Grandes Entrevistas: Reginaldo Leme I
Warm Up
21/02/2008



BRUNO VICARIA
de São Paulo




Quando se pensa em cobertura de F-1 no Brasil, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Reginaldo Leme. Este cidadão nascido em Campo Grande (MS), mas criado em Rancharia, no interior de São Paulo, é o jornalista brasileiro mais longevo na principal categoria do automobilismo mundial, com mais de três décadas de textos e reportagens para alguns dos principais veículos de comunicação do país, como “O Estado de S.Paulo” e a Rede Globo.

No entanto, por pouco esta história não aconteceu. Quando era pequeno, Reginaldo sonhava em ser arquiteto, feito que apenas não foi realizado por causa de uma doença no período em que se preparava para o vestibular. Recuperado, mudou de idéia, foi para São Paulo, prestou vestibular na Faculdade Cásper Líbero e o resto é história.

Em pouco mais de duas horas de conversa no Paddock Bar, tradicional “point” dos tarados por velocidade na capital paulista, Reginaldo detalhou os principais fatos de sua carreira, como o início cobrindo futebol, o plano para persuadir a direção do “Estadão” a bancar sua cobertura de F-1 na Europa nos primeiros anos da década de 70, além de seu período na Rede Globo.

Assuntos polêmicos também foram tratados, como a briga com seu eterno parceiro Galvão Bueno e o tricampeão mundial Ayrton Senna, fato que chegou até a tirá-lo das coberturas da F-1 da Globo, em 1992. Isso sem contar alguns detalhes curiosos de sua vida, como a presença dos Mutantes (banda que tem como um dos integrantes seu irmão, Dinho Leme) em seu casamento e o relacionamento com o falecido beatle George Harrison.

A entrevista foi dividida em duas partes. A primeira está aqui:

Grande Prêmio: Como surgiu sua história com o jornalismo?
Reginaldo Leme: Tem uma situação engraçada. Tinha certeza, com 14 anos, de que seria arquiteto. Tinha certeza. Gostava muito. Tenho até hoje, isso. Sou um cara que desenha plantas, discuto reforma de casas. Eu gosto. Só que, um dia, entrou uma amiga da minha mãe, a gente morava no interior, em Rancharia, e ela era daquelas pessoas que faziam testes vocacionais. Aí o teste que ela fez comigo deu que eu tinha que lidar com gente, redação, informação... Falei: “Cara, essa mulher está louca!”. Juro por Deus. Agora, para mim, a verdade foi o seguinte: curtia muito política. Política eleitoreira. Era moleque e ficava simulando eleições e fazia um jornalzinho. O nome dele era “A Estrela”, meio na onda do editor do Planeta Diário, o Perry White, dos filmes do Super Homem. Na época, o jornalista andava de chapeuzinho. Eu tinha o chapéu, o jornal e escrevia notícias. Mas era uma coisa que nunca liguei ao fato de fazer jornalismo. Fazia, inclusive, cursinho para arquitetura em São Carlos. Tive uma hepatite na época, por isso acabei interrompendo o cursinho e voltando para casa. Quando terminou o período de reclusão, cerca de um mês e meio, fui para São Paulo, ao invés de voltar para São Carlos. Não queria mais. Sem saber muito o que fazer, resolvi me inscrever no cursinho para a Faculdade Casper Líbero.

GP: E você não começou a trabalhar mexendo com corrida, mas sim com futebol, né?
RL: Eu queria primeiro o esporte, mas voltado para as corridas. Só que, quando entrei no "Estadão", em 2 de janeiro de 1968, comecei a falar de corrida e o "Estadão" não costumava cobrir automobilismo nacional, a não ser esporadicamente com algum trabalho do Luiz Carlos Secco, que era do "JT". Aí, no mesmo ano, quando voltei dos 500 km de Interlagos, contei para eles que a corrida tinha sido boa e queria fazer um texto. O editor disse: “Faz umas 20 linhas”. Dessas 20, foram publicadas seis. Mas foram. E automobilismo brasileiro era uma coisa que não saía muito. Só eram publicadas coisas de F-1, e de vez em quando.

GP: É verdade que você foi setorista do Palmeiras e ficou amigo do então goleiro Leão?
RL: Muito amigo do Leão. O Leão começou a namorar a mulher dele naquela época e eu comecei a namorar a minha e nós saíamos bastante. Tenho relacionamento com ele até hoje. Não o vejo direto, claro. Mas, sempre quando nos encontramos, até fico satisfeito. Embora tivesse muita vontade de dar uns conselhos para ele, só que ele é a última pessoa que se deixa aconselhar por alguém, mas eu queria muito, pois ele é ingênuo nas entrevistas, no trato com os jornalistas, canso de falar isso, até gostaria de falar pra ele, que foi um puta caminho errado que ele pegou.

GP: E você é amigo de outros jogadores, como o Rivellino, por exemplo...
RL: Dos antigos, né... Sou bem amigo do Rivellino, adoro ele. Mas os outros caras sumiram do mapa, como César Maluco, Jaime, Eurico, Luiz Pereira, Cardosinho. Sou amigo até hoje do Cabralzinho. Mas teve também o Marinho Perez. Quando ele foi para o Barcelona, já cobria F-1 e saíamos juntos por lá.

GP: E, nessa época, teve alguma história curiosa?
RL: Tem. Eu fiz a cobertura do milésimo gol do Pelé, além de outras histórias curiosas. Aprendi bastante, pois o futebol tinha bastante espaço, então pude lidar ao mesmo tempo com o jogador e a cúpula, o que é um negócio meio antagônico, saber usar os dois lados para obter informações. Você não podia deixar a cúpula de lado e ser um cara cerceado de informações que poderiam vir de lá. E eu te conto um lance: minha primeira viagem a trabalho como jornalista para o exterior foi cobrindo o Palmeiras. Isso em 1970, perto da Copa do Mundo do México. Nós fomos para Áustria, Iugoslávia, Turquia, sul da União Soviética, a Geórgia... Conheci muitos lugares clássicos do futebol, como o estádio San Siro, na Itália, quando o Palmeiras jogou contra o Milan. Foi muito legal. Nessas excursões, costumeiramente, os convidados eram os caras mais velhos da "Gazeta Esportiva". Eram quase cativos. E o José Gimenez Lopes, que era diretor de futebol do Palmeiras e um cara que já foi piloto, por isso tínhamos um papo muito bom, gostou muito de mim e nos tornamos amigos, tanto que ele se tornou meu padrinho de casamento. Com isso, ele me colocou nesta viagem, contrariando toda a cúpula do Palmeiras. Ele era um diretor de futebol, e tinha o presidente, Paschoal Giuliano, que chamávamos de “Bola Sete”, que já morreu. Era um cara poderoso, mas o Gimenez, mesmo como diretor de futebol, tinha um poder maior, pois era muito bom. Ele tinha personalidade e conseguia se impor. Ele bateu o pé e eu fui. Só que, evidentemente, fui como carta marcada para os diretores caírem em cima de mim e quebrei o maior pau com eles, com o Giuliano, pois comecei a noticiar o que estava acontecendo, o que achava que tinha de escrever. E ele achava que eu tinha de ser o jornalista oficial. E, quando a gente voltou, ele proibiu minha entrada no Parque Antarctica. Só que todos os porteiros eram superamigos meus. Então, eles me deixavam entrar sem virar a catraca para, caso me vissem, não descobrirem por onde passei. Enfim, fiz meu trabalho contra a vontade do presidente do clube. Foi bacana, uma vitória.

GP: Você chegou a cobrir alguma Copa do Mundo?
RL: Eu esperava isso, era 1970, ter alguma chance naquela Copa. Mas, evidentemente, a equipe do “Estado” já estava formada, com os caras tradicionais, super-habituados ao futebol, à cobertura da seleção. Eu cobri jogos da seleção. Por exemplo, em Porto Alegre, o Brasil de Pelé contra o Uruguai. Depois, com a Argentina. Consegui fazer alguns jogos aqui, mas não contava muito, pois a equipe do jornal já estava formada. Mas, depois que passei para o automobilismo, mais tarde, em 1972, acabei fazendo Copas, como em 1974, 1978, 1982 e 1986, as duas últimas pela Globo.

GP: Falando nisso, rola na internet um vídeo de um jogo de futebol entre pilotos e jornalistas antes do GP do Canadá de 1984. Como foi jogar ao lado de gente como Senna, De Angelis, Patrese etc?
RL: O Patrese e o De Angelis jogavam muito bem. Tinha outro, o Stefan Bellof, que morreu em um acidente de Esporte-Protótipos em Spa-Francorchamps, com um Porsche, que jogava muito bem, mesmo. Era muito legal essa época. A cobertura era bem mais tranqüila. Eu era bem mais novo e não jogava mal. Só que esses caras tinham um preparo físico maravilhoso. Dia desses estava vendo esse vídeo, onde o Senna machucou o tornozelo e o Galvão que apresentava a matéria. O Galvão ainda falava que eu, como jogador de futebol, entendia bem de automobilismo, que eu fui uma decepção...

GP: Quem era mais perna-de-pau? Eles ou você?
RL: O pior é que tinha jornalista bom pra caramba. O nosso goleiro era o fotógrafo italiano Daniele Amaduzzi, que já morreu. Embora existisse a classe do automobilismo, muitos desses jornalistas faziam Copa do Mundo. Até hoje, dois italianos adoram falar de futebol: o Raffaele della Vita, da “Gazzetta dello Sport”, e o Ercole Colombo, fotógrafo da “Autosprint”. E tem também mais um, que é torcedor da Inter, o Nestore Morosini, do “Corriere della Sera”.

GP: E como surgiu a sua paixão pelo automobilismo?
RL: Quando eu era moleque, corria de rolimã, na descida, no asfalto. Rancharia, né? Quebrei costela, joelho, entrei embaixo de caminhão. Tinha oito carrinhos de rolimã, um mais bonito que o outro. Gozado que o que mais gostava era um vermelho, preto e branco, número 45, que era o número do Marivaldo Fernandes, pois gostava muito dele. Também do Bird (Clemente), do Cyro Caires. Acompanhava muito e lia tudo. Lia a “Quatro Rodas”, mas gostava mais da “Auto Esporte”, que era mais esportiva. Ficava esperando a “Auto Esporte” na banca e, quando saía, no mesmo dia lia ela umas três vezes. No dia seguinte, mais duas; no outro, também. Chegava no fim do mês, já havia lido a mesma revista umas 15 vezes. Eu sei te falar hoje a capa do mês tal, do ano tal. Lembro de uma capa em que estava estampado o Denny Hulme, campeão mundial de 1967, dividindo a capa com o Emerson, que havia vencido uma corrida no autódromo do Fundão no Rio, de Fórmula-Vê. Tempos atrás eu estava conversando com o editor da “Auto Esporte” e ele disse que não existia essa capa. E eu disse: “Tem sim, amigo”. O cara foi lá e achou no arquivo...

GP: Como espectador, qual foi sua primeira corrida?
RL: Boa história, essa. Não morava em São Paulo, ainda, e tinha vindo para cá passear com meus pais, que eram muito amigos de uma família italiana, os Saffioti. Tinha o Roque, o José e o Waldemar Saffioti, que, por sinal, era um professor de química e autor de um livro no qual a minha geração e as três seguintes estudaram. Eram italianos que gostavam de jogar truco e tinham um sítio. Na época eu não sabia onde estava indo, não sabia onde ficava, sabia que era para o sítio. E me lembro de uma ocasião, depois de um almoço, onde o pessoal estava jogando truco, os velhos jogando e eu assistindo, e comecei a ouvir barulho de carros de corrida. Eu perguntei e me responderam: “Estamos perto do autódromo de Interlagos, é perto, uns dez minutos daqui”. Pô, enchi o saco do meu pai e do pessoal, saímos de lá e fomos para o circuito. Havia uma corrida do Sul-americano de Força Livre, onde corriam nomes como Camilo Christófaro... Pô, tinha o Fangio! Pilotos argentinos, uruguaios, e o principal brasileiro era o Camilo. Me lembro disso muito bem. Era um treino, um sábado, e não fui na corrida. Era uma coisa totalmente desconhecida para mim.

GP: E a partir daquele dia você foi infectado pelo vírus da velocidade...
RL: Verdade. Fiquei cada vez mais vidrado naquilo, mas devo ter voltado a Interlagos muito tempo depois. Dez anos depois.

GP: E sua primeira cobertura jornalística foram os 500 km de Interlagos de 1968...
RL: Não tinha ido para cobrir, fui para assistir, mas já estava no “Estadão” havia alguns meses e insisti em escrever um texto, aquele de 20 linhas que saíram seis. Este foi meu primeiro texto de corrida que saiu no jornal.

GP: E quando foi a primeira chance que você teve de cobrir uma corrida de F-1?
RL: Pois é. Aí, o que ocorreu: sempre fazia futebol, além de golfe, basquete, o que aparecia, mas sempre me batendo para fazer automobilismo. Eles me diziam: “Esquece isso”, mas eu respondia dizendo: “Um dia esse negócio vira”. E aí vieram para o Brasil aqueles torneios organizados pelo (Antônio Carlos) Avallone: Copa Brasil, depois a F-Ford, já com Emerson (Fittipaldi), Wilsinho (Fittipaldi), Graham Hill, Dave Walker, entre outros. Depois vieram a F-3 e a F-2. Tudo em Interlagos, em Tarumã, e eu consegui cobrir. Como era evento internacional, o “Estadão” deu, mas sempre um pouquinho. Em 1971, comecei a fazer um plano para convencer a direção do “Estadão” a me mandar para a Europa e ficar lá, residente, pulando de galho em galho, mas residente, cobrindo o campeonato inteiro. O plano era bem feito, eles gostaram, pois eu pedia dez dólares por dia. Dez dólares por dia! O que não era nada, além da passagem de avião, e eu me viraria lá. Depois você vai ver o final da história. Em 1971, o Ludenbergue Goes, que era meu editor, falou: “Olha, está muito bem feitinho, mas não vai passar. Vamos segurar um pouco”. Veio 1972, no começo do ano, e eu falei: “Goes, não pode passar deste ano, pois o Emerson será campeão do mundo”. Ele: “Pô, não me faz falar uma coisa dessas para a direção, pois eles vão achar que estamos sonhando”. Continuei, dizendo: “Joga na minha boca isso, banca lá que a coisa é boa”. E ele foi. Isso, no primeiro semestre. Diz ele que alguns riram, outros concordaram, mas disseram: “Não está aprovado ainda, mas vamos esperar um pouco”. Pensando que ia ser aprovado, marquei casamento e tudo. Só que não saiu o negócio e aí eu já tinha casado. Quando chegou o mês de julho, ele me chamou. O Emerson tinha vencido em Jarama (Espanha), na Bélgica e na Grã-Bretanha. Acabei indo só no fim de agosto, para ficar um mês e meio, quando consegui cobrir o título em Monza. Aí não parou mais e minha cobertura se tornou oficial em 1973. Fomos morar na Europa em 1973, 1974, 1975, 1976... Ficamos direto, mas aí veio a fase Copersucar, que deu uma puta esfriada no Brasil e, em 1977, me disseram: “Olha, não vai valer a pena bancar. Você não vai, não vai ninguém”. E este foi um ano que acabei fazendo F-1 aqui mesmo do Brasil. No final daquele ano, já tinha conversas com a Globo e fui contratado em dezembro, sendo registrado a partir de 1978. E, no começo desse ano, o “Estadão” quis fazer uma experiência e me mandou para fazer a corrida em Long Beach. Só que o Emerson não fez nada, aquela coisa toda, e deu outra esfriada. Mas a Globo já estava transmitindo as provas e, a partir da metade de 78, passei a fazer pela Globo.

GP: Como era cobrir a F-1 e enviar textos para o Brasil na década de 70?
RL: Hoje é uma brincadeira, se fizermos uma comparação. O sistema era o telex, telefone às vezes, já que os autódromos não eram bem aparelhados. Havia cinco aparelhos de telex, em média, para, mais ou menos, 150, 200 jornalistas. Hoje são 800. Então tinha os operadores que picotavam uma fita amarela, onde os furos eram letras e formavam palavras. Só que, como tinha uma fila para entregar o texto para o operador perfurar, aprendi a fazer direto na máquina. Só que você não lia o que estava escrevendo, eram umas maquininhas cegas. Você tinha que ir escrevendo e tomar cuidado para apertar os botões certos após o sinal, “plim”, que indicava o fim da linha. Eram três: “Volta o carretel”, “Muda de linha” e “Letra”. Se você não apertasse o “Letra”, você continuava escrevendo e só saíam números. E você não saberia, pois era uma máquina cega. Só quem soubesse ler os furinhos na fita. Eu não cheguei a esse ponto. Então, você fazia naquela dificuldade. Chegava no fim do carretel, soava o “plim” e você apertava os três botões. E era uma coisa assim, não havia correção, nem nada. Caso você errasse o nome de alguém ou alguma palavra, você escrevia, “perdão”, “digo”. “O Emerson fazia a curva tal, digo, tal”, e mudava o nome da curva. E foi assim. Essas máquinas eram para perfurar. Só que, para enviar ao país de origem, havia outras duas, apenas. Era via ligação telefônica. E a fila era maior ainda. Por isso que eu perfurava sozinho, assim furava a fila do envio. E eu chegava com a fita enrolada entre dois dedos em formato de oito. Era resistente, não quebrava. Às vezes acontecia, mas era difícil. O operador ajudava, pois via que a pessoa tinha boa vontade, colaborando com ele. Só que a matéria saía do autódromo às dez, onze da noite. Me lembro de uma história: eu estava em Zandvoort, na Holanda, e a sala de imprensa era na arquibancada. Existiam três máquinas de telex. Os jornalistas formavam fila e, quando chegava a sua vez, você sentava e escrevia. Cara, juro por Deus, estava escrevendo meu texto direto na máquina, só que essa eu conseguia ler, e tinha uma fila atrás de mim. Na minha seqüência, estava o Jeff Hutchinson, o inglês que mais escrevia. Eu estava digitando e, uma hora, parei uns dez segundos para pensar quando, de repente, o cara me cutucou e disse: “Não pode pensar, senão você vai ter de dar o lugar”. E eu voltei a escrever rapidinho.

GP: Falando da Globo: como era e o que mudou na cobertura desde que você passou a integrar a emissora?
RL: Mudou muito com o advento da tecnologia. No começo, fazia reportagens em filme. Você saía do autódromo, ia para o laboratório, revelava e, depois, editava num aparelho chamado moviola, com cola, durex, aquela coisa, e depois partia para uma emissora local para enviar as imagens. Tanto que o entrevistado ficava “mastigando” antes de sair o som. Então era muito fácil você perder grandes informações, pois acabava o treino, fazia a entrevista e saía correndo para aproveitar o satélite. E muitas coisas que aconteciam depois no autódromo, você não ficava sabendo. Olha só as mudanças que a tecnologia foi proporcionando ao mesmo tempo: primeiro, em vez do filme veio o videotape, onde você gravava e via ali mesmo na máquina. Por exemplo, em uma entrevista em inglês, com o filme, só saberia o que o cara disse depois da revelação. Então, não dava nem para construir uma matéria. Com o VT, não. Acabava de gravar, assistia à fita, pegava a parte boa da entrevista, traduzia e gravava em cima. Isso já foi um ganho significativo. Outra: a emissora dona do GP que recebe os outros, no caso do Brasil, a Globo, passou a ter a obrigação de montar no autódromo uma geradora. Você não precisava mais andar 100 km, ir numa emissora local e enviar as imagens para a Globo. Gerava do próprio autódromo. Era um ganho enorme. Caso acontecesse algo depois disso, pegava o telefone, ligava para a Globo e complementava a matéria. Hoje em dia, ao invés do telefone, eu uso a internet, com modulação de voz, e o som chega limpinho no Brasil, como se tivesse sido gravado na fita.

GP: Você apresentou o "Sinal Verde" na década de 90 e hoje faz o "Linha de Chegada" no SporTV. Fazê-los é a coisa que te deu (e dá) maior prazer?
RL: Sem dúvida. Fazia aquilo quando tinha 20, 30 anos. Costumo dizer que, se tivesse o “Sinal Verde” hoje em dia, eles teriam que contratar um rapaz mais novo, pois eu não teria essa condição física. Amigo, vou te contar como eram oito minutos de “Sinal”... Para quem não se lembra, eram dois blocos. Um falava sobre o local do evento, da cidade, do país, suas características. Lembro de um bem legal que fizemos na França, falando da gastronomia. Depois, fazia um link do primeiro para o segundo bloco, onde o assunto era a corrida em si. Então, parte dos textos eu escrevia na quinta e o restante complementava na sexta, com as entrevistas. E eu passava a madrugada de sexta para sábado escrevendo o texto do programa. Oito minutos na TV é tempo pra chuchu. Eram dez horas de trabalho. Depois, no papel onde eu escrevia o texto, muitas vezes à mão, eu fazia as marcações: “Quero a imagem tal nesta parte”. No sábado, pela manhã, com a voz rouca por ter passado a madrugada acordado, eu gravava e entregava as fitas nas mãos de um companheiro que tinha ido de Londres para levar para a edição. Fazia isso sem dormir. Se você pegar um desses programas antigos, dá para reparar que alguns deles fiz totalmente rouco. Este mensageiro ia embora para Londres com quatro, cinco fitas e as anotações. Geralmente, o editor me ligava no fim do dia com alguma dúvida. E esses oito minutos iam para o ar de maneira maravilhosa. Imagino isso sendo feito hoje: eu teria tempo de assistir tudo o que havíamos filmado, escreveria com calma, editando tudo no autódromo no próprio sábado, e geraria o programa pronto direto para a Globo no Rio. Com todas as dificuldades, esta foi a coisa mais bacana que fiz até hoje. Posso dizer que fui eu quem criou o espaço. Começamos como uma brincadeira, algo extra-automobilismo de 40 segundos, eles gostaram e mandaram fazer um minuto e meio, depois aumentando para dois. Terminamos o ano de 1982 com três minutos. Em 1983 foi para quatro e, no ano seguinte, foi para oito. Não sei quanto tempo ficou no ar, acho que uns dez anos.

GP: O que você considera importante para quem deseja cobrir a F-1?
RL: Hoje é bem diferente da minha época. Na minha época bastavam a paixão e interesse para aprender. Hoje não bastam a paixão e o interesse, tem de saber. Pois a cultura nossa é outra. Você conversa com um cara no bar e precisa tomar cuidado, pois ele sabe tudo. Na minha época eram poucos os caras que tinham essa paixão e esse interesse. Muita gente critica o Piquet pela forma como ele tratou a imprensa durante muito tempo, mas ele dizia isso: “Eles pegam os caras de futebol e mandam trabalhar aqui”. Mas era isso. O pessoal tinha de fazer para aprender. Quando ele notou que tinha gente interessada, foi o primeiro a falar: “Você e você são pessoas interessadas, quando precisarem de algo é só vir aqui falar comigo”.

GP: Qual foi o maior furo jornalístico de sua carreira?
RL: Me lembrei imediatamente de um do tempo em que estava no “Estadão”. Aliás, dois. Puta furos. O primeiro: a Copersucar com Emerson e Wilsinho comprando a Wolf, de Walter Wolf, uma equipe de F-1 que tinha vencido corrida. A Copersucar tinha desistido de fazer o carro e comprou a equipe dele. Dei esse furo sozinho no “Estadão”. Outro: Nelson Piquet corre de F-1. Ele corria de F-3 com o Chico Serra e, na época, o Chico me ligou: “Você está louco? Isso é impossível, alguém pular da F-3 para a F-1”. Eu disse: “Chico, ele vai correr daqui a dois domingos”. E o Piquet estreou na Alemanha.

GP: E a maior gafe?
RL: Boa. Cara, a televisão ao vivo é propícia para cometer gafes, pois você está interessado em interpretar o que está vendo e pode acontecer de você dizer algo que não bate nada com a imagem que as pessoas estão vendo no Brasil. O Galvão sempre fala da gafe dele e da minha. Era a estréia dele com F-1, na África do Sul, onde as duas Renault, de Prost e Arnoux, eram idênticas, e nem com detalhes em azul e vermelho para diferenciar os carros era possível distinguir, pois o sol batia de frente no carro e não conseguíamos enxergar quem era quem. O Galvão narrou a corrida inteira como sendo o Arnoux na frente. Faltando duas voltas, para o fim, que ele viu que era errado. A minha, em Mônaco, não sei o que deu na minha cabeça, foi em 1982, acho, que vi uma corrida que não estava acontecendo. Na quarta volta, na minha concepção, o líder estava dando uma volta no último colocado. Não sei se esse cara tinha parado, o que aconteceu, mas sei que era uma corrida muito rápida e achei isso. E falei. E não era nada disso. O cara tinha parado nos boxes e o último colocado estava muito atrás. Lembro só desse agora, mas aconteceram muitos outros.

GP: Você sente saudade dos tempos "boêmios" da F-1?
RL: Muita, muita saudade. Era muito mais legal. Lembro de um momento, quando o Piquet e o Senna começaram a não se falar, em 1984, em Detroit. Não tinham brigado, ainda, mas já se estranhavam. A gente já tinha a geração de imagens pós-corrida, feita imediatamente. Peguei o Senna e mandei ele ir para tal lugar, onde o encontraria com nosso cinegrafista. Ele estava no primeiro ano dele na F-1 e foi, muito atencioso, ainda. E fui buscar o Piquet. Pensei: como o Nelson vai ser mais difícil, vou até lá. Como já sabia qual seria a reação dele quando visse o Senna, atarraquei o braço dele e fui andando junto. Ele não viu o Senna até o encontro cara a cara. Na hora, fez o movimento de virar as costas e ir embora, mas eu estava atarracado no braço dele e comecei a gravar na hora, com as imagens sendo enviadas para o Rio. Fiz a entrevista inteira com o Senna do lado e segurando o Piquet pelo braço. Fora isso, o ambiente era muito menos profissional. Pilotos jantavam com os jornalistas, tomando vinho, rindo até tarde da noite. Na hora do almoço no autódromo, parecia que nem era dia de treino oficial. Havia uma descontração incrível. O Piquet corria pela Brabham e, depois, Williams e Lotus, mas sempre comia a comida da Minardi ou de uma outra italiana menor ainda. As pessoas traziam os pratos para ele, que dizia: “Bad team, good food”.

GP: Qual o piloto brasileiro que foi mais injustiçado na sua opinião?
RL: Ingo Hoffmann. O Ingo tinha o destino traçado para ser o piloto da Copersucar. O Ingo era um dos caras que saiu do Brasil mais preparados para correr na F-1. Um dos mais, em uma época que não havia o que o Nelsinho fez, de treinar todos os dias, correr bastante etc. Era superpreparado, mas estava talhado para correr pela Copersucar. A gente falava sobre isso o tempo todo, comigo morando na Suíça ao lado do Emerson e ele, na Inglaterra. Quando o Emerson me confirmou o nome do Ingo, liguei para ele e perguntei: “Ingo, você está sabendo?”. Ele respondeu: “Estou imaginando, mas ainda não me falaram. Te falaram?”. Continuei: “Sim, mas quero saber sua opinião”. Aí ele disse: “Você sabe o que eu penso. Maravilhoso. Isso está abrindo minhas portas na F-1, mas pode estar fechando, também”.

GP: Seu relacionamento com o Emerson sempre foi bom?
RL: Espetacular. Espetacular. Olha, tive relações espetaculares com Emerson, Piquet, Ingo, Chico, Piquet, Boesel, com quem você imaginar, e com o Senna, por pouco tempo, pois tivemos a briga.

GP: É verdade que você tem um dos capacetes dele de 1972?
RL: Melhor do que isso: quando a F-1 completou 50 anos, fizeram uma série de 50 capacetes, um dedicado a cada ano. E o de 1972 é meu, que tem a bandeira brasileira, o nome do Emerson etc. É um capacete que ele não tem. Quando ele ficou sabendo e quis, sobrava apenas o de 1974, pois o outro já era meu.

GP: Analisando friamente hoje em dia: como você avalia a aventura do Emerson com a Copersucar?
RL: Honestamente, ainda acredito na honestidade de princípios dele. Ainda acredito que ele fez isso, largou uma equipe vencedora, a McLaren, que foi campeã no ano seguinte em que ele saiu, com o James Hunt, que só sabia sentar e acelerar, conscientemente. Ele tinha certeza que o nome Fittipaldi seria eternizado na F-1. Não foi dinheiro, nem nada. Foi uma batalha, um ato de coragem.

GP: Vocês dois tiveram um grande privilégio, que foi a amizade com o falecido beatle George Harrison. Como era a relação com ele?
RL: Não tem comparação da minha com o Emerson. Eles eram íntimos. Um estava no aniversário do outro sempre. Eu, graças ao Emerson, conheci o George Harrison intimamente na casa do Emerson, em família. Fizemos passeios, jogamos tênis, tivemos horas e horas de conversa. Como eu era único que entendia de música, que era roqueiro, ele conversava mais comigo do que com o Emerson e o nosso anfitrião, o Antônio Carlos Santoro. Ele viu que tinha um brasileiro que sabia tudo da vida dele, dos Beatles, dos Rolling Stones. Então, formou-se, nem chamaria de amizade, mas um conhecimento. Nos vários encontros que tive com ele nos 25 anos seguintes, ele me reconhecia, chamava pelo nome, o que era um baita feito. Lembro de uma vez em que o Cléber Machado estava comigo e ele apareceu nos boxes da Jordan, ficando lá e batendo papo com o Eddie Jordan. E o Cléber é um cara que sempre sacaneia. Ele ficou falando: “Vai lá, vai lá, vamos ver se ele te conhece, se ele sabe quem é você”. E ele queria pedir um autógrafo para o irmão dele, louco pelos Beatles. Então fomos até ele, entramos na conversa e eu falei para ele pedir. Foi quando o Harrison viu a gente e perguntou: “Como é que anda o seu bar no Brasil”? Na época eu tinha o Rock Dreams e havia contado toda a história para ele. Caiu o queixo do Cléber.

GP: Falando de música, como foi estar inserido no mundo da que é considerada a maior banda de rock que o Brasil já teve, os Mutantes, que tinha seu irmão Dinho como baterista?
RL: Inserido, mesmo. Pois, no início de tudo, a gente vivia, eu inclusive, em uma comunidade na Serra da Cantareira. Eles já tinham a casa lá e cada um de nós possuía um terreno para construirmos as nossas. Era para ser uma comunidade hippie na Cantareira. A Rita ainda tem casa lá e eu, que acabei não levantando casa, vendi o meu terreno para ela, faz pouco tempo. Então a gente vivia isso intensamente. Participei de criação de música, de letras. Claro, não assinando, mas elas eram feitas com oito malucos dando palpite. Agora, por exemplo, na volta deles, o Serginho (Dias) me falou: “Eu vou fazer uma música para você criar uma letra ligada a automobilismo”. Estou até pensando nisso.

GP: Alguma história curiosa e publicável?
RL: Publicável, não muitas. Ah, pô, sensacional, meu casamento! Pô... Sensacional! Eu casei em 1972. Quando fui à Igreja do Perpétuo Socorro para contratar o casamento, aquela coisa toda, o cara me perguntou: “Você quer música?”. Claro, mas quanto custa? “Você pode pagar x e escolher as músicas, ou você paga x e ele toca o que quiser”. Eu não tinha dinheiro nem para comprar a roupa do casamento. “Você quer que grave as músicas?” Nem pensar! A fita cassete custava o que seriam R$ 100 hoje. Bem, veio o casamento. A hora que a gente entra no altar, começam a tocar as cinco melhores músicas da minha vida. “Something”, “Five Hundred Miles”, “Yesterday”, que não gosto muito, minha mulher gosta mais... Beatles, Stones, basicamente. E eram os Mutantes tocando lá em cima. E eu não sabia disso. O Arnaldo (Baptista) estava tocando o órgão. Olha, de lembrar fico arrepiado! Aquela “Something”... O padre olhava para cima com a expressão tipo “o que é isso?” Acho que foi o único casamento em que os Mutantes tocaram.

GP: Falando em amigos, foi na Globo que você passou a trabalhar do lado de seu grande parceiro, que é o Galvão Bueno. Como foi seu primeiro contato com ele?
RL: Meu primeiro contato com ele não foi na Globo. Eu já estava na Globo, sou anterior a ele. Entrei em 1978 e ele, em 1982. Ele era fã dos meus textos e um quase diretor de esportes da TV Bandeirantes, o diretor era o Darcy Reis. Ele ficava abaixo. Eu era editor na Globo, não o repórter. Isso foi em 1978. E precisava trabalhar em mais algum lugar para ganhar um dinheirinho. E ele me ofereceu ficar cinco meses na Bandeirantes para eu ficar escrevendo os textos de um programa de esportes que iria para o ar. E eu fui, sempre gostei de escrever. Das três primeiras que escrevi e ajudei a editar, a primeira era sobre a história do Cassius Clay. Programa de 20 minutos. Eles adoraram. Sabe que horas eu ia para lá? Às dez da noite. Trabalhava até as 3 da manhã, para entrar na Globo às dez. Saía da Globo às seis da noite, voltava para casa, comia algo e seguia para a Bandeirantes. Fiz isso quase um ano. Foi aí que eu conheci o Galvão. Depois voltamos a trabalhar juntos, já como narrador e comentarista. Quando ele entrou na Globo foi para fazer a Copa do Mundo, não era automobilismo, ainda. Eu fazia F-1 com o Luciano (do Valle).

GP: Como é cobrir uma corrida ao lado dele?
RL: O Galvão usa uma frase sempre, que é um negócio assim: “É bom, mas até prejudica um pouco o nosso trabalho pelo fato de a gente enxergar a corrida de uma forma muito semelhante”. Era melhor até que o comentarista e o narrador vissem duas corridas diferentes, mas com a gente não é assim. A gente vive no meio. O Galvão é do meio. Apesar de ele ter começado com futebol, ele é do meio, é do ramo. Sempre curtiu, viveu isso, o mundo do automobilismo. Hoje a gente sabe aproveitar isso levando para o lado positivo, não atrapalha mais. Mas, é claro, faz com que, às vezes, ele, o narrador, que é o mestre de cerimônias, muitas vezes ele fala na minha frente, o comentarista, um complemento da transmissão, algo que estou vendo. Ainda mais sendo o Galvão, que gosta de falar um pouco mais.

GP: Como foi a briga que você teve com ele?
RL: A briga com o Galvão e o Senna foi ao mesmo tempo, uma em função da outra. Hoje, a minha leitura, que vem de algum tempo, é que tanto um quanto o outro foram levados pela opinião de outras pessoas, que não preciso dizer quem são. Isso influenciou os dois. O Galvão e, terrivelmente, o Senna. É difícil explicar a razão do ciúme, mas era um ciúme muito forte. Provocou isso e levou a conseqüências. O Galvão me conta hoje, sobre determinadas atitudes que ele tomava: “Por mais que eu quisesse tomar, me doía. Me doía, pois sabia que estava ferindo você num assunto que talvez não fosse exatamente daquele jeito que me passaram”. Em toda crise existe culpa dos dois ou mais lados. Ele teve a parte dele, já falamos sobre isso muitas vezes. Eu tive a minha, mas, claro, na minha cabeça o que tive de culpa foi conseqüência de uma reação a uma ação que não partiu de mim. Reação à ação. Eles é que provocaram. E nossa amizade, quando foi reatada, ficou mais forte. Tanto que sou padrinho de casamento dele.

GP: Nesses anos todos, vocês passaram muito tempo juntos entre trabalho, viagens e diversões. Qual é a história mais engraçada que você tem com ele?
RL: Cara, o Galvão, por natureza, é um cara engraçadíssimo. Ele é cativante nas conversas, nas brincadeiras. Quando está em grupo, então... Mas ele tem de estar à vontade. Uma ou duas pessoas estranhas na mesa e ele já não fica à vontade. Ele morre de medo de falar algo na frente de um jornalista, de um cara de internet, ele morre de medo. É super pé atrás com tudo. Mas, quando ele fica à vontade, todo mundo que o conhece a fundo sabe que ele é diferente disso que dizem. O Flavinho (Gomes) é um dos que o conhecem bem e sabem do que estou falando. Mas teve algumas coisas que podemos chamar de loucuras, como bater carros alugados, um contra o outro. Teve uma história na África do Sul que ele estava com dois jornalistas num carro e eu, com dois em outro. Comigo estava a Nina Lengyel, esposa do Janos Lengyel, que já havia morrido. Era uma senhora! E, voltando do jantar no domingo à noite, sem o calor do trabalho, bebendo à vontade, começamos com a história de bater um carro no outro nas ruas de Johannesburgo. E teve um momento que a polícia estava atrás de nós direto, a gente virando esquina correndo, fugindo. Até que conseguiram parar o carro dele. Junto com ele estava o Álvaro Teixeira, que era um jornalista brasileiro que morava em Paris e fazia a “Auto Esporte”. Tinha uma câmera dentro do carro, do nosso cinegrafista Sérgio Gilz, e ele teve a idéia de dizer que eles estavam correndo para filmar a cidade de noite para um programa. Enfim, conseguiram levar a polícia no papo. Com isso, me distanciei um pouco dele, mas notei que ele estava umas três quadras atrás de mim, em direção ao hotel. Mas, cara, velocidade de filme. Não entrei no hotel, virei o quarteirão, dei a volta e ele entrou. Entrei depois dele e ele estava estacionando o carro numa das poucas vagas que restavam, que era rente à parede. Então, quando vejo, o carro dele estava de lado, alinhado contra a parede, e eu, de frente. Aí eu comecei a bater no carro dele contra a parede. Eu batia de frente na lateral dele, dava a ré, batia de novo, dava a ré... O carro dele ficou meio metro mais estreito, com ele e os outros dois dentro. E tenho uma outra, essa envolvendo o Senna no México, depois de uma corrida. O Galvão estava guiando um e o Senna, o outro. Eu estava no carro do Ayrton. Cara... Foi um bate-bate na rua, coisa de desmontar os dois carros. Voltando para o hotel, no domingo à noite. O Renato Maurício Prado estava no carro do Galvão, com o Gilberto Conte. O Beegola (Wagner Gonzalez) estava no meu e era o cara que mais falava: “Vai! Dá porrada nele! Dá porrada nele!”. Amigo... Tinha mexicano pulando para tudo quanto é lado!



GP: Também tivemos histórias tristes, como a morte do Senna, em que ele te passou o microfone. Como foi aquele momento?
RL: A morte no automobilismo, graças a Deus, é cada vez mais rara. Cara, nos meus primeiros anos cobrindo, a morte do Ronnie Peterson foi muito forte. Na segunda-feira após o acidente, eu falei: “Acabou, não vou mais. Não vou ficar perdendo amigos”. Claro que, com a cabeça mais fria, três dias depois, o pensamento muda. Quando o Gilles Villeneuve morreu, voltei para o Brasil e as pessoas me perguntavam: “O que está acontecendo contigo? Você está em silêncio na sua casa, aqui”. Quando chegou o GP seguinte, 14 dias depois, em Mônaco, desci do aeroporto em Nice, fui para Mônaco, larguei as malas no hotel e fui direto para a casa do Villeneuve. Ninguém da família me conhecia, então fiquei sentado na frente da casa dele esperando alguém sair. Uma hora saiu um crioulinho, funcionário dele, junto de duas crianças, que mais tarde vim a saber que eram o Jacques e a irmã dele. Quando ele saiu, fui em sua direção, me apresentei, comecei a conversar. Eles foram para a praia, que ficava próxima dali. A casa dele era mais alta, tinha uma vielinha e, em seguida, a praia. Eu fui junto e, enquanto as crianças se divertiam, fiquei conversando com o rapaz, pois queria falar com alguém da família. Queria estar junto, ali. É impressionante o que sofri. Aí foi seguindo. E outras mortes. Não vi a morte do (Ricardo) Paletti, pois o GP do Canadá era na semana seguinte do GP dos Estados Unidos, só que eu precisei sair de Detroit direto para a Copa do Mundo da Espanha. No domingo a minha mulher me ligou e contou: “Morreu um cara na largada”. Quem? “Acho que é o Patrese”. Falei “caramba”. Era o Paletti. Fui atrás de jornais, não tinha internet, e me lembro que liguei para um jornalista na Itália, que me falou ter sido o Paletti. Aí vai, se perdem outras pessoas, e veio o dia do Senna. Esse dia foi impressionante, pois passou pela minha cabeça tudo o que tinha acontecido no meu relacionamento inteiro com ele: a amizade forte, enquanto existiu, a briga e o que estávamos vivendo naquele momento, que era um reatamento. Isso estava acontecendo havia um ano e meio. Ninguém falando claramente: “Vamos esquecer”. Nada disso. No tempo em que estava brigado com o Senna, na hora das entrevistas coletivas, eu sempre ficava a uma distância respeitável, para não participar da roda, mas ouvir, como informação para mim. E ele sempre me viu fazendo isso. Então teve uma corrida que formou o bolinho, eles entrevistavam, eu ficava a distância e, quando ela acabou, ele me chamou. “Vamos lá dentro no motorhome?”. Quando entramos, ele disse: “Percebo que, nas entrevistas, você está aí a distância, pelo que aconteceu entre nós. E quero dizer que, se você precisar de alguma coisa, pode vir falar comigo. O que passou, passou”, aquelas coisas. Então estávamos nesse processo naquele ano e meio e tudo isso passou na minha cabeça. E o episódio da briga, o tempo em que eu cheguei a sentir algo que não posso chamar de “ódio”. Pelas coisas que ele fazia, o desprezo que me dava quando estava com raiva, eu analisava e pensava: “Ele não é o que eu pensava, ele não vale isso”. Algo normal. Isso vinha muito forte para mim até no momento do acidente. Muito forte. Minha primeira reação foi ligar para minha mulher no Brasil e fiquei, no mínimo, uns 40 minutos no telefone. Chorei. Era tristeza, claro, mas me vinha à mente um misto de tudo. Queria que ela tivesse gravado aquilo. Me lembro de ter dito no fim da conversa: “Você sabe que a gente estava bem, conversando, sendo amigo. Mas você vê que não vale a pena na vida o cara ser frio demais. A frieza dele não permitiu que ele se reaproximasse de mim o tanto que ele queria. Não deu tempo de ele fazer isso.”

GP: E como foi manter o equilíbrio na narração?
RL: Olha, há uma coisa que eu faço na vida, sempre fiz e nem sei explicar: aconteceu, morreu, seja quem for, meu trabalho vai até o fim. E o do Galvão, também. E ele, como estavam na cabine o Leonardo Senna e o Ubirajara Guimarães, sócio do Senna, ficou muito transtornado. Pois ele olhava para os dois e eles, assustados. O Galvão balançava as pernas o tempo todo. Ele tinha um pano que passava no rosto e fazia isso direto, pois suava que nem um rio. E isso me levou a ficar mais calmo. Pensei: “Alguém tem que ficar mais calmo, aqui”. O Galvão chegou ao ponto de, como a cabine de Imola era mais estreita, passar por cima de mim e sair para respirar. Eu fiquei no microfone e falei direto, por uns bons cinco minutos.

GP: Que horas vocês souberam da morte dele? Foi durante a corrida?
RL: Na verdade, para mim ele não saiu de lá com vida o tempo todo. Saiu tecnicamente vivo, mas morte cerebral. Isso para mim era claro. Não no primeiro momento, mas a demora dos médicos, a posição do pé, o sangue todo que ficou, sabendo que era da cabeça, para mim ele saiu de lá morto. Não cheguei a comentar isso com o Galvão naquele momento, mas sei que o Galvão tinha a mesma consciência. Quando ele encerrou a transmissão e deu a deixa, ele se mandou para Bolonha, onde encontraria o (Gerhard) Berger, o Braguinha (Antonio Carlos Braga, empresário e amigo de Senna) e todos que para o hospital tinham ido. Eu tive que segurar mais tempo lá, pois nos tornamos uma central técnica. Como o técnico de som (Cláudio Amaral) estava comigo, ficamos lá e tínhamos o (Roberto) Cabrini via celular do hospital. E o Cabrini, ao invés de ligar para o Brasil, fazia isso para nós, para equalizar o áudio que chegaria ao Brasil. Então eu soube tudo em primeira mão, oficialmente. Aquele boletim do Cabrini, “estou dando a notícia que não gostaria de dar...”, passou primeiro por mim e pelo Cláudio Amaral, antes de chegar ao Brasil. E também o Rubinho ficava me ligando da Inglaterra toda hora para saber notícias. Ele me ligou exatamente quatro vezes e eu fui falando aos poucos: “Olha, é grave pra caramba”, “Olha, é muito grave”... Até que ele ligou e perguntou: “Morreu?”, eu falei que sim. O Rubinho foi informado por mim.
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