Stop & Go: Ingo Hoffmann
Warm Up
13/04/2008 - 15:25



BRUNO VICARIA
de Interlagos


O Stop & Go deste fim de semana não poderia ser mais especial. Após anunciar que abandonará a Stock Car após uma história de 30 anos, Ingo Hoffmann conversou com o Grande Prêmio, ainda no calor do momento.

Tentando segurar ao máximo o choro em alguns momentos, o “Alemão” comentou sobre a satisfação de pode fazer este anúncio ocupando a primeira posição do grid de largada, disse que calou a boca de muita gente, relembrou as emoções que se passaram naqueles instantes e detalhou como decidiu comunicar sua aposentadoria instantes antes da largada para a etapa de abertura da V8.

Enquanto comia o bolo comemorativo dos 30 anos de categoria, oferecido pela família, o veterano de 55 anos, que possui 12 títulos, 76 vitórias e 61 pole-positions apenas na Stock Car, revelou que continuará no automobilismo, como piloto do GT3, e participará da Stock Car como consultor e piloto do carro de dois lugares.

Sem mais delongas, vamos à entrevista:

Grande Prêmio Como foi tomar esta decisão? Obviamente, foi muito difícil, creio.
Ingo Hoffmann: A decisão já vem na minha cabeça há algum tempo, no sentido de achar o momento certo. E a pergunta sobre quando vou parar sempre foi feita, para ser honesto, há anos pela imprensa. Faço muitas palestras e o pessoal também costuma perguntar. E sempre pensei o seguinte: quero parar competitivo, ainda. Acho que chegou a hora: 30 anos na Stock Car, 37 anos de profissão no automobilismo, 55 anos de vida... Poder tomar esta decisão e anunciá-la, parado na pole-position do grid, é impagável. Essa é uma preocupação que sempre tive, pois sei que daqui cinco, dez anos, quando já não tiver mais nada no automobilismo, vou poder olhar para trás e ver que tomei esta decisão na hora certa, quando ainda estava competitivo e disputando de igual para igual com a garotada. É impagável.

GP: O que se passou na sua cabeça na hora de comunicar a decisão?
IH: Ah, foi difícil. Travei, a voz ficou bem embargada. Chorei, né! Foi uma decisão difícil, pois é a minha vida. Tudo o que conquistei na minha vida inteira foi no automobilismo. Então, foi super difícil e vai ser difícil em toda a vez. Por exemplo, falando com você agora já fico super emocionado (a voz de Ingo fica embargada neste momento). Foi a hora certa de fazer.

GP: Quanto tempo durou, dentro da sua cabeça, a volta de apresentação após o anúncio?
IH: Eu consigo me focar muito rápido. Me impressiono, de vez em quando, com minha capacidade! Quando parei no grid e vi o repórter da Globo (Edson Viana) ao meu lado, pensei: “Agora é a hora”. Perguntei para ele sobre qual seria a pergunta que ele iria fazer, e ele respondeu: “Sobre a estratégia de pit stops”. Aí disse a ele: “Não, eu vou anunciar que vou parar, pergunte-me isso”. Na hora, entrei no rádio, chamei o chefe de equipe, Maurício Matos, que estava calibrando o pneu do carro, e disse: “Mauricio, eu vou anunciar agora, quando a Globo me perguntar, que será meu último ano, e gostaria de agradecer a você, tal...” E começamos a chorar. Aí acabou a entrevista e me foquei, na hora, na corrida. Me surpreendo com a capacidade que tenho de sair do emocional para o profissional. Vou poder fazer minha última temporada da mesma forma que os pilotos norte-americanos, a “Farewell Season”, ou “Temporada do Adeus”. Não pretendo abandonar 100% minha carreira de piloto; pretendo continuar no GT3, que é menos exigente. A próxima etapa, em Brasília, certamente será minha última de Stock Car lá. Vou tentar capitalizar e tentar fazer uma festa bonita em cima disso. É um sonho que sempre tive lá atrás e só posso agradecer a Deus por ter me dado a oportunidade de fazer a pole na primeira etapa da temporada 2008, poder anunciar isso parado na posição de honra e curtir essa temporada com a idéia de que ela é a última.

GP: E como será deixar o carro da Stock Car pela última vez no dia 7 de dezembro de 2008?
IH: Acho que vai ser fácil. Vai ser tranqüilo, pois esta decisão já está na minha cabeça há algum tempo. Muitas vezes simulava este pensamento: “Vamos supor que não correrei mais, como ficaria?”. Percebi que estava super sossegado; porém vou continuar envolvido na categoria. Isso já está definido, também. Tudo está delineado. Devo assessorar um piloto; dois, talvez. Vou continuar envolvido, se Deus quiser, aqui na AMG, que é uma família para mim. E, também, vou montar um esquema onde devo pilotar o carro promocional de dois lugares. Isso é uma coisa que vou trabalhar agora, para o ano que vem. Depois de ter anunciado minha decisão, conversei com os patrocinadores e eles se mostraram interessados pelo assunto. Isso, com certeza, será um atrativo a mais: as pessoas poderem andar com o Ingo Hoffmann. Isso significa que vou continuar envolvido com a categoria, mas não correndo.

GP: Você considera que sua decisão coloca um ponto final em uma era do automobilismo brasileiro?
IH: Não, não sei se seria uma era, mas, para mim, é uma coisa marcante. Não sei se em qualquer outra categoria no mundo existiu um piloto que correu nela por 30 anos. Se tiver, são um ou dois. São poucos. Consegui tudo na minha vida na Stock Car. Ingo Hoffmann é sinal de Stock Car e vice-versa. Com certeza, você pode estar certo. Não quero me achar super prepotente, mas podemos dizer que este é o fim de uma fase importante da categoria.

GP: Como foi a reação da sua família?
IH: Eles já sabiam dessa decisão. Disse a eles no começo do ano que iria parar. Estava esperando o momento certo para anunciar. E, de novo, digo que foi um momento super especial, pois pude fazer isso na pole. Cheguei a confessar para algumas pessoas que, se tivesse ido para o pódio, falaria na coletiva de imprensa. Quando vi o cara da Globo lá, vi que era o momento certo. Foi uma luz que me iluminou e disse: “É agora que você tem de falar”.

GP: Resuma a Stock Car em sua vida em apenas uma palavra
IH: Uma palavra é difícil... De novo, não quero parecer prepotente, mas diria “sucesso”.

GP: Nos últimos dias, você estava diferente do habitual. Mais sereno, introspectivo, se emocionando rápido. Na coletiva pós-classificação você quase chorou. Você ficou com vontade de dar a notícia antes?
IH: É, pois é um pensamento que já estava na minha cabeça há alguns anos. Em 2006, já tinha tomado essa decisão, mas terminei o ano muito bem, com duas vitórias no playoff, e resolvi ficar mais um ano. Depois, resolvi que precisava tomar uma decisão, independente dos resultados, e tinha isso na cabeça. Agora que botei pra fora, que é oficial, está sacramentado. Não pretendo fazer como muitos jogadores de futebol que param e voltam. É sair e sair. Logicamente, sempre fico emocionado quando toco no assunto. As perguntas sobre meu abandono apareciam muitas e muitas vezes... O povo, em geral, tem esse anseio em saber e pergunta: “Quando você vai parar?” Parece que estava passando o meu tempo, já. E falar isso da pole-position mostra que vou parar sendo o mais rápido. De uma certa forma, calei a boca de todo o mundo. Como alguns da imprensa, que andaram dizendo no passado: “Pô, o Ingo já perdeu o tempo na Stock Car”, “Ele já está velho para a Stock Car”, ou coisas piores. Agora, calei a boca daqueles poucos que me diziam isso e foi perfeito.

GP: O que você vai fazer quando a "mão coçar" e der vontade de voltar?
IH: Não vai coçar. Vou correr no GT3, vou andar no carro de dois lugares; se der tempo, quero fazer rali. Com certeza, estarei envolvido. Graças a Deus, na posição que estou hoje, se “coçar minha mão”, como você disse, tenho oportunidade, pelo conhecimento, de pegar um carro de rali e brincar na fazenda. Enfim, isso não vai acontecer, não.

GP: E como vai ser ver alguém na Stock Car correr com o número 17?
IH: Boa pergunta. Essa é uma pergunta muito boa. Isso vai ser muito complicado, pois tenho uma afinidade muito grande com o número, ele me identifica para muitas e muitas pessoas. Sei de pilotos que são apaixonados pelo número 17. Não sei te responder agora, mas será complicado.

GP: Para encerrar: já está batendo saudade?
IH: Não, ainda não. Estou pensando na próxima corrida, em Brasília, em ser competitivo, em ir ao pódio, se Deus quiser. Vai ser assim até o fim do ano e não vai bater saudade.



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