Coluna Warm Up: Sou, mas quem não é?
Flavio Gomes
04/04/2008 - 18:04

Quando vêm à tona escândalos sexuais como o desta semana envolvendo Max Mosley, presidente da FIA, abrem-se vários flancos de discussão. Até onde vai a liberdade de invadir a privacidade de alguém? Figuras públicas precisam ser mais cuidadosas porque sabem que suas vidas são vigiadas? O que se faz na alcova interfere nas atividades públicas e profissionais de quem quer que seja? Podemos julgar alguém pelas chicotadinhas que leva? A afirmação “as preferências sexuais de fulano não importam a ninguém, são problema dele” é verdadeira?

Normalmente, não se chega a conclusão alguma. São discussões estéreis, porque os fatos se sucedem independentemente delas. A imprensa tem o direito de divulgar o que divulgou? Talvez não. Mas se eu tivesse essas imagens nas mãos, publicaria? Claro que sim. Gente famosa tem direito à vida privada? Claro. Mas tem de tomar mais cuidado com o que faz por aí? Claro, também. A vida sexual interfere na profissional? Evidente que não. Mas um cara que é flagrado de bumbum de fora levando tapinhas de moças sado-masô, famoso ou não, imagina que seu colega de trabalho vai olhar para ele da mesma forma no dia seguinte? Claro que não. Se o sujeito se dá o direito de ser bolinado daquele jeito, digamos, pouco usual, deve dar o direito aos outros de, igualmente, acharem tudo muito engraçado — referências nazistas à parte, porque essa é a parte séria da história.

À última das perguntas feitas no primeiro parágrafo é que posso responder com total convicção. A afirmação é mentirosa. Não sejamos hipócritas. As preferências sexuais das pessoas importam a todo mundo, afinal falamos disso o tempo todo. Você acha que eu vou ver o danadinho do Max Mosley numa festinha “trash” e não vou comentar com ninguém? Se eu souber que meu vizinho de porta se veste de Peter Pan e a mulher dele de Sininho, vou guardar segredo? Tá bom.

Mas a verdade é que o mundo censura coisas assim, e é normal que o faça — embora sempre seja possível encontrar alguns traços de hipocrisia naqueles que apontam o dedo aos "pervertidos". Contra Mosley, há o fato de que além de as imagens serem constrangedoras, a conotação nazi-erótica de sua farrinha enterra qualquer tentativa de defesa baseada na liberdade de se levar chicotadinhas no bumbum sem que a sociedade o condene.

Quinta-feira, quatro montadoras atacaram Mosley em comunicados oficiais. BMW, Mercedes, Honda e Toyota dispararam seus torpedos moralistas em direção ao presidente da FIA. No fundo, elas estão pouco se lixando se Max usa cueca de couro ou não. O dirigente, nos últimos anos, empenhou-se numa luta aberta contra a influência das fábricas na F-1. Chegou a hora da "vendetta".

Nunca é demais dizer que a FIA não cuida só de F-1, nem só de corridas. Ela se encarrega de questões ligadas à segurança de carros e estradas, emissão de poluentes, indústria automotiva, tudo. A F-1 é apenas a ponta mais midiática de seu trabalho. Assim, com tanta gente contra sua permanência, com tanta gente malhando o Judas, Mosley não tem escapatória. Sua saída é dada como certa, agora ou daqui a alguns meses. O que leva a uma nova discussão: o que será da F-1 em 2009?

É bom lembrar que todas as mudanças de regulamento para os próximos anos foram propostas e bancadas por Mosley. Algumas são polêmicas, como o congelamento dos motores, as restrições aerodinâmicas, o limite de uso de caixas de câmbio, as centralinas padronizadas e os orçamentos controlados. Muita gente é contra quase tudo. Por "gente" entenda-se equipes e montadoras.

É possível que, sem Mosley, mude tudo. Se as fábricas conseguirem emplacar seu sucessor, um fantoche qualquer, a F-1 desenhada por Max para 2009 em diante será outra, completamente diferente.

Montadoras não votam na FIA. Mas influenciam seus conselheiros. Mosley convocou uma assembléia geral para, no máximo, 45 dias. Pode até não renunciar, mas um membro apenas que peça o impeachment é o suficiente para desencadear um processo. Seu mandato termina no fim do ano. Talvez seja menos traumático para a entidade deixar que chegue ao final, preparando uma sucessão consensual. E pode ser que ele agora se envergonhe de aparecer em público e acabe saindo por conta própria.

Se não for assim, que encare o mundo de frente e diga como aquele velho personagem do Chico Anysio: “Sou, mas quem não é?”.



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