deixou no ar Rosberg, aplicando a si o caso. O segundo por ser piloto Toyota, que tem interesse em ter o japonês, que provavelmente faria algo melhor do que os constantes erros de Timo Glock.

Então se vislumbra uma vaga na Williams e um Glock a pé para o ano que vem. Tem também a da Toro Rosso, caso a Red Bull promova a "subida" de Sebastian Vettel. Porque, vai saber, a Red Bull, por mais que a cúpula seja contra a idéia de ter Alonso por uma única temporada, veja um lado interessante do ponto de vista do marketing, o piloto da terra das touradas na equipe dos touros. Na STR, a presença de Gerhard Berger pende para Bruno Senna. Se o dirigente austríaco não conseguir negociar um bom lugar para o brasileiro, tipo piloto de testes da BMW ou da Honda — com Petrobras —, já põe o atual vice-líder da GP2 para correr na equipe que coordena com Dietrich Mateschitz. E lá, também, tem o problema Sébastien Bourdais, que não se acha no novo carro, e a F-1 não tem muita paciência, e sabe como é, a serventia da casa logo se abre.

O caso da Honda. A Honda prometeu um carro diferente do ecológico do ano passado, mas veio com o mesmo conceito em quase tudo. Portanto não tem muito argumento para dobrar Alonso. Tem dinheiro, claro. E tem Ross Brawn, que faz uma diferença grande. Nick Fry, que não faz muita diferença, já chegou a declarar que só um dos pilotos fica para a próxima temporada, isso logo após o pódio de Rubens Barrichello no GP da Inglaterra. Caso não contrate Alonso, um dos cockpits pode estar garantido a Takuma Sato, que sobrou com a falência da Super Aguri e que ficou sem o carro número 6 do meio desta temporada em diante porque Piquet "melhorou". E se Sato não for para Renault nem para a Honda, vê na Force India sua única chance, torcendo para que a montadora japonesa forneça ao time indiano motores e o sistema KERS.

É importante ver o que vai restar à Williams. Glock? Difícil que lhe dêem uma terceira chance. Heidfeld e Button? Retornos não muito possíveis. Lá deve ser a área de atuação de Bernie Ecclestone e sua influência para colocar o campeão da GP2, agora ameaçada por esse "campeonato-vingança", a F-2, que a FIA do acuado Max Mosley pretende criar. Atualmente é Giorgio Pantano, fato que deixa Bernie com seus cabelos muito mais alvos.

Todo este contexto cíclico começa a ser formado. Depende, e só depende, do movimento de um piloto. O pós-GP da Itália, como aconteceu em 2006, quando Schumi anunciou minutos após sua vitória a despedida, será aguardado com expectativa. A F-1 vive e revive o "Aloncentrismo".



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