Diários de Despedida: Brasília
Ingo Hoffmann
06/05/2008 - 00:25

Bruno Terena/Grande Prêmio


Olá.

A partir dessa prova estarei com vocês, leitores do site Grande Prêmio, para fazer uma espécie de Diário de Despedida — como resolvemos chamar —, pois anunciei na primeira etapa, em São Paulo, a minha despedida da Stock Car ao final desta temporada. Mas pra ser bem franco, não sinto como se estivesse me despedindo...

Eu sei que é o último ano, mas eu não me sinto assim. O que sinto é uma sensação de alívio, de dever cumprido... Como vou explicar? É um pensamento que fica na minha cabeça o tempo todo... No momento em que anunciei, foi como se tivesse tirado um peso das costas. Mas quando eu entro no carro, quero ser competitivo. Então, eu fui pra Brasília sem essa sensação de vai ser a última vez pilotando um Stock lá. Ano que vem vou estar em BSB de novo em outra condição, sem o estresse que eu mesmo coloco na cabeça quando estou competindo.

Segui a mesma rotina de sempre, mas estou mais leve, isso é verdade. Estou com a real sensação de dever cumprido, apesar de estar iniciando o campeonato. Quero ganhar corridas, quero ser o mais eficiente possível. Mas se olhar pra trás, puta, conquistei tanta coisa... Quando voltei pro Brasil, no início da Stock Car em 1979, estava devendo dinheiro, estava fodido, meu sogro arrumou um apartamento, pois não tinha nem onde morar.

Analisar o que consegui fazer nesses 30 anos é louvável. Essa que é a sensação de dever cumprido. Anunciei na hora certa, vou parar no final do ano e muitas pessoas do meio que vêm conversar comigo falam: "Que bacana, você fez da maneira correta, parar competitivo". E esse tipo de reconhecimento é importante.

Um negócio que me marcou neste fim de semana: na sexta-feira, um cara de uns 40, 50 anos me interpelou e disse: "Oi, Ingo, vi que você anunciou que vai parar e tal. Eu queria te agradecer por tudo que você proporcionou pra mim durante toda sua carreira". Me apertou a mão, virou as costas e foi embora... Pensei: "Pô, que coisa legal!". Isso é algo que de repente vale até mais do que homenagens, placa, faixa no peito, essas coisas. E isso tem acontecido diversas vezes. Ouço também: "A Stock não vai ser a mesma sem você, você é um cara brigador". Um jornalista também que me entrevistou sexta-feira no autódromo. No final, desligou o gravador e disse: "Quero dizer que sou seu fã, cheguei aqui no autódromo tinha 14 anos, acompanho suas corridas desde então".

Brasília me remete a várias lembranças legais. Foi uma pista importante em minha carreira, onde tenho muitas histórias e aprendizados. Em 1974 corri lá pela primeira vez, na Formula Super-Vê. Venci duas baterias de forma brilhante, e só não venci a prova porque na terceira bateria (naquela época a Super-Vê tinha três baterias) o motor quebrou...

Foi lá que em 1984 aprendi uma de minhas maiores lições como piloto: correr para mim mesmo. No início da temporada daquele ano, eu não tinha nenhum patrocínio, e Brasília abria o campeonato. Resolvi correr bancando os custos. Fiz a pole, a melhor volta e venci. Depois dessa prova, ao fazer um balanço, percebi que devido ao fato de não ter nenhum patrocinador no carro, não me sentia na obrigação de "vencer", ou seja, estava correndo para mim mesmo, e tive uma performance muito boa. Percebi que esta tinha sido a corrida que mais tinha "curtido" em minha vida, mesmo já tendo vencido muitas provas antes. Depois disso, adotei este pensamento, "correr para mim". Venci o campeonato de 1984 com esta "nova mentalidade".

Outra lembrança que me ocorreu, chegando ao autódromo na quinta-feira, é que na década de 80, diversas vezes saíamos do autódromo para carburar, acertar freio, essas coisas, lá atrás do autódromo. Eram os Opalas...

Outra corrida, de Opala ainda, que aconteceu em Brasília. Essa era uma pista que exigia muito freio. Naquela época, os Opalas tinham freio a disco na frente e tambor atrás. Vinha numa corrida superbem, aí o freio foi acabando, acabando, e eu ia puxando o freio de mão para grudar a panela no tambor, mas mesmo assim acabou tudo, fiquei sem freio por completo, zero. E nessa pista tem uma coisa que hoje eu sei fazer bem, mas naquela época não sabia: chama-se pêndulo. No fim da reta, a gente balançava o carro para um lado e para o outro, diminuía a velocidade do carro e fazia a curva. E foi assim que terminei a corrida. Perdi posição claro, mas terminei a corrida.

Outra, que costumo contar nas minhas palestras, é de mais uma lição que aprendi numa corrida em BSB. Você, como chefe de equipe, dono de empresa, enfim, qualquer pessoa numa posição de liderança precisa saber colocar a pessoa certa no lugar certo.

O que eu quero dizer com isso? Um exemplo: no final dos anos 80, no Brasileiro de Marcas & Pilotos, eu corria de Chevette pela Chevrolet, a equipe era toda minha, e viemos para os Mil Km de Brasília. Eu corria com um piloto de Goiânia. Ele largou, estávamos superbem, em primeiro ou segundo lugar, aí chegou na hora do pit stop, ele entrou no box, desceu do carro, eu sentei, a equipe abasteceu, trocou os pneus, saí, entrei na reta dos boxes e a roda dianteira esquerda saiu do carro... Abandonamos a corrida. Obviamente eu estava puto.

Voltei ao box, e o mecânico que fez a troca de pneus — inclusive o encontrei sexta-feira no autódromo — era um cara que sempre foi um puta montador de câmbio, motor, ficava numa bancada, fazendo aqueles ajustes finos. A hora em que o coloquei uma situação de estresse, ter de trocar uma roda rápido, a adrenalina bloqueou tudo, ele largou a roda solta. Quando cheguei no box, ele já me disse: "Ingo, desculpe, você não precisa nem me mandar embora, peço minha demissão". Aí eu falei: "Peraí, Zé, não é nada disso, não, vamos conversar em São Paulo". Na verdade, o erro foi meu. Percebi que é preciso entender o perfil das pessoas que trabalham a sua volta, saber colocar a pessoa certa no lugar certo.

Agora algo diferente, que aconteceu dessa vez, foi a visita ao presidente Lula. Como disse e reafirmo, nunca votei nele, mas confesso que fiquei impressionado com seu carisma. Quanto à corrida em si, infelizmente não foi como eu estava imaginando que seria. Nos treinos livres com pneus usados, tínhamos um carro muito rápido, mas na classificação, com pneus novos, o carro simplesmente não respondeu, e acabamos ficando em 18º no grid de largada. Na corrida tive um pneu furado quando ocupava a oitava posição, o que me tirou da prova. E depois da segunda etapa, estou com zero ponto!

E vamos pra próxima!


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