Bem, em relação à Santa Cruz do Sul, por ser uma prova nova no calendário – a primeira foi em 2005 -, não tenho muita história para contar; essa foi a quarta vez que andei nessa pista. Então, resolvi falar de outra pista do interior do Rio Grande do Sul, que é Guaporé, onde fiz minha estréia na Stock Car em 1979, numa corrida extremamente marcante, no contexto em que aconteceu.
Quando voltei ao Brasil, no fim de 1978, tinha vencido a última corrida de F-2 na equipe do Ron Dennis, em Buenos Aires. A F-2 era o último degrau para quem quisesse ir à F-1, extremamente competitiva, e também glamourosa. E venci essa corrida. Aí tomei a decisão de voltar a correr no Brasil.
Em 1979, estava começando a Stock Car. A primeira corrida foi em Tarumã e eu não participei, pois o carro não ficou pronto a tempo. No fim de semana seguinte fui para Guaporé, fazer a estréia ao volante de um Opala seis cilindros coupé, que naquela época era usado na categoria, que nós pegamos no departamento de carros usados de uma concessionária em São Paulo, a Pompéia Veículos.
Bem, logo nos primeiros treinos já vi que estava ferrado. Meu carro era um lixo, uma porcaria. Tinha um cara para me ajudar, um mecânico da concessionária, que virou mecânico de pista e não entendia nada. Bem, a história já começou a caminho de Guaporé: primeiro, a gente saia de Porto Alegre, alugava um carro e andava uns 70 km de estrada de terra, coisa que não estava mais acostumado, pois vinha da Europa, outro nível, hotel cinco estrelas, aquela coisa chique.
Mas a ficha caiu, mesmo, no momento em que me vi deitado embaixo do carro trocando amortecedor, pois o mecânico que tinha comigo era um zero à esquerda. Eu nunca fui muito chegado em mecânica, mas pensei: “Se não botar a mão na graxa para resolver, não vai sair nunca do lugar...”. Foi um momento extremamente marcante. Pensei: “Puta merda, o que estou fazendo aqui?”
Ah, e tem o seguinte: quem viabilizou a minha vinda para Stock Car foi a GM, que queria pilotos de nome para alavancar a categoria, nova na época. Então, estava aquele buxixo todo, “O Ingo tá voltando, vai correr na Stock”, tinha muita mídia em cima de mim.E mais um detalhe: os boxes de Guaporé, naquele tempo, eram de terra. A pista era de asfalto, mas os boxes, de terra. E me peguei deitado no boxe de chão de terra, trocando o amortecedor de um Opalão. Pensei: “Olha que contraste, há quatro meses estava vencendo a última corrida de F-2, como disse, num puta glamour, na equipe do Ron Dennis e, alguns meses depois, estou aqui, nesse estado, com a imprensa toda em volta...”
Bem, fui para a classificação e fiz o último tempo, a um segundo e meio do penúltimo. Imagina... Se pegar hoje em dia que em um segundo temos quase o grid inteiro da Stock Car, os caras estavam na Lua, e eu, na Terra. Até pensei: “Quando largar, vou para cima”. Larguei e fui ficando cada vez mais para trás; cada vez mais os caras se distanciavam de mim. Até que, na hora em que ia levar uma volta do líder, se não me engano era o Affonso Giaffone, fiz de conta que o carro quebrou, parei na pista e voltei a pé para os boxes. Todos perguntavam: “O que aconteceu Ingo?”. Respondia: “O carro quebrou”.
Esse momento na pista de Guaporé foi extremamente marcante na minha vida. Pensei: “Puxa, que nova realidade essa. Preciso ter um foco e batalhar. Se quero correr de carro, tenho de começar debaixo, de novo”. Tenho certeza que muitas outras pessoas não teriam enfrentado essa parada, com vergonha, ou orgulho.
Assim, determinado, fui começar a aprender o negócio e, no ano seguinte, já fui campeão. Tive de me recondicionar na pilotagem, aprender a pilotar carros de turismo, pois o fórmula que pilotava era completamente diferente. Esse foi um grande aprendizado, em Guaporé.
Alguns anos depois, me restabeleci no automobilismo nacional. Naquela época, existia uma invasão muito grande de brasileiros lá fora, que tentavam carreira internacional. Tinha um piloto, não me lembro nem o nome dele, era do Sul, venceu na F-Ford e foi tentar carreira internacional. Lembro muito bem de uma entrevista dele na Quatro Rodas. O repórter perguntou qual era o objetivo, ele respondeu: “Quero chegar na F-1; aliás, todo mundo queria chegar na F-1”. “E se não der certo, o que você fará?”, perguntou o repórter. E ele: “Volto para o Brasil, mas não quero me tornar um Ingo Hoffmann”, como se fosse um puta demérito o que eu estava fazendo, tipo, depois de andar de F-1, correr de Opala, de Fiat, enfim, de tudo que tinha por aí. Bem, o cara sumiu... Olhando para trás, tenho muito orgulho, pois dei a volta, após começar de baixo de novo.
Outra história legal de Guaporé: no início dos anos 80, foi feito no Brasil um campeonato de Marcas e Pilotos. Corria com um Chevette e tinha dois companheiros de equipe: um era o Marcos Gracia, e o outro, o PQP – Pedro Queiróz Pereira, um português, super amigo meu hoje, mas era um cara que corria de rali. Naquela época, Guaporé estava cheia, não tinha lugar para dormir. Muitas vezes, dormíamos em Nova Prata e, para chegar lá, tínhamos duas opções: estrada de asfalto, 80 km de distância, ou estrada de terra, 20km. Bem, nem preciso dizer que a nossa brincadeira era fazer os 20km de estrada de terra, obviamente, disputando para ver quem seria o mais rápido, né? Era bem legal; imagina: moleques, sem responsabilidade nenhuma... Era tudo divertimento!
Mas Guaporé é um lugar que sempre me agradou, parece um jardim, supercolorido, super bem-cuidado, assim como Santa Cruz do Sul, mas tem uma infra-estrutura pequena para receber a Stock Car hoje. É um lugar maravilhoso. Faz alguns anos que não corremos mais lá. Aliás, a última vez foi em 2002, lembro bem, pois foi a última vez que corri lá, e foi o ano do último título que conquistei, o 12º. Foi justamente em Guaporé que comecei minha virada em cima do Chico Serra, que estava liderando o campeonato. Ele ainda saiu de lá liderando, mas nessa corrida consegui diminuir bem a diferença. Lembro que fazia um baita frio e na volta de aquecimento, percebi que o motor estava muito frio, morrendo com facilidade. Pensei: “Na hora de largar, tenho de botar bastante giro no motor”. E foi o que fiz, larguei bem e o Chico ficou parado, o Duda Pamplona ficou parado. Passei o Chico na largada, e cheguei na frente dele na corrida. Foi o começo da minha recuperação.
Em relação ao Sul em geral, o que mais me agrada é a receptividade do povo gaúcho. A gente percebe realmente que os gaúchos são apaixonados por automobilismo. A gente vê neguinho acampado no autódromo já na quarta feira. Isso é bacana! Em função dessa paixão, é prazeroso correr num lugar desses, pois dá para perceber que o cara está lá porque curte mesmo, conhece, acompanha, gosta. Desde que anunciei minha despedida da Stock, tenho sido abordado por várias pessoas nas cidades em que passamos. Mas realmente, em Santa Cruz do Sul, fiquei impressionado com o número de pessoas, das mais variadas, que apareceram para conversar comigo. “Ô Ingo, não pára...”. Isso dá muita satisfação.
Bem, quanto à corrida, finalmente consegui desencantar e marcar meus primeiros pontos esse ano. Espero que daqui para frente consiga pontuar com constância para tentar uma vaga no playoff. Mas nesse momento, o primeiro degrau é classificar minha equipe, a AMG.
Abraços e até a próxima!
Índice dos Diários
Capítulo I: Brasília
Capítulo II: Curitiba