Grandes Entrevistas: Tony Kanaan (parte 2)
Warm Up
10/01/2008 - 09:50



BRUNO VICARIA
VICTOR MARTINS
EVELYN GUIMARÃES
de São Paulo


Conforme prometido, segue abaixo a segunda parte da entrevista com Tony Kanaan. A primeira está aqui.

PARTE 2

Grande Prêmio: Você esperava conquistar sua primeira vitória na Champ Car de uma maneira tão inesperada?
Tony Kanaan: Aquele foi um dia especial. Tomei volta, meu carro quebrou na quarta volta da corrida, tive de parar nos boxes e ficar uma volta atrás. Estava sem rádio. É sempre aquela coisa: em corrida, tudo que você pode imaginar, vai acontecer diferente. Imaginava ganhar a corrida ultrapassando o Al Unser Jr. por fora na última volta, coisas de moleque, passando o Michael Andretti na Pensilvânia, na frente de todo mundo. Nada. O cara acaba a gasolina na última curva. Eu penso: “Putz, acabou a gasolina do (Max) Papis”. Nisso vem o Montoya e quase me passa. Quase que eu perdi a corrida sendo o nó cego do ano. Não esperava. Se me perguntassem se eu ia ganhar aquela corrida, diria que você estava louco.

GP: E ela gerou um momento histórico, que foi a narração do Téo José: “Não perde mais... Perde, sim! Perde, sim!”...
TK: O Téo tem dois episódios. Ele vai me matar, mas ele também gosta de falar de todo mundo. A primeira, vamos voltar um pouco no tempo, foi em 1997, na Indy Lights. Como tudo na minha vida, nada vem fácil. Tudo é dramático. Na corrida final, o pneu do meu carro furou, o Helinho precisava chegar entre os primeiros e, quando aconteceu isso, ele liderava a corrida. O campeonato estava ganho para ele. Ao entrar nos boxes para trocar o pneu, rodei, troquei só aquele (não existia pit-stop na Indy Lights) e, faltando duas voltas para o fim estava em 13° - precisava chegar em oitavo para ser campeão, independente da posição do Helinho. Só que bateram cinco carros, eu subi para oitavo e o Helinho errou, caindo para quinto. O Téo José achou que o Castroneves havia vencido o campeonato. Ele gritava: “Helio Castroneves campeão”. E eu comemorando e a TV mostrando. Aí ele: “Campeão! Campeão!... Ih, peraí...”. Eu tiro sarro dele até hoje. E tem a de 99: “Não perde mais Max Papis... Perde, sim!”. Só que ali era torcida. Na primeira vez eu o crucifico pelo resto da vida. Primeiro: minha história com o Helinho, a rivalidade, tal. Ele dá o título pro cara que não ganhou o campeonato. Eu ganhei, estou comemorando, está passando ao vivo. Pela primeira vez passou uma corrida da Indy Lights ao vivo no SBT. Todo mundo vendo, passou propaganda a semana inteira. Quem ficou mal foi ele, pois eu comemorei do mesmo jeito, peguei o dinheiro, tal. Mas na Champ Car foi torcida, como se ele estivesse empurrando: “Vai, Tony! Vai, Tony!”. Foi engraçado. Dois momentos que ele também nunca vai esquecer.

GP: Sua mudança para a IRL se tornou inevitável pelo rumo que tomou a Champ Car?
TK: Não. Na verdade a minha mudança se deu por causa do meu relacionamento com a Honda. Eu tinha contrato pra ficar na Champ Car, tanto com a Mo Nunn, quanto com a Newman-Haas, aí o Bruno (Junqueira) assinou com eles. E, isso ninguém sabia, a Honda me chamou em maio e disse: “Faremos a IRL no ano que vem”. Pelo relacionamento com eles, não hesitei e disse: “Estou com vocês”. Além disso, estava em uma equipe superpequena e vi uma chance. Sabia que seria com o Michael Andretti, que eles me colocariam lá dentro. Seria a primeira vez na minha vida que correria para uma equipe grande. Então, inevitável não foi, pois não vou dizer “sabia como seria”. Mas fui leal à Honda e aos meus instintos porque pensei: "Vou correr com o Michael Andretti. Eles não vão montar uma equipe junto com a Honda para fazer besteira”. Então sabia que era a oportunidade da minha vida. Escutei muitas críticas. Escutei, inclusive, que eu ia me afundar, que me aposentaria no ano seguinte, e foi lá que conquistei o maior título da minha carreira. Então, acho que a escolha foi certa.

GP: O acidente do Zanardi, seu amigo e companheiro de equipe, em 2001, te fez repensar a carreira naquele momento?
TK: Não. Já tínhamos perdido o Greg Moore em 1999. O acidente me fez repensar em como a gente pode ser forte na vida, pois o cara é um exemplo para qualquer pessoa. Ele fez a Maratona de Nova York, me contou na semana passada que fará a Paraolimpíadas no ano que vem pela Itália. Até falei pra ele: “Você é um retardado da cabeça”. Eu sofri bastante na hora. Para se ter uma idéia, a gente trocava de roupas juntos. Eu não tinha idéia da extensão do acidente e, quando fui me trocar para ir ao hospital, vi as roupas dele e o par de tênis dele. Pensei: “Pô, vou levar o tênis para ele usar quando for deixar o hospital”. Tenho esse tênis até hoje, não tive coragem de devolver para ele. Falei que estava com ele, serviu em mim, uso ele até hoje. Mas tento sempre encarar as coisas como fatalidade. O automobilismo é um esporte perigoso, está cada vez melhor em termos de segurança, mas está longe de ser totalmente seguro e é minha vida. Nós somos pagos e reconhecidos pelo que é, pois somos os poucos que tiveram coragem de se arriscar nisso. Tem de ter um risco, e eu encaro como uma fatalidade, assim como o acidente do Rafael (Sperafico). Qualquer corpo que for atingido por algo a 200 km/h não vai sobreviver. O do Zanardi foi o momento errado na hora errada. Aconteceu. Serve para a gente aprender. Você fica calejado. Não vou te dizer que você senta confortavelmente no carro depois que algo desse tipo acontecer. Mas é como o médico: ele convive tantas vezes com doenças e tal e quando informa uma notícia ruim, uma pessoa diz: “Ele me deu a notícia com tanta frieza”. A gente é assim também. É um auto-bloqueio que você tem de ter. Senão é melhor você parar.

GP: O acidente mais grave de sua carreira foi em Detroit no ano de 2000?
TK: Foi o de Detroit e o do Japão, mas o de Detroit eu sofri mais, pois foi em uma época diferente da minha vida, era meu terceiro ano na Champ Car, em uma equipe pequena, com um engenheiro que havia ganhado tudo na vida com o Zanardi na Ganassi, que era o Morris Nunn. Então todos achavam que o Morris era muito bom, e eu não estava guiando bem. Aí dou uma porrada daquela, quebro um braço e sete costelas, fico fora de quatro corridas, em uma época em que não tinha nada de dinheiro e pensava: “Agora acabou, pois não vão querer me contratar de novo”. Aquelas coisas de insegurança, que os pilotos novos têm. A de 2003 nem tanto, pois já tinha quebrado o mesmo braço, do mesmo jeito, pensei: “Ah, daqui três semanas está bom”. Andei em Indianápolis e fui o terceiro com o braço quebrado, então estava em outra época da minha vida, com uma equipe que me deu apoio. Saí do carro com o braço quebrado no Japão e eles me disseram: “Fique tranqüilo. Vá se recuperar que, em Indianápolis, o carro é seu. Se você não correr, ninguém vai andar”. E isso não aconteceu na outra. Tentaram me colocar pra baixo, falar: “Agora a gente vai ver, vamos colocar outro piloto aqui”. Aí viram que o problema não era eu, era o carro. O Bryan Herta andou lá e não fez nada. Eles tinham vários problemas na equipe, então posso dizer que Detroit foi meu pior acidente. E o que mais me impressionou foi na hora que eu acordei, no hospital, o Padre Phil estava na minha cara. Então imaginei que já tinha ido pro Céu. Mas, sabendo como sou, acho não vou pro céu quando morrer, a hora que olhei pro Padre Phil, eu cheguei à conclusão de que não havia morrido (risos).

GP: De todas as Indy 500 que você perdeu, qual a mais frustrante?
TK: Ah, a do ano passado. Conversando com o Michael Andretti, dá até vergonha de dizer que estou frustrado. O cara correu 25 e perdeu todas. Liderou o maior número de voltas na história da Indy 500, três corridas inteiras, e não venceu. Discordo das pessoas que dizem: “Eles reiniciaram a corrida, pois era você que estava na liderança”. Concordo de terem continuado a corrida. Na hora é aquela coisa: você vê 400 mil pessoas que foram lá para assistir 500 milhas e, conforme o regulamento, você já poderia dar ela como encerrada, no fundo eu queria que dessem a vitória pra mim, é lógico. Tenho que ser egoísta um pouco. Mas você imagina a situação: tem gente que espera um ano inteiro para ver metade da corrida. É como ver um filme pela metade. “Você está esperando pela estréia do ano, mas vai parar pela metade e ano que vem você volta para ver outro, pois este você não vê mais”. Eu entendo esse lado, mas, pensando no Tony, tinha que ter acabado ali, principalmente pelo fato deles saberem que iria parar de chover naquele momento, mas continuaria mais tarde. Se não vai acabar inteiro, porque vamos começar de novo e não acabar de novo? Eu penso em mim e eles neles, claro, e fiquei frustrado. Para mim, o carro que tinha, o domínio no mês, na corrida. Liderei a hora que quis, passei a hora que quis. Não me deram a chance de competir o que podia. Não foi um erro de ninguém, como na Granja Viana. Foi a natureza. E ninguém controla a natureza, a não ser o cara lá em cima. É uma coisa que estava fora do alcance das pessoas ali dentro. Não era meu dia e corrida é assim: você perde mais do que ganha e, se for escolher uma que mais frustrou, citaria esta corrida.

GP: E a Indy 500 ainda é sua meta principal?
TK: Hoje em dia é fácil falar que é minha meta, pois já ganhei o campeonato. Mas, se você me perguntar: “Você trocaria um campeonato pelas 500 Milhas?” Aí eu te diria que não sei. As 500 Milhas são as500 Milhas. Ela é a única prova que dá US$ 3 milhões em prêmios, você coloca a cara no troféu, seu carro vai para um museu... Agora, você ter sorte em um dia e esse dia ser justamente o das 500 Milhas é muito diferente do que você ser campeão após 17 corridas. Na minha cabeça, essa corrida é o que é por ser injusta. Não ganha o melhor. Ganha aquele que for o dia dele. Lógico que você tem de se preparar e ser o melhor, mas isso não quer dizer que você será o campeão de Indianápolis. É como um vestibular. O cara passou em primeiro no vestibular, mas o 40º colocado na lista virou um medico, virou o cara, fez a vacina contra o câncer e quem passou em primeiro está em um hospitalzinho. Você não pode julgar o talento da pessoa por ele ser o vencedor de Indianápolis, não. Ele, naquele dia, fez o melhor trabalho, a equipe fez, não interessa como ele ganhou. O Helinho ganhou uma corrida que a equipe fez uma estratégia de não colocar gasolina, deu uma amarela, ele estava em primeiro, a gasolina ia acabar na volta seguinte, mas acabou a corrida, não interessa! Gente, o cara ganhou a corrida. Você vai tirar o título dele? Não. Você sabe disso? Não. O Zé da Esquina sabe? Não. Ele sabe que o cara ganhou a corrida. Ganhou, acabou. É uma corrida injusta nesse sentido. Tem de ser o seu dia. Se eu tivesse ganhado as 500 Milhas na volta 103 no ano passado, tinha um ou outro que iria dizer que eu teria vencido meia 500 Milhas. Mas, no ano seguinte, perguntariam quem seria o campeão e a resposta seria: Tony Kanaan ganhou. Para mim, ela é uma das corridas mais importantes. Até maio, ela é a meta. Passou maio, a vida segue. Quantas vezes o Rubinho quis ganhar o GP do Brasil? Quantas vezes o Ayrton quis ganhar? Ganhou duas, mas até ele ganhar a primeira, foi uma suadeira. Se a gente pudesse escolher... Pra mim, não é a meta. Farei de tudo, vou me esforçar, se ganhar serei o cara mais feliz, mas, se não der, minha vida não acabou.

GP: Em 2004, em que ponto do campeonato você percebeu que seria o campeão?
TK: Quando ganhei, na penúltima corrida. É um campeonato muito competitivo. O tanto que dominei, terminando entre os cinco primeiros, foi até a penúltima corrida. De todos os campeonatos, o menos sofrido foi esse, pois não precisei ir até a última, mas na IRL não dá pra dizer que o campeonato está na mão, pois, você viu, disputamos até Chicago e o (Scott) Dixon era o campeão até a última reta. Quando passei a bandeirada em Fontana, eu pensei: “É meu, ninguém tira”.

GP: Você disputa regularmente algumas provas de Grand Am e ALMS. Você considera essas categorias como opções para o futuro?
TK: Com certeza. Voltamos ao circuito Honda da parada. Eles tem um carro, o Acura, com o qual ganhei as 12 Horas de Sebring. É uma opção, com certeza. Não penso em deixar a IRL, ainda. Meu contrato vence em 2008, mas pretendo renovar por um bom tempo. Quem sabe algum dia, antes de voltar pro Brasil, se surgir esta opção, seria uma boa.

GP: A Stock Car, que você testou no fim de 2005, foi só uma brincadeira?
TK: Ah, não. Isso aí, quem sabe. Hoje em dia a Stock vem mudando muito de característica. Antigamente eram os velhos, os “dinossauros”, Chico (Serra), Ingo (Hoffmann), que ainda aceleram pra caramba, mas hoje em dia tem uma molecada que é complicada. Se eu resolver voltar para o Brasil, morar no Brasil quando me aposentar das pistas lá fora, se tiver oportunidade, é uma opção. Não agora.

GP: A Penske exerce o mesmo fascínio que a Ferrari exerce na F-1? Se você não corresse na Andretti Green, você correria na Penske?
TK: O Roger (Penske) é diferente. Ele é um mito no automobilismo. Ninguém tem mais títulos em Indianápolis do que ele. É um ícone do automobilismo mundial. Seria um prazer muito grande correr para dele. De repente, é como dizer: “corri pela Ferrari”. Mas estou muito bem na Andretti Green. É uma equipe que virou parte da minha família. Me preocupo com o que nem preciso me preocupar, dou palpite, eles me ouvem, a gente troca idéia... Só trocaria de equipe hoje – tire o lado financeiro. Hoje, graças a Deus, cheguei a um lugar onde estou financeiramente tranqüilo – em algum lugar onde me dê aquela coisa de acordar no dia seguinte e pensar: “hoje vou correr para este lugar”. Pra correr para eles eu teria de sentir isso, é uma troca que hoje é muito forte com a Andretti Green. Mas seria um prazer correr com o “Capitão”, como o chamamos. Só que não dá pra pensar. Se tivesse oportunidade, sim, gostaria, mas não penso em oportunidades que não surgiram. Temos um relacionamento muito bom com o Roger por causa do Gil de Ferran, pela briga de carreira com o Helinho. A gente sempre conversa quando se cruza. É uma coisa que não cheguei a pensar. Se chegar uma proposta, é capaz de pensar na história. Nunca diga nunca. Hoje em dia correria por três equipes: Ganassi, Penske e Andretti Green.

GP: Qual foi a sensação que você teve ao sair dos boxes pela primeira vez com o carro da Honda?
TK: Fiquei dando risada meia volta. É aquela coisa: estava lá sem pressão nenhuma, não tinha que mostrar nada para ninguém, se virasse rápido, se não virasse rápido... Só não queria destruir o carro, pois aí não ficaria legal. Foi um prazer do tipo... É uma criança em um parque de diversão. É como a primeira vez em uma montanha russa. Tava lá com o Gil (de Ferran), que é um amigo e tava lá trabalhando na equipe. Lembro que acordei de manhã e falei para a minha esposa: “Vou ao parque de diversões”. Acelerei o que tinha de acelerar, mas, infelizmente, o carro quebrou com 35 voltas. Metade da volta inicial eu passei rindo. Lógico que depois a gente se concentra e tal, mas foi o único dia que curti mesmo guiar um carro daquele porte sem precisar provar nada. Nem na Granja Viana curti tanto.

GP: Tirando a Indy 500, falta a você realizar algum sonho?
TK: (pensativo) Ah, tem, claro. Acho que correr Le Mans é algo que quero muito. E também quero ser companheiro do Rubinho em alguma equipe.

GP: Falando em Rubinho, você adora fazer pinturas diferentes no capacete, principalmente misturando com a de seus amigos. Qual será a sua próxima arte?
TK: Ah, não posso contar! Aliás, essa última foi muito legal, mas eu não tenho mais, pois o Rubinho, ladrão, roubou. Coloquei metade da minha pintura e metade da dele, com o nome do Leonardo na minha parte e o dos filhos dele na parte dele. Nesse ano, trocamos de capacete – usei o dele em Indianápolis e ele correu com o meu em Mônaco. Aliás, Rubens, foi o seu melhor resultado pela Honda, então sugiro que você corra mais com meu capacete (risos). Para o futuro, ainda estou pensando. Já tenho algumas idéias para o início deste ano, então vamos ver. Capacete é muito da personalidade. A história do meu é assim: quando eu era moleque, meu cabelo era ruim, igual ao do Bruno (Vicaria). Cresce pra cima, estilo Ronaldinho. E eu tinha um amigo, o Caio, que ele é loiro, de cabelo liso, que ele colocava para trás da orelha e a mulherada pirava. E eu era frustradíssimo por não ter um cabelo bom. Aí eu fiz a pintura do meu capacete nesse estilo, as duas faixas dele passam como se fosse por trás da orelha. Não é loiro, mas a história é essa: o cabelo frustrado inspirou o capacete.

GP: Aliás, o que foi aquilo na copa de 2002, quando você, o Christian Fittipaldi, o Cristiano da Matta e o Bruno Junqueira cortaram o cabelo estilo “cascão” após a conquista do penta?
TK: Bom, o sr. Christian Fittipaldi é o rei do duvido. É aquele cara que fica provocando o cachorro quando está preso e sai correndo quando o soltam. Você fala algo pra ele e ouve um “duvido”. Ele duvida de tudo. Bem, ganhamos a Copa e tinha a corrida em Chicago. Com o cabelo ruim, já andava com ele curto e, pra mim, não mudaria nada. O Cristiano já estava meio careca, o Christian com aquele cabelão dele. O (Roberto) Moreno teve até de pegar cabelo do chão para fazer uma “xuquinha” na frente. Então, estávamos todos assistindo a final no motorhome, a coisa estava ruim antes do primeiro gol e falei assim: “Se o Brasil ganhar, vamos cortar o cabelo como o do Ronaldinho”. A primeira palavra que ouvi? “Duvido”. E, como eu corto meu cabelo, ando com minha máquina de mão. Para a infelicidade da Andréa, esposa do Christian, o Brasil ganhou a Copa e todos cortaram o cabelo. Ela ficou sem falar comigo e com ele por uma semana. O Christian é um cara bonito, mas ele ficou feio pra burro. Lembro que fomos para o aeroporto e parecíamos membros de alguma seita, pois éramos em cinco, todos carecas e com um chumaço na frente. A meta era chegar em Miami com o cabelo. Foi uma aposta graças à palavra mágica, que é “duvido”.

GP: O Tony Kanaan fez algo de errado em sua carreira?
TK: Sim, lógico. Mas em que sentido?

GP: Você é um cara explosivo. Em algum momento você tomou alguma atitude arriscada?
TK: Não. Mesmo sendo explosivo tento ser correto na pista. Em Toronto, 1996, o Helinho fez a pole e eu larguei em quarto. Não tava nada contente com a pole dele, assim como ele não ficava contente quando eu marcava, já que corríamos na mesma equipe. O dono da equipe falou: “Largue tranqüilo, pois quem larga atrás tem mais chances”. Como era uma longa reta, conseguíamos pegar o vácuo dos carros da frente. Bom. Lá vai Tony Kanaan passar todo mundo na primeira curva para ganhar a corrida, coisa de moleque. Não é que eu acertei o Helinho. Eu fui capotando, passei por cima, o tirei, tomei uma bronca fenomenal do dono da equipe. Foi uma cagada. Quando você fica mais velho, você não se importa em tomar pau, você tenta entender. Essa foi uma coisa de moleque. Em 1994, liderava minha primeira corrida da F-Alfa Boxer com uns 15 segundos de desvantagem, saí rodando e dei no muro na tentativa de marcar a melhor volta. Coisa de inexperiência que acontece com qualquer um. O Hamilton perdeu o campeonato na China. O Senna perdeu uma corrida em Mônaco. São besteiras que todo mundo faz. De ser incorreto, certamente, hoje, o que não faria de novo era a briga com o Sam Hornish Jr. Essa foi a cagada número um. Na volta de desaceleração, tirei uma “fina” do carro dele que não precisava, por estar puto com o que aconteceu nas voltas anteriores – que foi um acidente de corrida, como pude ver depois. Aí deu no que deu. Uma atitude não justifica outr, e ainda acho que o pai dele foi extremamente errado ao se meter e me dar um empurrão, assim como eu não devia ter passado daquele jeito por ele. Foi a número 1.

GP: Tem algo de que você se arrepende?
TK: Procuro não me arrepender. Tento minimizar o prejuízo depois. Não me arrependo de nada. Todas as decisões que tomei, certas ou não, serviram para algo. Se não foi a decisão certa, serviu para eu deixar de ser “mané” e não errar depois, pensar melhor, ter mais calma. Tudo isso serve para a gente crescer. É fácil ser explosivo e pedir desculpa depois. Se servir para algo, não me arrependerei. Tudo é válido, tanto as coisas boas quanto as ruins. Tem coisas que ainda acho que podem ser melhor resolvidas. Meu caso com o Hornish resolveu, mas nunca falei mais com o pai dele. A vida é muito curta para você perder tempo com algumas coisas e tem coisas que eu não quero ficar martelando. Se me incomoda, vou lá e falo na cara. Se não fizer diferença, se não quiser falar comigo, não fala. Os meus amigos eu sei quem são; os que faço questão que saibam o que sinto ou que eu devo satisfação têm isso, gostando ou não. Às vezes sou explosivo, mas é o meu jeito e tento melhorar, como eles também têm. Só que existem algumas coisas que eu gostaria de resolver e uma delas é a minha história com o Castroneves que rolou há dois anos, onde cada um tem a sua opinião, nos respeitamos e conversamos, mas gostaria que ninguém que convive com a gente se metesse mais, mas um dia a gente resolve. Se até Senna e Prost se resolveram após um deles aposentarem. Quem sabe, quando a gente se aposentar...

GP: Em 2008, você será uma espécie de tutor. O quanto de liberdade que você terá para puxar a orelha do Marco Andretti, o filho do chefe, por exemplo?
TK: O chefe (Michael Andretti) me dá toda a liberdade do mundo. Só não vou me sentir um Deus, pois às vezes eles andam mais rápido que eu. Dentro da equipe, tenho toda a liberdade com os pés no chão e fazendo meu trabalho. Não me acho melhor que o Marco, nem que a Danica (Patrick) em nenhum momento, mas por ter mais experiência consigo me aproveitar mais de uma situação do que eles. Não é nem liberdade, mas é um pedido do Michael. Ele mudou o filho para Miami para eu ficar controlando ele, ir para a academia comigo, não deixar ele gastar dinheiro. Eu entendo o Marco, que tem 20, 21 anos, é um Andretti, corre numa equipe legal. Eu sei como é, então peço calma, sempre com respeito. Puxo a orelha nunca do jeito de guiar, mas mostrar meu ponto de vista ou o da equipe quando a coisa não vai bem, quando ele não quer dar entrevista por estar chateado, o jeito que ele fala com o engenheiro. Isso que eu tento passar. O carro, querendo ou não, quando eu acerto o meu, é só pegar e copiar. Eu nem sei o que eles conversam no rádio, pois estou trabalhando, também. Como eu tenho mais intimidade com o Marco, ele é meu amigo, falo com ele até sobre a namorada. Não estou lá pra vigiar ninguém, mas se puder ajudar com qualquer coisa eu puxo de lado e falo. O Marco, recentemente, me puxou de lado, pois achou que eu estava gritando com o meu engenheiro, com quem trabalho desde 1996. “Você diz para eu não gritar com o meu e está gritando com o seu”. Dei razão para ele. A gente se ajuda muito.

GP: E você se dá bem com a Danica?
TK: Sim. O relacionamento dentro da equipe é muito bom. Com ela, claro, não vou falar o que converso com o Marco, afinal ela é uma menina e nós somos dois moleques. Conversamos bastante sobre acertos e tal. Ela escuta mais do que fala. Ela, em muitas ocasiões, contribui muito com pontos válidos. Claro, homens se entendem mais entre si na maneira de pensar e é engraçado ver como nós, em situação de dificuldade, ver com reagimos e como ela reage. Ela é mais calma, calculista. Vocês levam mais vantagem sobre nós, pois são mais fortes em alguns aspectos. Nós entramos gritando nos boxes e ela não muda o tom de voz. Não generalizo, mas 80% dos homens entram nos boxes dando chilique e ela não. Eu aprendo bastante e nosso relacionamento é ótimo. Trato ela como homem. Nos tratamos por igual.

GP: Entre ela e a Milka Duno, qual a melhor?
TK: Das que eu conheço e que já vi guiar, ela é o Schumacher, disparado. É um esporte “masculino”, que ela vai e compete de igual para igual com um monte de gente. Ela tem umas vantagens, que é o peso e a estatura. Por outro lado, o HANS dela não entra no meu braço. A musculatura do meu braço é mais grossa que a do pescoço dela. É uma desvantagem. Sem puxar saco, mas muita gente vem falar com a gente só pra ouvi-la. E ela é a melhor que já conheci.

GP: Durante esta entrevista (no restaurante onde foi realizada), tocou uma música no fundo, “We Don’t Need Another Hero”, da Tina Turner, que geralmente é uma cantora associada ao Senna, “Simply The Best”. Qual a música que deveríamos associar a você, ou qual a que você escolheria?
TK: Deixa eu ver... (Pensativo). Vou procurar aqui no meu telefone. Tenho todas minhas favoritas aqui. É engraçado, pois sempre estou usando música quando brinco com alguém, com minha esposa, com meus amigos, tal. Quando a Ivete Sangalo cantou “Poeira”, falava que essa era a música do Sam Hornish na época que estávamos brigados. Vou escolher uma música brasileira, que tem mais a ver. Vou ser um pouco nostálgico: da minha vida, duas músicas que me identificam. “Quando a chuva passar”, da Ivete, que me perguntava porque tudo era tão difícil. E a outra, que é difícil de ouvir por motivos óbvios, é “Pai” do Fábio Jr. O Rubinho chorou no carro quando estava ouvindo. Acho que ele está ficando velho...

Veja também o álbum de fotos da carreira do piloto.



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