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Acontece nas melhores equipes
Roberto Brandão 07/07/2008 - 17:47
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Durante a década de 60, a acirrada disputa entre as equipes de fábrica brasileiras criou um mecanismo de promoção e divulgação do esporte e de seus produtos, no mínimo, inusitada e inteligente.
A maioria dos pilotos contratados pela Vemag, Willys, Simca e JK era paulista, carioca ou gaúcha. Quando as corridas aconteciam fora destes Estados, as fábricas costumavam montar esquemas de maneira a colocar em seus quadros os ídolos locais. Tal fato acontecia com mais freqüência nas cidades do Norte e Nordeste do Brasil, e cada equipe tinha sua estratégia.
A Willys, por exemplo, poderosa equipe amarela, costumava escolher um ou dois pilotos locais, que usavam sua marca, e preparar seus carros da mesma forma que os oficiais, com os mesmos equipamentos e peças, fazendo com que a fábrica viesse a marcar mais pontos no campeonato nacional, além de conquistar o público local, que veria seus velozes corredores competindo com chances contra os poderosos do Sul.
Já a Vemag costumava levar um ou dois carros a mais e cedê-los aos ídolos locais, tornando-os, nem que fosse por uma corrida, parte da equipe oficial de fábrica, convivendo com os ídolos nacionais da época, além de contarem com carros competitivos, ajudando a fábrica a marcar pontos no campeonato e, o mais importante, a atrair a simpatia do público local para seu veículo, seu produto, sua marca.
Em 1966, no Recife, o ídolo local era Gegê Bandeira — Geraldo Bandeira de Mello, de família tradicional e importante, um grande piloto que conhecia o percurso da Cidade Universitária como poucos. A equipe DKW havia lhe designado a carreteira Mickey Mouse, enquanto Marinho e Jan Balder iriam com o Malzoni, a grande estrela da equipe.
Nos treinos, sexta e sábado, Gegê Bandeira deu um banho em Marinho, sendo sempre mais rápido e eficiente que a estrela da Vemag, o especialista em corridas de rua. Por mais que mudassem as regulagens, Gegê continuava mais veloz e consistente que Marinho. Estava atrás apenas dos poderosos e importados Simca-Abarth.
Na véspera da corrida, já desesperado, sem conseguir os ajustes, Jorge Letry voltou à garagem onde estavam os carros da equipe e mandou os mecânicos desmontarem a carreteira Mickey Mouse, retirarem todo o power-train, motor, câmbio e diferencial, para que fosse instalado no Malzoni de Marinho. Por sua vez, toda a força motriz do Malzoni foi colocada na carretera.
No treino de aquecimento, antes da corrida, Gegê logo notou a diferença e questionou o chefe da equipe, reclamando de seu carro. Quando viu o desempenho de Marinho, andando muito melhor e mais rápido que nos dias anteriores, imaginou o que havia acontecido e, mais irritado ainda, confrontou o poderoso Letry.
O chefe da equipe DKW esclareceu que jamais faria uma coisa dessas e apenas tinham encontrado o acerto mais correto para o carro de Marinho e que não sabia o que estava acontecendo com a carretera, mas provavelmente o piloto havia forçado demais nos treinos e agora o desempenho já não era mais o mesmo.
No entanto, testemunhas e a lenda corroboravam a desconfiança de Gegê. Quando cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, Marinho talvez tenha recebido a maior vaia de sua carreira. O público, que soubera da história na base do boca-a-boca, estava inconformado, apesar da insistência da equipe em negar o ocorrido.
Uma estratégia pouco adequada, para dizer o mínimo, para quem desejava promover seus produtos e sua marca. Mas, como se pode ver, acontece nas melhores equipes. E há tempos...
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