Tony Kanaan (parte 1)
Warm Up
09/01/2008 - 09:59



BRUNO VICARIA
VICTOR MARTINS
EVELYN GUIMARÃES
de São Paulo


Não é fácil seguir um roteiro ou uma pauta quando se vai entrevistar alguém que tem tanto a falar. Cada assunto gera um gancho que vai desviando a conversa para lados não imaginados. E quando sentamos nós três, Bruno Vicaria, Evelyn Guimarães e eu, Victor Martins, para conversar com Tony Kanaan, logo a pauta preparada pelo primeiro começou a provocar atalhos. Ótimos atalhos. Que, esperamos, tenha cumprido a rota original.

Não foi uma simples conversa sobre um cara que sofreu na vida quando criança e que, por ela, fez um amigo-irmão, encontrou outro e soube trilhar o caminho da glória. Foram quase uma hora e 20 minutos de um papo que poderia se estender por mais num restaurante em São Paulo porque muita coisa havia a ser explorada. TK mostrou seu lado religioso, relembrou o pai, comparou-se aos colegas, disse o que faria ou não, zombou de muita gente, até revelou que as linhas de seu capacete se tratam de inveja por não ter o cabelo que um amigo de infância tinha. E foi tanto assunto que tivemos de dividir a entrevista em duas partes.

Eis a primeira, aqui. A segunda fica para amanhã.

Grande Prêmio: Vamos começar falando de família e amigos... Quem te dá mais trabalho, o Leonardo ou o Rubinho?
Tony Kanaan: Ô briga boa! Vou te falar que é o Leonardo, pois quem dá trabalho pro Rubinho sou eu! Ele é mais velho, então está sempre me chamando a atenção. É até curioso porque tiveram dois incidentes nestas três semanas onde eu aprendi bastante. Não vou entrar em detalhes de alguns, mas tivemos uma discussão em Florianópolis e, como bons irmãos, sempre tivemos um arranca-rabo, sou um cara mais explosivo. Ele me puxou de lado em uma discussão que estava tendo com ele e isso me impressionou. Então acho que o Leonardo me dá mais trabalho.

GP: Com o nascimento do seu filho, você chegou a repensar algumas coisas?
TK: Na minha carreira, não. Na minha vida, meus valores mudaram, logicamente. Sua vida muda no sentido de que todo seu tempo livre agora será destinado ao filho. Antes eu ia ao shopping, ficava em casa no domingo vendo televisão; esta paz não existe mais. Mudou a rotina, mas não me fez repensar nada nas pistas. Ele nasceu na melhor época possível, no fim do campeonato. Não tive a experiência de disputar um campeonato inteiro de IRL com meu filho, mas tive corridas em Laguna Seca, no Japão, em Florianópolis e na Granja Viana já com ele, e o que pude sentir é que a única diferença é que, depois de um dia não tão bom dentro da pista, quando chego em casa e vejo ele, esqueço tudo isso. Você não desconta na mulher (risos).

GP: Voltando mais no tempo: como foi a decisão de continuar correndo após o falecimento do seu pai?
TK: Não foi uma decisão difícil, mas a história, para quem não sabe: meu pai foi meu maior incentivador, e sempre me disse – como ele sabia que já estava doente, com câncer, e corria o risco de não estar por um bom tempo: “Olha, é isso que você quer e, aconteça o que acontecer, você tem de manter a perseverança”. Ele morreu numa quinta-feira de madrugada. E eu tinha corrida no domingo. Nisso, na noite anterior, ele me chamou no hospital e disse: “Se acontecer alguma coisa comigo, queria que você cuidasse da sua irmã, da sua mãe e queria que você prometesse uma coisa para mim: nunca pare de correr”. Eu perguntei: “Mas, nunca?”, e ele respondeu: “Quando você estiver velho, sim, mas nunca desista”. Fui dormir e ele morreu naquela madrugada. Acordei no dia seguinte, minha mãe me deu a notícia. Tinha 13 anos e acho que nessa idade é um pouco mais fácil assimilar uma morte aos 13 do que quando se está mais velho, acho que é pelo fato da gente ter sofrido menos na vida com essa idade. Levantei e falei: “Bem, vou pra pista”. Perguntaram: “Como assim?”, e eu fui, treinei, corri, ganhei no domingo e, a partir daí, como tive força de agüentar o fim de semana – não fui no velório, no enterro, não queria ver, pois ele não estava mais ali para mim –, tive a certeza de que era isso mesmo que queria fazer. E aí vem a história toda das dificuldades financeiras, onde tive de trabalhar na fábrica de kart do pai do Rubinho, que me ajudou a vida inteira. O Geraldo Rodrigues, também... Se for mencionar os nomes, vamos fazer uma lista que é capaz até de esquecer alguns. Naquele momento, na segunda-feira após a morte do meu pai, eu tive certeza que não tinha volta, era o que eu queria fazer na vida. O mais importante que eu tento explicar, também, é que eu tinha na cabeça que seria um piloto profissional e viveria de corrida. Não falei que “quero ser um piloto de F-1”, ou “quero ser um piloto de IRL”. É muito difícil você aceitar a realidade de quantos que querem ser e não são. Botei na minha cabeça que queria viver de automobilismo, e posso te falar que, se esse era meu sonho, conquistei-o com certeza.

GP: Religiosamente, você acredita em quê?
TK: Sou um cara católico por família. Fiz primeira comunhão, rezo o Pai Nosso, fui em missa, mas tenho um lado meio espírita. Respeito todas as religiões, mas estou no meio. Acredito em Deus, uso a cruz, mas acredito no lado espírita.

GP: Nesse meio-tempo, você sentiu a presença do seu pai?
TK: Algumas vezes. Não vou aqui falar que já vi meu pai. Converso com meu pai diariamente. Acho que fui para o lado espírita porque, quando era moleque, sentia muito a presença dele e dizem que no espiritismo não é bom pedir ajuda para quem já se foi, pois ele não se desprende de você. Aprendi a rezar com ele e conversar. Quando meu filho nasceu, disse: “Pai, olha que ‘do caramba’. O moleque ta aqui”. Sinto a presença dele em alguns momentos. Pela ligação que tenho com ele, por pensar nele – existem fotos dele na minha casa –, eu convivo com ele. Por mais que não o veja, a saudade e o tempo o tornam presente e você esquece a dor. Nada como o tempo para fazer a gente esquecer. Sinto bastante a presença dele, sinto que ele está comigo em algum lugar me protegendo, curtindo minhas vitórias, minha família, meu filho. Mas, assim, não vou dizer que ele estava aqui quando ganhei meu campeonato. A única vez que eu senti a presença dele de verdade foi com o melhor amigo do meu pai – que é uma pessoa muito querida e que me ajudou muito na vida, mas não o vejo muito, por não morar aqui. É um “tio-não-tio”. Tive um sonho três dias antes do meu casamento com ele, não sei os motivos, em que ele disse: “Olha, para a primeira pessoa que você olhar quando entrar na igreja, seu pai estará lá, do lado dele”. E, por incrível que pareça – fico até arrepiado –, a primeira pessoa que vi foi esse meu tio, aos prantos. E ele é um cara que não chora. Na hora, tive que me segurar, pois foi a única vez que senti que meu pai realmente estava lá. Em corrida, sei que ele está por ali, agradeço, curto, trago os troféus: o que eu ganhei naquele domingo após sua morte permanece na cabeceira da cama dele, mas não tem essa de situação de ver ele nas pistas.

GP: A partir de então, sua família passou a se dedicar a sua carreira. Como foi o suporte deles?
TK: Na verdade, como toda a família de piloto, a minha também viveu em minha função. Pra minha mãe foi superdifícil. Ela tinha 34 anos na época, dois filhos, era supernova. Minha mãe abdicou de muitas coisas – não tínhamos mais dinheiro, perdemos tudo e, graças a Deus, a casa era nossa e foi o que nos restou. Então todo mundo foi se virar. Na infância da minha irmã, minha mãe se dedicou 80% para a minha carreira, por um pedido do meu pai. Minha irmã entendeu isso, mas ficou meio que de lado. Agradeço e reconheço até hoje o sacrifício das duas, pois minha mãe foi mãe e pai e minha irmã foi irmãzona, incentivando, dizendo: “Vai lá, deixa que eu me viro”. Ela cresceu no bolo e, hoje, são duas pessoas maravilhosas. Dou presente de Dia das Mães e Dia dos Pais para ela, e minha irmã é uma pessoa bem-sucedida. As coisas não acontecem por acaso, e isso ajudou ela a ser o que é. Ela trabalha em marketing, tem a vida dela, a carreira dela, é respeitada no meio e, em termos, acho que isso ajudou ela.

GP: Voltando para as pistas: curiosamente, seus melhores amigos, o Rubinho e o Christian, você fez no kart e construiu esta amizade até hoje...
TK: Se você me perguntar como foi minha infância, vou te dizer que ela aconteceu comigo andando de kart. A deles, também. É como um amigo de escola: você estuda com alguém do pré até a faculdade e vocês acabam se tornando, mesmo que você não queira, uma pessoa íntima e um amigo seu. Entre o Rubinho e o Christian é isso, desde 1984. São 23 anos de amizade. Passei mais tempo com eles do que com meu pai, por exemplo, se tornaram amigos queridos. O Christian está nos Estados Unidos, é meu companheiro de equipe, contrataram-no neste ano para correr na ALMS, é meu vizinho, é um chato de vez em quando – a gente tem o nosso mal-humor. O Rubinho é padrinho do meu filho, eu sou o do filho dele, a gente quebra o pau, mas dou graças a Deus. Os dois são muito queridos.

GP: Sua carreira transcorreu de uma forma não comum. Ao invés de seguir um caminho normal, em categorias tradicionais, você partiu da F-Chevrolet aqui no Brasil para a desconhecida F-Alfa Boxer, na Itália. O que te levou a traçar este caminho?
TK: Minha carreira é o seguinte: onde tiver, eu vou correr. Não tive o luxo de escolher: “Ah, amanhã vou andar de F-3 Sul-americana, depois correr de F-3000 e ir para a F-1”. Como disse antes, queria ser profissional e precisava sobreviver daquilo. Na minha única oportunidade, não tinha patrocinador, apenas o Rubão e o Rubinho, que me ajudavam financeiramente a sobreviver, e pintou uma oportunidade na Alfa Boxer. Se vencesse lá, ganharia dois motores de F-3 grátis e US$ 100 mil para fazer o italiano de F-3, o que era a minha intenção, e não tinha outra opção. Não traçamos nada. A oportunidade é aqui, então aqui nós vamos. E fomos vivendo um ano de cada vez. Surgiu a proposta da equipe de Alfa Boxer, onde moraria na oficina, de graça e tinha a chance de, se ganhar o campeonato – o que dependia só de mim – correr na F-3.

GP: E foi o que aconteceu...
TK: Ganhei o campeonato e posso dizer que eu fui meu primeiro patrocinador, na F-3. Aqueles US$ 100 mil eu nunca tinha visto na vida, nunca tive, ganhava US$ 1.000 para viver e, de repente, vieram 100 mil. Pensei: com US$ 100 mil no Brasil, poderia arrumar a vida da minha mãe, da minha irmã, mas dei lá para a equipe, ajudei a bancar meu campeonato de F-3 e hoje estou aqui contando a história...

GP: Alguns de seus concorrentes chegou a vingar?
TK: O (Giancarlo) Fisichella. Ele correu comigo de F-3 e está na F-1. Que me lembre, só ele. O (Alessandro) Zanardi já estava mais avançado.

GP: O que não deu certo para você seguir o caminho do Fisichella?
TK: Pra mim? (Pensativo) Primeiro, tinha uma oportunidade de ficar na Itália competindo pela Fiat, o que seria uma coisa muito grande. Tinha a oportunidade de correr de Audi no turismo, substituindo o Emanuelle Pirro, e a chance de ir para os Estados Unidos, fazer carreira na F-Indy. Pensei muito e achei que os EUA, na época no auge com o Emerson, me intrigava bastante. Vi que este caminho me daria a oportunidade de entrar na F-1, ao invés de ficar batendo na porta sem dinheiro e com um monte de gente que tinha tanto talento quanto eu, mas com dinheiro. Foi aquela coisa: vamos ser teimosos o suficiente para bater a cabeça aqui ou ter a mente aberta, pensando: “Não tem isso pra mim agora, mas é um caminho”. Aí tomei minha decisão de sair da Europa, com dois anos apenas lá. Fui para os EUA, não me arrependo, andei de F-1 em um treino e hoje foi a decisão mais certa. Acompanhei de perto duas carreiras na F-1, do Rubinho e do Christian, sabendo de todos os detalhes, que não contarei aqui, e não sei se seria feliz lá como sou hoje em dia na IRL. O automobilismo é minha vida, mas, para quem me conhece, preciso ter algo que me motive. Tenho de acordar de manhã sabendo que posso ganhar corrida. Aquela coisa de família da Andretti Green não existe na F-1, infelizmente. Não sei como me adaptaria nesta história. Pensando friamente, correr para fazer número na F-1 não vale a pena. Não sei se seria tão completo.

GP: Em que momento você achou que não dava mais para fazer o caminho de volta para a F-1?
TK: Depois que virei um piloto da Honda – corro para eles há 12 anos. Ganhei meu campeonato de IRL com 29 anos; aí vejo nomes como Kimi (Raikkonen), (Fernando) Alonso, todos com 20 anos. Tinha outras experiências boas e ruins, como o Michael Andretti, que não foi bem. O Zanardi, idem. Aí veio o (Juan Pablo) Montoya e foi lá, ficou um tempo e voltou. Não é por falta de talento, são coisas distintas. Tudo na carreira é sorte, oportunidade, hora certa e sou bem realista. Pelo jeito que tive de aprender na minha vida, sabia que não seria uma pessoa frustrada. Conforme fui ficando velho, digamos assim, vi que realmente não teria chance lá e apaguei esta meta. E assim, corrida é 100% dedicação, não dá pra correr aqui pensando lá. Então é aqui que vou correr, é aqui que quero ficar e vou me aposentar, se me permitirem escolher a data da aposentadoria. É que nem uma avenida com uma bifurcação: se você escolhe ir para a esquerda, não adianta você pensar que poderia ter ido pela direita. Foi esse caminho que eu segui e não penso: “Ah, acabaram minhas chances”. Pode ser que ano que vem eu vença sete corridas, o campeonato, o Alonso vire para o Briatore e fale que não quer mais correr, a Honda compra a Renault... Quem diria, no início do ano, que o (Lewis) Hamilton daria pau no Alonso? Que o Alonso sairia da McLaren? Que a McLaren perderia o campeonato? Que o Kimi seria campeão? Ninguém. No automobilismo não se pode pensar assim. Fica difícil, mas nada é impossível. O Rubinho, antes de aposentar, pode falar pra japonesada me colocar lá...

GP: Sua relação com a Honda é muito intensa, né?...
TK: Minha relação com a Honda é ótima, é parte da minha família, é minha carreira. É como a Firestone. Ganhei tudo com eles. Sou parte de uma família e a mentalidade é assim: eles querem dominar qualquer tipo de competição. Eles têm um time muito forte e eu faço parte do time dos Estados Unidos. De repente, não é negócio para eles me tirar de onde estou, sendo que eles têm um programa de novos talentos, já têm meninos novos. Se está bom, pra que mexer? Eu os entendo, sou 100% Honda e, de repente, meu lugar é lá e lá eu vou ficar.

GP: Você citou o Christian e o Rubinho, duas pessoas que passaram pela F-1, e relacionou ao tema felicidade. Você sentiu que eles se tornaram pessoas infelizes após correrem na F-1?
TK: Acho que mais amargas. O Christian viveu pouco isso e ele é, falo isso aqui e na cara dele: ele é uma pessoa 100% melhor. Ele é outra pessoa. Lógico que a gente cresce. O Rubinho é outra pessoa totalmente diferente de quando começou na F-1, por causa das críticas. Todo mundo querendo que ele fosse o Ayrton Senna pela perda, tentando substituir. O Christian é uma pessoa melhor, mas tem aquela amargura, e o Rubinho tem mágoas, coisas que você tem que aprender. Corrida é um dos esportes muito ingratos. Envolve uma equipe, mas ganha um só. Por falha da equipe, a culpa é do piloto. É como uma banda. Ela erra, mas é o vocalista que paga. Mas tem o outro lado, o piloto que é famoso, não a equipe. Existem algumas amarguras – não que eu não tenha passado. Quando se envolve dinheiro e investimento sempre tem aquele que fala coisas que você não quer ouvir ou coisas que você tem de fazer sem vontade, mas tem de fazer e assumir, falar que errou. Acho que eles aprenderam muito. Não acho que o Rubinho é recalcado, amargurado, dizendo que não é um cara feliz, pois ele é acima de tudo isso. Virou mania tirar sarro dele, mas, na verdade, eu o admiro muito, pois ele é superior a isso. Ele é um pai maravilhoso, um amigo maravilhoso. Sou leigo para falar dele, pois ele é meu irmão. Eles não tiveram uma carreira como a gente queria, mas não são infelizes, são calejados. Eles sofreram mais do que eu. Eu sofri no começo da minha vida, pela pancada que eu tomei, tive de aceitar a realidade muito jovem e sofrer coisas que hoje me fizeram mais fortes. Eles não tiveram esses problemas, o Rubinho teve um apoio bom financeiramente. O Christian também, pelo nome, teve de carregar um peso do sobrenome, mas foram para a Europa, tiveram casa, carro, mas começaram a tomar paulada depois de velho. Acho que tomei antes e quando cheguei numa categoria top, me encontrei em uma equipe que acreditou em mim, que não me culpa no caso de um acidente, não tem essas coisas. Um sofreu antes e os outros, depois.

GP: Como você explica sua rápida adaptação ao automobilismo norte-americano?
TK: Na verdade, não tive escolha: ou me adapto, ou volto pra casa. Sofri nos meus primeiros anos de Indy Lights nos ovais, mas menos pelo fato de, na época, ter menos ovais e mais pistas mistas. Tive a chance de fazer a transição. A escola foi um pouco melhor. Tive anos difíceis na Champ Car – fiquei cinco anos lá e ganhei uma corrida com equipes pequenas. Sempre andei em equipes de um carro só, não tinha com quem trocar informação, então aprendi meio que na marra. Isso me deu experiência de que, quando, no tempo certo, assinei com uma equipe que me deu carro e a capacidade de ganhar corrida de que aprendi super-rápido, mas, na verdade, no oval gosto de um carro traseiro e é o estilo de carro que anda rápido. Meu estilo de guiar, com o “perrengue” que tive de passar uns três, quatro anos em equipes pequenas, me ajudou a me formar naquele ano em que fui campeão terminando todas as corridas e na IRL.

GP: O título da Indy Lights foi o mais suado de sua carreira?
TK: Foi assim: na época me lembro que foi um alívio e uma pressão muito grande, pois ganhei tudo de kart e, quando fui pro carro, ganhei só o título de Alfa Boxer, que ninguém sabia como era o carro. A Indy Lights era a categoria que me daria a chance para subir, todos estavam de olho, tinha um patrocínio maravilhoso, a Marlboro, que me disse: “Você têm um ano pra aprender e outro pra ganhar, aí a gente te leva para a F-Indy”. Então, ganhei, fiquei superfeliz, atingi minha meta, me senti confiante e ainda estava jovem. Passou a felicidade e pensei: “Agora vou ter de acelerar”, pois teria que correr contra nomes como o Michael Andretti, o Al Unser Jr., o Gil de Ferran. Na época, o Emerson aposentou, mas não fiquei muito triste porque teria de correr contra o tio. Foram duas coisas: a felicidade e a hora da verdade. Quando achei que fiz mesmo foi o campeonato de 2004. Pensei: “Esse ninguém me tira”. Muitas vezes você vê um cara que ganha muitas corridas e pensa que é impossível alcançar ele, mas a confiança do piloto é tudo, muito importante. Um título mundial te deixa melhor porque você o tem no bolso.

GP: Como foi ser o estreante do ano e o melhor brasileiro em seu primeiro ano na Champ Car?
TK: Foram metas que me deixaram mais tranqüilo no quesito insegurança. Aí você vai lá, estréia e pensa: “Agora você está correndo contra gente grande”. E qual sua meta? Ser campeão é que não é, pois você está em uma equipe pequena. Sou estreante, tenho rivais como Helio Castroneves, Patrick Carpentier, campeões em outras categorias, e o campeonato era aquele, ser o novato do ano. Era ter ganhado uma corrida, mas fizemos dois pódios e não consegui. É aquele negócio da auto-afirmação: tenho que ser o melhor e consegui. Já foi mais uma ponta de confiança.

GP: O Helio foi seu maior rival na pista?
TK: Ah, na vida inteira... Não sai do meu pé desde 1986. Tentamos ir para lugares diferentes, eu para a Itália e ele, para a Inglaterra. Nós nos encontramos de novo em 1996, fomos companheiros de equipe juntos, estreamos na Champ Car juntos, brigamos pelo título de novato do ano. Ele teve um pouco de sorte, não por falta de competência, mas, com a morte do Greg Moorem ele teve uma oportunidade de fazer mais que eu na Champ Car, e isso igualou na IRL quando fui para a Andretti Green. Mas, com certeza, o calo do meu sapato é ele.

GP: Ele tem o título que você não tem...
TK: Exatamente, falou tudo. A gente teve, tem atritos. Crescemos juntos, somos competitivos. A gente se adora e se odeia. Eu amo ele de paixão e em várias vezes já disse isso em público. Ele tem dois títulos de Indianápolis que eu não tenho e agora tem o de dança (risos). Esse eu não sei se quero ter, mas certamente ele é e foi meu maior rival de todos os tempos.

GP: Você se sujeitaria a participar de um programa de TV que não é de automobilismo?
TK: Sim, mas depende do quê. Antes de tudo, eu sou casado. Se for dançar com uma mulher bonita como a que ele estava dançando, era divórcio na certa (risos). Segundo: não sei dançar...

GP: Até aí, ele também não sabia...
TK: É, ele não sabia, mas aprendeu. Eu, não. Não sei se iria. Sou um cara que tiro sarro de todo mundo. Se fosse para a TV, não viveria mais, pois meus amigos pegariam muito no meu pé. Minha esposa, quando viu pela primeira vez o programa com o Helio, disse pra mim: “Você nunca faria isso na vida”. Se ele está achando que não vou tirar sarro dele, ele está muito enganado. Sempre tirei, não na maldade, chamo ele de bailarino. Ele curtiu bastante, escolheram a pessoa certa. Não sei se faria isso que ele fez.


Veja também o álbum de fotos da carreira de Tony Kanaan.





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