Diários de Despedida: Campo Grande
Ingo Hoffmann
09/07/2008 - 08:44



Como Campo Grande é uma pista nova no circuito, não tenho grandes memórias ou histórias para contar. Então vou falar de uma corrida que aconteceu num autódromo que não existe mais: Goiânia.

Antes de contar isso, gostaria de falar o seguinte: de um lado o automobilismo cresce, com categorias fortes; por outro lado os autódromos estão cada vez mais literalmente acabados. Começando por Goiânia, Guaporé, em que a gente não corre mais também, Cascavel, a pista completa de Brasília e todos os autódromos em que a Stock Car corria no passado na pista total.

Outro autódromo que vai para o mesmo caminho é o de Campo Grande. É impraticável correr nessa pista, onde o desgaste de pneus é enorme. É só ver os dados da prova desse domingo: largaram 34 carros, a metade parou para trocar pneus no meio, coisa que nunca aconteceu na Stock Car no passado. Eu não parei, mas cheguei com pneus zero de aderência, com o carro inguiável. Eu e muitos outros. Basta ver o ritmo da corrida: comecei virando 1m31s, os líderes acabaram no 1min34, 1min35s e eu no final virava 1min40s. Óbvio que estava com os pneus totalmente acabados. Isso em decorrência quase que exclusivamente das condições do asfalto do autódromo. Uma pena, porque o automobilismo por um lado cresce e os autódromos estão cada vez mais abandonados.

Bem, agora vamos ao caso que aconteceu em Goiânia. Foi em 1983. Naquele ano eu era patrocinado pela Shell, um mega patrocinador, tremenda multinacional. No carro eu tinha um produto que chamava Shell Luma, um óleo que a Shell estava lançando naquele ano. Obviamente, em função de ter uma marca tão importante no meu carro, eu me sentia com uma tremenda responsabilidade de buscar resultados, ganhar corridas, dar retorno, etc...

Naquela época eu ainda era muito influenciado com essa questão de patrocínio, até já contei essa história em outra coluna quando relatei um fato que aconteceu comigo em Brasília, onde aprendi a lidar com a pressão. Essa história aconteceu antes da de Brasília. Bem, comecei a temporada muito mal, ou seja, como esse ano... Não tinha resultado, classificação, não marcava pontos, um inferno... Fui entrando num estado literalmente de neura. Precisava de bons resultados.

Ai fomos para a etapa de Goiânia, era 1983, corria de Opala 6 cilindros, e cada um podia preparar os seus motores, diferentemente do que é hoje. Na classificação não obtive um bom tempo, não me lembro exatamente, sei que larguei lá pelo meio do grid. Sabia que não tinha chance nenhuma... No domingo de manhã, amanheceu chovendo. Foi chegando perto da hora da corrida e a pista totalmente molhada, a chuva parecia que ia parar, ou seja, aquelas condições em que ninguém sabe qual o pneu acertado a ser utilizado.

Naquela época o meu preparador era o Adonis Zagne, o apelido dele era Lord, faleceu recentemente, morava em Portugal. Antes de abrir box, falei para ele: “Olha, Lord, vou sair com pneus slick para ver como está a pista, se achar que não dá, no grid a gente põe pneu de chuva, senão a gente fica com esse pneu”. Saímos assim, eu e outro piloto, um goiano chamado Edmar Ferreira, que corria de moto, muito rápido. Todos os demais foram com pneus de chuva. Dei uma volta e percebi que o carro tinha um bom 'grip', mesmo com pista molhada. Pensei, se eu parar no grid agora, todo mundo vai vir me perguntar o que eu achei e eu não vou dar bandeira, senão o grid inteiro vai trocar para pneus slick.

Assim que parei no grid, o Lord veio direto falar comigo: “E aí, Ingo?” Eu falei: “Lord, dá para andar assim. Eu vou largar de slick, mas nós vamos fazer um teatro. Vamos fingir que vamos colocar pneus de chuva”. Nisso, alguns pilotos vieram falar comigo: “E aí, Ingo?” E eu: “Realmente não dá, vamos trocar para pneus de chuva.” E fizemos isso. Eles levantaram o carro e deram uma de ator: simularam que uma das porcas travou e a roda não saía. Essa história é lembrada até hoje. Quando levantaram a placa de três minutos, baixamos o carro, fingindo que não conseguimos trocar os pneus.

Ai largou. Nas primeiras voltas fiquei me segurando, ai a pista foi secando e eu passando todo mundo e desapareci em primeiro. Longe mesmo, quase uma volta. Até que começou o drama. A temperatura do motor começou subir, subir, subir, e pensei: “Porra, vou perder essa corrida porque o motor vai ferver. Mas a vantagem que eu tinha era tamanha, que comecei a usar a seguinte técnica: entrava na reta, acelerava e desligava o motor, mantendo o pé no fundo do acelerador para deixar o carburador aberto e assim entrar gasolina para refrigerar um pouco o motor. Não sei se funcionava ou não, só sei que andei assim nas oito voltas finais. Chegava no fim da reta, ligava o carro de novo, pegava no tranco e ia. Enfim, consegui levar o carro até o fim desse jeito. Ganhei a corrida. Quando fomos ver o motor depois, estava seco, não sei como agüentou. Foi um puta de um alívio, por causa da pressão que estava por causa do patrocínio.

Quando acabou, todo mundo dizia: “Pô, o Ingo ganhou na sorte, porque a porca ficou travada no grid...”. Ninguém se tocou que era tudo uma encenação. O outro piloto, Edmar Ferreira, chegou até a me passar, quando tive problemas no motor, mas depois ele parou com problemas também. Essa foi uma história engraçada da pista de Goiânia.

Se for fazer um paralelo com a Stock Car de hoje, estou numa situação muito parecida. Tivemos cinco etapas, marquei pontos apenas em Santa Cruz do Sul, com a 11ª colocação, ou seja, cinco pontos em cinco corridas. É extremamente ridículo. Eu, hoje, se não tivesse toda essa experiência que adquiri ao longo dos anos, também me sentiria nessa tremenda pressão de ter de dar retorno para os meus patrocinadores, mas sei que tanto eu como a equipe estamos fazendo o melhor. Talvez esse melhor não seja bom o suficiente para estar lá. Assim sendo, todos nós temos de achar o que tem de ser feito para melhorar a performance da equipe. Automobilismo é isso, não é a primeira vez nem será a última. Faz parte.

Outra questão que tenho analisado com relação à temporada desse ano é uma coincidência muito feliz que aconteceu nessa temporada. Como todos sabem, na abertura da Stock Car fiz a pole-position e anunciei a minha decisão de me despedir da categoria, sentado na pole, um sonho que sempre tive, de anunciar minha aposentadoria de uma forma competitiva. E sei que isso gerou alguns receios dentro da equipe, pelo fato deles pensarem: “Pô, vamos perder o Ingo...”. Sei da importância que tenho dentro do contexto da equipe AMG.

Agora, nada como um dia depois do outro. Passadas cinco etapas, eu com esse desempenho abaixo da crítica, e a decisão está tomada, foi anunciada lá atrás. Resumindo, o que quero dizer com isso é o seguinte: se não tivesse tido a oportunidade de anunciar minha despedida lá na pole-position, iria anunciar isso agora no meio do ano, e num momento crítico, difícil para todo o time, e poderia gerar frustrações enormes para o pessoal da equipe.

Por isso, estou compartilhando esse assunto aqui no Diário, como um desabafo, e é até uma mensagem que quero passar para a AMG: sei que eles estão fazendo o melhor; e que bom que anunciei isso quando estávamos por cima. Pois imagino como eles poderiam se sentir se tivesse de dizer isso agora. Poderiam achar que estava fazendo isso por não estar competitivo. A decisão foi tomada independente de qualquer coisa, já estava dentro de mim há tempos, não foi de repente, foi muito bem pensada. Seria esse ano de qualquer maneira.

Acabei misturando histórias do passado com o atual momento. Mas estou relatando aqui no meu Diário de Despedida não só as minhas histórias, minhas lembranças, meus sentimentos, como também o meu momento. Ter a liberdade de falar sobre o que quiser. É isso que quero passar para vocês. E dizer que está sendo um prazer sentir a repercussão que está tendo, tantas manifestações.

Abraços e até a próxima.

Índice dos Diários

Capítulo I: Brasília

Capítulo II: Curitiba

Capítulo III: Santa Cruz do Sul


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