Confira a segunda parte do bate-papo com Reginaldo Leme, segundo jornalista a ser sabatinado nas Grandes Entrevistas:
GP: Em diversos momentos da entrevista você falou sobre isso, e agora aproveito este momento para perguntar: como foi sua briga com o Ayrton?
RL: Chegou no ouvido dele muita informação de coisa que tinha acontecido e não partido exatamente de mim. Por exemplo: em Monza, Monza (
ressaltando o local), em 1990, terminada a corrida, fui jantar com um grupo de amigos num restaurante que íamos sempre, próximo ao hotel. E lá estavam várias pessoas: jornalistas, amigos do Ayrton e um ex-piloto, Mário Patti Jr., o Keko, que correu de F-3 com o Nelson Piquet. Ele não gostava muito do Ayrton. Quando falaram na mesa sobre as namoradas do Ayrton, esse Keko, que já estava meio alto, começou a falar: “Que namorada, que nada”. Houve uma reação na mesa e vi que a situação ficou ruim. Peguei o Keko, tirei-o da mesa e falei: “Keko, você está sendo indelicado. Tem muitas pessoas aí que são amigas dele”. Ele entendeu a situação, pegou um táxi e foi embora para o hotel dele. Ele foi parar ali não sei nem como. Bom... Aí acabou essa parada toda, passou, e foi para a minha surpresa que, um dia, o pai do Ayrton, seu Milton, e o primo dele, cujo nome esqueci agora, mas não tem a menor importância, me chamaram para conversar. Eles tinham umas dúvidas, tal, e comentaram sobre um programa em que eu tinha sido entrevistado pelo Marco Antonio Rocha na TV Record. Quando me perguntaram sobre o Alain Prost, respondi que ele era um cara decente, digno, rival do Senna, mas era um cara bacana, que dava atenção para a imprensa e bastante atenção para mim, um jornalista brasileiro. Só isso. Eles me disseram: “Você é o único brasileiro que fala bem do Prost no país”. Eu falei: “Bom, acho que é mérito meu, pois conheço melhor o cara do que os outros”. Os caras viraram bichos. Como se eu não pudesse falar bem do francês. Bom... Saí de lá meio estremecido com eles e, evidentemente, essa conversa foi relatada ao Ayrton. Em seguida, veio o GP da Espanha, em Jerez. A Globo resolveu fazer o “Globo Repórter” com o Ayrton Senna e quem o fez foi o Ernesto Rodrigues, autor do melhor livro já publicado sobre o Senna na história. Jamais haverá outro tão bom, tão fiel. E aí, o Ernesto, que era fã do automobilismo, curiosamente do Piquet, mas era um jornalista de verdade, fiel, correto, foi incumbido de fazer o programa. E ele me passou uma mensagem por telex dizendo que eu teria de deixar todas as matérias do “JN” e do “Sinal Verde” para o Galvão, e fazer as entrevistas e os textos do “Globo Repórter”. O Galvão não gostou. Ele achou que ele tinha de participar. Direito dele de defender isso, mas era ordem da Globo. Estava seguindo ordens. E aí, se ele tivesse conversado comigo, ou mesmo se conversássemos ele, Ernesto, Senna e eu, a gente chegaria a um acordo, faria meio-a-meio, pois eu adorava fazer o “Sinal Verde”, não queria deixar de fazê-lo. Mas não teve isso. Imediatamente, a ala do Senna tomou a decisão de que ele não faria comigo a entrevista do “Globo Repórter”. O Ernesto foi até o Ayrton para marcar a entrevista comigo. O Senna disse: “Está bem, mas com o Reginaldo eu não vou fazer. Só faço se for com o Galvão”. Papel do Ernesto: comunicar à Globo que o Galvão faria o programa. Para ele, não importava quem, ele precisava que a entrevista fosse feita. Foi correto, me chamou, relatou a situação e eu disse: “É evidente que você precisa do Ayrton no programa, o resto não interessa, eu faço o resto e ainda fico com o 'JN' e 'Sinal Verde', quanto a isso está ótimo pra mim, mas é uma situação muito estranha o cara, seja quem for, começar a impor regras para jornalistas”. Ali foi decretado um rompimento. A corrida seguinte era o Japão. E, no Japão, o Galvão talvez não fosse, o que acabou acontecendo. Naquela época, o avião saía de São Paulo e fazia uma escala antes no Rio. Estava esperando a ala carioca entrar, entre eles o Celso Itiberê, e o Galvão não entrou. Não sabia se ele iria, pois não estava falando com ele, e pensei: “Bom, ele deve ir amanhã, ou já foi”. O Celso sentou ao meu lado no avião, ficamos conversando e ele me confirmou que o Galvão não estaria no Japão. Acabei sabendo também que o Ayrton não daria entrevista para mim. O Celso sabia disso, eu não. O Edgard Mello Filho também sabia, segundo me disse depois. Até então eu pensava que aquilo da Espanha tinha sido um caso isolado, coisa do “Globo Repórter”. Pensei: quando chegar lá, resolvo o problema. Cheguei lá, olha a situação: teve o treino de sexta-feira, fiz todas as minhas entrevistas e, quando chegou a vez do Senna, com câmera e microfone, ele falou: “Com você eu não falo”. E passou reto. Ainda comentei: “Não é comigo que você vai falar, é com o telespectador, com o brasileiro”. Ele nem respondeu. Fechei minha matéria sem ele, mandei o satélite e comecei a entrar em contato com a Globo, relatando o que aconteceu. Disse que teria uma solução e eles me perguntaram qual. Propus o Celso, que era de “O Globo”, da casa. Ele fez a entrevista e eu fiz o resto da matéria. Por sinal, o cinegrafista japonês cortou o boné do Banco Nacional. E, claro, o Senna acabou me culpando por isso. Eu que nem cheguei perto na hora da entrevista. Era mais uma das tantas que eles imaginavam e faziam virar verdade. E haveria ainda tantas outras, que passei a não me incomodar mais. Um dia talvez eles caíssem na real. Quando acabou o campeonato, a Globo tomou uma decisão correta. Tirou os dois do ar, eu e o Galvão. E ficamos fora do ar em dezembro, janeiro, fevereiro... Me lembro bem desse detalhe, pois a decisão foi tomada no dia em que eu tinha feito uma puta matéria em Interlagos com o Zico andando num carro de Stock Car. Ele guiando. Fiquei feliz, editei uma matéria maravilhosa para o “Esporte Espetacular”, mas veio a ordem e a matéria foi para o lixo. Ficamos fora do ar e, quando era para voltar, o Galvão negociou com a Rede OM, que era a Gazeta, e se mudou para Curitiba, iniciando o que ele achou que seria uma carreira nova, solo, não com corrida, mas como diretor de esportes da emissora. Uma coisa nova. Ele podia ter se dado muito bem, não fosse culpa do próprio canal. E aí, lembro que na despedida dele, eu estava no Rio e ele foi falar comigo. Foi bem gentil, bem bacana. Disse: “Olha, foi um período nosso, a fase passou, mas é algo que nenhum dos dois vai esquecer. Tchau”. Achei que a gente nunca mais voltaria a trabalhar junto.
GP: Você chegou até a ser afastado das transmissões da F-1 neste período, né?
RL: Nesse primeiro momento, foram afastados os dois. Quando o Galvão saiu, começou o campeonato seguinte na África do Sul, fomos o Luiz Alfredo e eu. Mas continuou aquela coisa dentro da Globo. “Será que vai ficar ruim? Que deu a impressão de que alguém ganhou a briga?”. E me afastaram da cobertura. Isso foi em 1992. Aí aconteceu o seguinte, as coisas do destino... Estava fora da F-1 e buscando um outro nicho dentro da Globo. O Emanuel (Castro) me falou: “Tem aí um Pré-olímpico de basquete, estamos investindo em basquete masculino, pode ser um bom caminho pra você, que tem uma boa experiência internacional. O torneio será em Portland e você pode começar a desenhar um caminho novo”. Legal. Maravilha. Estava escalado para ir a Portland em junho, se não me engano. Aí o Piquet bateu em Indianápolis. Ele saiu das operações, começou a fazer a recuperação, e o telefone tocou na minha casa. Era ele, que falou comigo rapidinho. “Tem uma coisa que eu queria falar com você, mas vou deixar o Lua falar por mim”, disse. Passou o telefone pro Lua (
Carlos Cintra Mauro, colunista do Grande Prêmio) e ele me disse: “Olha, está todo mundo em cima do Nelson para fazer a entrevista. Tem a Bandeirantes, o SBT, a Manchete, o jornal “O Globo”, outros jornais, tal. Você sabe que ele não gosta muito disso e me pediu para ligar e propor uma exclusiva com você”. Respondi para o Lua: “Muito obrigado, é uma prova de amizade, sentimento, fidelidade, mas o evento é da Bandeirantes. Quero ver se a Globo vai querer”. E fui conversar com a redação, com meus chefes. Teoricamente, sabia que não era política dar força para um evento da concorrência. Mas tentei. Passei por vários escalões até chegar na direção do jornalismo. O Ernesto Rodrigues conhecia bem o [Carlos Henrique] Schroder e o Alberico [Souza Cruz], que era o diretor. Eu falei: “Ernesto, aconteceu isso, o que eu faço?”. Ele respondeu: “Olha, é um pepino. Um evento da concorrência, tal. Mas conheço bem o Schroder, ele é extremamente competitivo. Se ele comprar a idéia como sendo uma coisa que a Globo está furando a concorrência, ele topa”. Bem, relatei isso pro Schroder, morrendo de medo, e ele falou: “Me dê cinco minutos”. Foram precisos apenas três. Ele me retornou a ligação e disse: “Pode embarcar”. Aí eu fui para Nova York, peguei o equipamento, o pessoal, e partimos para Indianápolis. Fizemos a matéria, aquela coisa toda, voltamos, uma baita dificuldade. Mandamos gravar na Europa depoimentos de vários pilotos desejando boa recuperação ao Piquet. Os pilotos estrangeiros falaram em inglês. O [Maurício] Gugelmin falou em português e o Senna, em inglês. Fizemos a edição toda em Nova York, mandamos para o Brasil e a matéria foi um puta sucesso. Oito minutos e 15 dentro do “Fantástico”. Você sabe o que significa isso? Puta sucesso. A repercussão foi enorme. O pessoal do escritório de Nova York se reuniu na casa de um deles para comemorar, com churrasco, caipirinha, tal. Uma comemoração de um resultado bem feito. Voltei para o hotel, dormi e de manhã cedo fui para a Globo de Nova York. Chegando lá, tinha um telex do Luis Fernando Lima, dizendo: “Bem vindo de volta à F-1, de onde você nunca deveria ter saído. Luis Fernando”. Fiquei maravilhado com aquilo. Claro que contou tudo, a repercussão da matéria, uma série de coisas. Tinha ficado fora da F-1 nas últimas quatro corridas. E aí, em Nova York, fui fazer o visto para a corrida seguinte, no Canadá. Enfim, voltei.
GP: E como é sua relação com os outros narradores com quem você já compartilhou as transmissões da Globo (Luciano do Valle, Luiz Alfredo, Cleber Machado e Luiz Roberto)?
RL: Ótima. Luciano, Luiz Roberto, Cleber, Luiz Alfredo, Oliveira Andrade... Fiz narração com dois outros caras que fizeram corridas únicas, na época da saída do Luciano e chegada do Galvão. Gente da Rádio Globo do Rio. E, em uma corrida dessas, em 1982, fui para a Alemanha. Esperava a chegada do Luciano e, de repente, sexta-feira, me ligam do Rio, dizendo: “Regi, não vai o Luciano, não vai o Galvão. Você terá de narrar sozinho”. Eu dei uma tremida, mas disse: “Pô, amigo, é uma chance nova, tenho que me controlar, levar isso em diante do meu jeito de contar as coisas para o telespectador”. Acho que fiz uma corrida linda, maravilhosa. Claro que foi uma narração diferente. A empolgação que o narrador tem, eu não tenho. Mas, por outro lado, tinha um espaço infinito para contar tudo o que eu sabia. Na hora de falar de um piloto ou uma equipe, eu completava com as notícias que cercavam a dupla, para onde ia um, com quem a equipe ficaria etc. Tudo sem sair daquilo que a corrida mostrava. Muito legal, uma experiência maravilhosa.
GP: Entre os anos 80 e 90, quando o Brasil estourava na F-1, a quantidade de jornalistas daqui que cobriam corridas era enorme. Devia ser uma farra tudo isso, não?
RL: Nessa época me apelidaram de “Leme’s Tour”. Quem me apelidou foi o Nilson César. Sempre tive e tenho até hoje esse sentimento de agrupar as pessoas. Procurava até reunir o maior número de gente no mesmo vôo, o que tornava a viagem em si uma delícia. Lá, quando saíamos, todos os jantares era eu quem marcava. Esse lazer era a minha parte, da “Leme’s Tour”. Cara, que época! A gente passeava, jantava, jogava pebolim no Hard Rock Café de Montreal, jogava bocha na França... Que época!
GP: Conte da excursão de vocês para a Hungria, no primeiro GP que teve lá, em 1986...
RL: Sensacional. Sensacional... Mas nessa estavam apenas o Galvão, eu, o Beegola [Wagner Gonzalez] e o Julio Caio Azevedo Marques, ex-piloto, que trabalhou na organização do GP do Brasil com o Tamas [Rohonyi]. Perguntei para o Tamas o que ele recomendava na Hungria no espaço entre a prova de Hungaroring e a da Áustria. “O Balaton. Você não conhece o lago Balaton? É o paraíso do turismo!”. O Tamas é húngaro, né... Pegamos o mapinha e fomos direto para lá na segunda-feira. Realmente, um puta hotel, com cassino e tudo, mas o mais novinho dos turistas tinha 70 anos. Era um lugar geriátrico pra caramba, pois o lago era de lama. Uma lama preta fedida, à base de enxofre. Aquilo era tratamento, né? A gente ficava naquele lago com os caras jogando baralho dentro do lago. O pessoal tinha aquelas bóias que serviam como mesa e os velhinhos ficavam lá jogando. E a gente junto. Foi divertido. Diferente. Bem legal.
GP: Qual foi o momento de maior emoção que você teve em todas essas viagens?
RL: Um momento muito bacana foi em uma corrida no GP da Áustria, em que fomos para Salzburg. Estava com a minha mulher, a Carmem Sílvia, o [Sérgio] Louzão, o César Augusto estava pela Globo, Flavinho, o [Fábio] Seixas, o Dentinho
(atual técnico de áudio da Globo). Fizemos um passeio por umas antigas minas de sal, cruzamos fronteira de Áustria com Alemanha por baixo da terra. Sensacional, amigo, sensacional. Era risada o tempo todo. Essa parte é inesquecível e eu penso no meu livro... Como tem muito livro de F-1, o meu tem que ter muita coisa de dentro e do paddock, acho muito importante também essa parte extra-pista, inesquecível.
GP: E qual foi a corrida da sua vida?
RL: Orra... A corrida da minha vida... Me ajuda: movida por qual aspecto? Técnico, de transmissão...
GP: No geral... A que mais marcou...
RL: Vamos lá... O que veio em minha mente agora foram os dois primeiros campeonatos do Piquet. O primeiro, de 1981, foi o que eu fiz uma entrevista maravilhosa com ele. Teve um lance nessa entrevista, essas coisas que Deus e o destino te ajudam muito. Na hora que você está mais confuso no que vai fazer, no desespero, pô, cara, se você acredita numa coisa, como eu acredito, Deus ajuda, mesmo: estava correndo atrás do Piquet para fazer a entrevista, ele estava casado na época com a Sylvia. Ela era arredia a toda a imprensa. Brasileira, então, nem se fala. Ela tentando fazer ele fugir da gente e nós correndo atrás dele. Quando ele parou para falar comigo, comecei a fazer umas perguntas, ele respondeu as primeiras e foi se emocionando, tendo que ficar calado para segurar o choro. Naquela fração de segundo, eu pensei: “Ele tem essa fama de ser frio demais e essa reação é muito quente”. Então, em vez de tentar interromper para continuar as perguntas, preferi deixar o silêncio e o rosto dele. É aí que eu digo que era a mão de Deus: achei que era a hora de ficar quieto e passar a emoção de um cara tido como frio. A matéria, de "Jornal Nacional", pois a corrida era sábado, teve quatro minutos. E 40 segundos dela foram de silêncio. Genial, também, o câmera Orlando Moreira
(de Nova York). E nós recebemos um baita elogio do diretor de jornalismo da época, o Armando Nogueira, “pela sensibilidade do repórter que soube entender que o silêncio traduzia mais do que tudo”. Guardo isso para mim, pois elogio do Armando é pra se guardar para o resto da vida. No segundo título do Piquet, ele ainda com aquela coisa dele, arredia, tudo mais, a gente tinha conversado bastante e, pouco antes da largada, o Galvão já estava na cabine e eu ficava nos boxes até o último segundo, buscando informações, subindo só na hora da corrida. E o último momento antes de subir foi com o Piquet. Ele tinha ido ao banheiro fazer xixi e fiquei esperando ele sair. Quando ele saiu, eu o acompanhei, colocando a mão nas costas dele e dizendo. “Vai lá, calma, boa sorte, tenha serenidade para fazer uma corrida de decisão”. Ele falou: “Legal”. Quando eu passei por ele, ele segurou minha mão e não tinha nem como voltar. Eu fiquei de costas para ele, no meio do burburinho, e ele segurando minha mão. E eu não conseguia soltar. Ele apertava, com a mão suada, molhada. Ele soltou e foi pro grid, e eu subi correndo pra encontrar o Galvão na cabine. “Vamos lá, Reginaldo, as últimas informações”. Eu queria contar o que tinha acontecido. O cara, sujeito chamado de frio, ter essa reação. Minha mão estava suada, demonstrando o que ele estava passando. Aí acabou, ele foi campeão e eu saí correndo para falar com ele e retribuir isso. Fui o segundo cara a chegar no carro. O primeiro foi o Bernie, que o ajudou a sair do carro. Porra, ele me deu um abração e fizemos uma matéria em cima disso. Foi uma grande entrevista. A mulher dele ainda era a Sylvia, mas ela já sabia respeitar os jornalistas. E fiz a entrevista com ela abraçada nele, ele com uma latinha de cerveja e eu perguntando as coisas, qual era o sentimento. E ele disse (
interpretando): “Sei lá, tomei essa latinha e já estou nas nuvens”. Terminava assim a matéria. Foram duas corridas em que eu fiz um trabalho muito bom. Quer uma corrida que também está na história para mim? Em um GP de Portugal, estavam na parada para vencer: Senna, Prost, Mansell, Piquet e mais um. E, na transmissão, o Galvão falou assim: “Vamos dar um palpite?”. Isso na primeira volta. O Prost estava em quinto. O Galvão deu seu palpite e eu disse: “Cara, isso aqui está cheirando Alain Prost”. E deu Prost. Recentemente, aconteceu isso com o Rubinho na Ferrari, no GP da Inglaterra de 2003, em Silverstone. Cara, não sei, essas coisas que eu digo que vêm de Deus: começa aquela largada com Schumacher, Raikkonen muito bem, embolando, tal, e o Galvão: “Seu primeiro palpite, Reginaldo”. Eu disse: “Cara, tem Schumacher na pista, tem Montoya, mas só dois pilotos para ganhar essa corrida: ou dá Rubinho, ou Raikkonen”. Os caras começaram com um ímpeto que dava para ver. E deu Rubinho. Na semana seguinte, fui para Florianópolis, já que sou padrinho de casamento do Larri Passos e amigo do Guga. E fui ver o treino do Guga em Camboriú. Quando eu entrei, ele estava descansando e me disse: “Pô, cara, não vou perder nem mais tempo vendo corrida, você acerta o cara na terceira volta!”. Isso ficou gravado para mim.
GP: Mundando de assunto... Assistindo a reportagens da época, você perguntou uma vez ao Senna, durante seus primeiros testes, sobre valores de ofertas que ele recebeu, tendo a resposta prontamente dita. Hoje em dia, você acha que um Felipe Massa receberia bem uma questão dessas, por exemplo?
RL: De jeito nenhum. Até por contrato, explicitamente, o cara não pode falar em valores. Explicitamente. Você sabe que, recentemente, o Marcelo França, nosso gerente de eventos, esteve nos testes em Barcelona e, quando ele e a Mariana [Becker] estavam entrevistando o Massa, perguntaram algo que não tinha nada a ver com a Ferrari, mas com a F-1, sobre o achatamento de preços. O Luca Colajanni, assessor da Ferrari, entrou no meio da entrevista dizendo: “Não, não, não. Ele não fala sobre assuntos financeiros”. Não era nada específico.
GP: Sobre esses mesmos testes do Senna: você acompanhou todos. Na época, você também ficou impressionado?
RL: Muito. Donington, especialmente. Quando ele saiu dos boxes pela segunda vez, quando fui ver ele contornar a curva de entrada nos boxes, fiquei impressionadíssimo.
GP: Voltando para o Felipe: qual a visão que você tem dele?
RL: O Felipe é um cara de um talento natural que não é o do Schumacher, do Senna. Ou de um Mansell, de um Hakkinen. Na F-1 atual, não sei quem eu citaria como referência. Mas é um cara que, com a dose de talento que ele tem, é muito inteligente ao saber aproveitá-la. Muito inteligente na pista e no contato com a equipe, em trazer a equipe para ele. O Felipe vai ser campeão do mundo. Ele é piloto para ser campeão do mundo. Ele sabe ser um campeão do mundo. E ele aprendeu muito com seus erros na Sauber, que foram fundamentais para sua carreira.
GP: Ligando Massa a Rubens Barrichello: onde foi que Barrichello pecou?
RL: No extra-pista. Nas entrevistas, nas atitudes, nos gestos fora da pista. No momento em que o Jean Todt estendeu a mão para o Rubinho e ele passou direto, apesar de ter todas as razões, naquela vergonha que aconteceu na Áustria, no que o obrigaram a fazer, ele não foi inteligente. Se ele tivesse sido frio ali na hora, diante das câmeras, e cumprimentasse o chefe da equipe, teria moral para falar o que quisesse contra todos dentro do motorhome. Mas eu vou te dizer: o talento natural que ele levou para a F-1 quando entrou na categoria está entre os 15 melhores da história. Da história. E ficou provado isso quando ele andou com Schumacher nos dois primeiros anos, milésimos atrás e, às vezes, até à frente.
GP: Quando ele foi anunciado como companheiro de Michael Schumacher na Ferrari, você em algum momento pensou que situações como o GP da Áustria de 2002 aconteceriam?
RL: Pensei, pensei. O Jackie Stewart falou isso para o Rubinho.
GP: Se ele tivesse sido bem assessorado, sua história seria outra?
RL: Acho que sim. Tem muita gente que é bem assessorado e não segue. Fundamentalmente, se ele tivesse isso, seria outra coisa. Mas acho também que não é culpa dele. O “timing” em que as coisas aconteceram para ele não foi favorável. A morte do Senna foi terrível para as costas dele, o convite da McLaren veio na hora errada, aquele que foi rasgado e, depois, o convite da Ferrari, que ele tinha de aceitar, veio na mesma época do Schumacher. E ele foi macho em aceitar.
GP: Falando em Michael Schumacher, você considera ele um caso à parte no automobilismo?
RL: Caso à parte. Tenho dúvidas, quando as pessoas me perguntam sobre Senna ou Schumacher. Tenho sérias dúvidas.
GP: Ele foi mal-intencionado, mesmo, em 1994 e 1997?
RL: Foi vigarista. Agiu de má-fé tanto em 94 como em 97 e, mais recentemente, naquele episódio de Mônaco, do treino de 2006, com o Alonso... Escrevi isso uma vez: o Schumacher, assim com o Senna - nada a tirar, pois ele faria a mesma coisa -, esses caras divinos nascem para ganhar de qualquer jeito. Não tem meio-termo. O Senna seria capaz das vigarices, se fosse necessário. Eles simplesmente não aceitam a derrota. Isso está dentro do cara, ele não quer perder de jeito nenhum.
GP: Quem é seu ídolo nas pistas?
RL: Meu primeiro ídolo chamava-se Jackie Stewart. Claro que Emerson, Senna e Piquet foram ídolos... Pô, você me pegou... Primeiro veio o Jim Clark, muito distante. O mais forte foi Jackie Stewart. O Emerson brincava comigo sempre: “Você é meu amigo e gosta mais do escocês do que de mim”.
GP: E você já chegou a ficar nervoso ao entrevistar algum piloto?
RL: Claro. Ô. Não sei se com a mão tremendo, mas todo trabalho que você faz, você tem dias felizes e outros que você não está dominando a situação. Você está inseguro. Aconteceu muitas vezes. Quanto mais você se prepara para falar com um grande ídolo, mais você fica tenso. O Prost, por exemplo, mas ele facilitava muito as minhas entrevistas, pois falava com ele em francês. Todos os repórteres, fora os franceses, faziam em inglês, mas eu falava em francês. Teve uma entrevista, em especial, em Brands Hatch, em um campeonato que ele ganhou. Essas entrevistas coletivas eram feitas pelas cinco emissoras que transmitiam, e que pagavam, pelo direito de entrevistar. Eram cinco, a RAI italiana, a RTL alemã, a TF1 francesa, a Globo, do Brasil, e a BBC, da Inglaterra. E, para não haver sorteio, tinha um revezamento: se você era o primeiro a perguntar numa coletiva, na próxima você ia para o fim da fila. Assim, sucessivamente. Nessa corrida, eu era o último. Todos os caras, com exceção da TF1, tinham falado em inglês e, quando chegou a minha vez, ele disse: “Você, não. Você sabe falar em francês comigo e sua entrevista vai ficar muito melhor”. Eu comecei em inglês e ele disse isso. “Estou muito cansado para pensar em inglês”. E, claro, a entrevista foi ótima. O Prost foi um grande ídolo.
GP: Você acredita que se José Carlos Pace não tivesse morrido ele seria campeão de F-1 um dia?
RL: Com certeza. Pelo ímpeto dele, com certeza. O Pace era visto pelo Bernie Ecclestone, na época dono da equipe, e pelo Herbie Blash, segundo cara do time, que hoje é delegado da FIA, com admiração pelo seu talento. Ele não tinha muito controle emocional, mas isso aprenderia.
GP: Que tipo de matéria ou trabalho você não fez e sonha fazer?
RL: Um programa que não precisa ser nos moldes do “Linha de Chegada” do SporTV, menor e com liberdade, dentro da Rede Globo. Numa TV aberta, claro que estou falando isso pela Rede Globo. Claro que, se recebesse um convite de uma TV aberta, podendo fazer isso, fazer o que quisesse, eu poderia aceitar porque é algo que eu gostaria muito de fazer antes de encerrar a carreira. Mas, de preferência, na própria Globo.
GP: Como você diz no “Linha”, estamos vendo a bandeirada se aproximando. Falando de automobilismo brasileiro: que classificação você dá para o panorama atual?
RL: Nota zero para a escassez de categorias de fórmula. Está escassamente em zero. Para a falta de oportunidades que tem um kartista para correr no Brasil. Tanto que qualquer pai de piloto do kart na idade dos 14 e 15 anos, que conversa comigo, eu falo para ele mandar o filho para fora do país. Vai fazer o que aqui? Zero nesse ponto. Agora, nota mil no aspecto turismo. E não é só Stock Car, não. A Stock ensinou o brasileiro a gostar de turismo. As corridas de Super Clio faziam mais sucesso do que F-Renault. Temos a GT3 e, se tiver um campeonato de marcas hoje, que entrem as fábricas, pô, arrasa. O turismo pegou no Brasil, e acho isso uma coisa adulta, pois todo país europeu que tem um automobilismo desenvolvido, falo de Alemanha e Inglaterra, todos têm o turismo fortíssimo. Mas, claro, a fórmula é que fabrica o piloto campeão.
GP: Não é uma vergonha um país com oito títulos mundiais de F-1 e cinco 500 Milhas não ter uma categoria-escola?
RL: Exatamente isso. E não sei quando é que vai ter pela situação financeira, o que isso exige economicamente. Quem vai fazer isso? Só as fábricas podem fazer e com interesses indiretos. Se você pegar as montadoras todas, se unirem e botar um piloto para correr em uma categoria que não levam o nome delas, é uma coisa, um ideal meio difícil, mas eu, se fosse eles, faria isso e desse jeito. Ou uma Petrobras. Quer saber, mesmo? A obrigação seria da Petrobras de criar uma categoria-escola agora. Já. Obrigação. Qualquer empresa estatal de um país desenvolvido faria isso nesse momento. E a Petrobras não faz o que poderia fazer para garantir a seqüência de campeões que tivemos.
GP: Falando em novas gerações. Conversamos de Senna e Piquet, mas o que você diz de Bruno e Nelsinho?
RL: Bom, aí são coisas ainda bem diferentes. Eles vão se debater lá na frente. O Bruno, evidentemente, está não um, mas dois degraus, dois anos atrás do Nelsinho. Ele está em pleno ano de desenvolvimento na GP2. Acho que esse é o ano dele, ganhando ou não, mas andando bem, conseguir um lugar na F-1. Se não conseguir, temos a vaga de piloto de testes. Por isso digo dois, não um. E o Nelsinho está lá e numa equipe que, se não é de ponta neste momento, tem um histórico e tende a voltar a ser de ponta. E ela tem estrutura e investimento para fazer com que o talento dele apareça. Basta para o Nelsinho, ele não precisa subir ao pódio nem ganhar corrida, andar próximo do Alonso. Se ele andar muito perto, a carreira dele está feita.
GP: Dos aspirantes à F-1, em quem você bota mais fé?
RL: Neste momento, no Lucas Di Grassi. Acho um piloto fortíssimo. Tinha muita fé no João Paulo [de Oliveira], mas por motivos financeiros teve de fazer marca-passo, correndo aqui, ali. Ele era um cara que não tinha bala e achou viável correr no Japão, em algum lugar ele tinha de fazer o que ele gosta.
GP: E o kart, você têm acompanhado?
RL: Olha, fiquei muito tempo sem acompanhar o kart, mas tive a felicidade de fazer uma prova do Brasileiro no ano passado, onde eu vi os cadetes, os menininhos, e conversei muito com os dirigentes. Tem um dirigente da Comissão Nacional de Kart
(Pedro Sereno) que tem uma visão... Ele dá a vida pelo kart. Existem outros caras que estão muito empenhados. O próprio Nestor Valduga, que é do CTDN
(Conselho Técnico Desportivo Nacional), mas dá uma força grande para o kart, e o
(Paulo) Scaglione. Ele tem a base do kart, a base dele é kart, como presidente do Automóvel Clube da Lapa. Então ele me provou que está investindo no kart nacionalmente. Campeonatos regionais e nacionais. E ele me disse: “Você pode não ver esse trabalho hoje, mas verá daqui a dois anos”. Ele me disse isso, pessoalmente. Vamos esperar pra ver.
GP: Dessa nova geração que só tem o kart e a F-3, quem você destaca?
RL: O Brasil teve uma geração espetacular, recentemente. Até falei para o Pedro Paulo Diniz, quando criou a F-Renault: “Cara, você fez isso num momento felicíssimo”. Era uma geração de talento fantástica. E nem assim a F-Renault foi para frente. Me ajuda aí: Jimenez...
GP: Bia, Di Grassi, Khodair...
RL: Esses caras aí. Inclusive o Khodair, Diego Nunes... O próprio Alberto Valério... É uma geração de ouro, viu. A Bia... Acredito muito na Bia. Eu ouvi de empresários na Europa que se eles tivessem uma piloto mulher tecnicamente boa eles investiriam muito. E, no momento que eu ouvi isso, um cara da Petrobras me falou não-oficialmente que a Bia era uma pessoa em que ele investiria. Agora, ela está nos Estados Unidos.
GP: E entre os estrangeiros?
RL: Não tenho acompanhado nesse nível, sinceramente. A gente acompanha a GP2, sente o talento do piloto. No ano em que o [Nico] Rosberg ganhou, o talento para mim era o [Heikki] Kovalainen, que foi vice. O talento do [Lewis] Hamilton é uma coisa visível, do Nelsinho, também. O ano da GP2 foi definitivo para formar minha opinião sobre ele. Sempre achei o Nelsinho bom. Fraco ele não poderia ser, senão o Nelsão tirava o time, sabendo como ele é. Mas tinha certas dúvidas, pois, natural, tudo o Nelson não pode ter, ele deu para o filho, mas, algumas vezes, em exagero. A possibilidade de treinar, de ter isso, locomoção, avião etc. Eu, como pai, claro, faria a mesma coisa. Então isso fez com que eu sempre ficasse em dúvida na F-3 Sul-americana, se ele era tudo isso. Na F-3 Inglesa já melhorou e na GP2 ele constatou que é bom. E, toda vez que converso com o Nelson, ele fala: “O cara é bom”.
GP: Por melhor que ele seja, ele sempre teve uma equipe por trás. Isso não vai o atrapalhar na F-1?
RL: O Nelsão tem consciência disso. Tanto que ele diz que, no segundo ano de GP2, era tudo por conta só do Nelsinho. No primeiro ano ele esteve ao lado do filho. No segundo, poucas vezes. E agora não aparece mais. Ele me falou que não vai em nenhuma corrida de F-1. Eu disse que duvidava, aí ele falou: “Ele tem que caminhar sozinho”. Agora, qual foi o presente dele? Um jatinho. Acho tudo isso válido. Se tem condições, dá. Se ele sente que isso foi prejudicial para ele, perder tempo em aeroporto, e pode dar algo melhor, ele dá. Mas, assim como ele oferece, ele cobra, e muito.
GP: Vamos falar da menina dos seus olhos, que é o anuário. Como surgiu essa idéia?
RL: Verdade. A idéia do anuário é bem antiga. Contribuiu para que eu a realizasse a decisão de um antigo sócio, o Carlos Carinha, que me trouxe o desejo de realizar e, quando ele falou isso, comentei que era algo que pensava em fazer havia muito tempo. E foi assim que fizemos os cinco primeiros números, com ele. Depois, pela forma radicalmente diferente de administrar um negócio desses, nós desfizemos a sociedade. Não daria certo. Aí, chegou ao quinto ano, cada um foi para o seu lado.
GP: O "AutoMotor" é o legado que você pretende deixar para as gerações futuras?
RL: Tenho certeza que é um deles. Mas, o principal legado será o livro, se eu conseguir fazer. Falo desse livro há mais de 15 anos e não começo nunca. Você sabe que, com o passar do tempo, as coisas que eu tenho, que são tudo de memória, vão se apagando. Vai ficando mais difícil. Vão surgindo livros de automobilismo. Por mais que eu acho que meu livro tem diferencial, há um receio e ele não pode ser mais um. Tudo bem, sou o cara que teve mais tempo, mas isso não basta. Ainda acho que, partindo do princípio de que o livro terá tudo o que eu vi em bastidores, em pista, o que eu conheci de pilotos, engenheiros, chefes de equipe e jornalistas, o pista e o extra-pista, acho que tenho condições de fazer algo divertido, romantizado. O grande legado, se eu conseguir, será esse. Por enquanto, o anuário pode ser considerado um legado. De 16 números, os últimos sete são de uma qualidade que não há no mundo nada igual.
GP: Para encerrar: depois de duas horas extremamente agradáveis de papo, você vai revelar sua idade hoje?
RL: Vou ficar devendo, não dá. Mas é quase 60.
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